Dez 2023 14h40
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A websérie e projeto audiovisual Psicanalistas que falam, iniciada em 2016 e dirigida pela psicanalista Heidi Tabacof, tem uma premissa relativamente simples: a de colocar analistas no papel de analisados. Para aqueles que fazem ou já fizeram terapia, não é difícil entender o apelo desse projeto ou seu título irônico. Ver a própria analista numa posição de vulnerabilidade, falando de si própria ou expondo traumas e pulsões, é um desejo tão comum quanto irrealizável. A série de certa forma supre esse desejo: não há entrevista ou perguntas, apenas um espaço para que cada psicanalista convidado discorra livremente, como se estivesse numa sessão.
No caso específico da convidada Isildinha Baptista Nogueira, em episódio recente lançado em setembro de 2022, um formato instigante dá vazão a algo maior – um testemunho que pode ser lido como uma espécie de documento histórico, em que a história pessoal da psicanalista e uma reflexão sobre sua própria negritude atravessa a dívida histórica da psicanálise com a questão racial, por muito tempo ignorada. Ao recordar os anos que passou na França após seu mestrado, ainda jovem, em companhia de Félix Guattari e outros grandes nomes da psicanálise, ela relembra o senso de dever com que Guattari e outros admitiram terem fracassado em incorporar a negritude como aspecto central dos estudos psicanalíticos.
Mas o relato oral de Isildinha não é acusatório; pelo contrário. Ela ressalta muito mais a experiência definidora de ter se sentido parte de um ambiente intelectual – jantando com esses pensadores, indo a festas – e o que isso gerou para sua vida posterior. A experiência de inclusão intelectual é contrastada com a experiência de exclusão que o racismo gera. Ao relembrar a primeira experiência consciente de racismo na infância e o desamparo de outras experiências similares, a psicanalista chega no aspecto mais cruel do racismo (diferente do preconceito e discriminação): o objetivo intrínseco de “desmonte”, o esvaziamento da identidade. Na rua, o corpo negro se torna apenas isso, despido de seus logros ou das nuances que o compõe – a formação intelectual, os gostos, as idiossincrasias. O relato de Isildinha (o uso do primeiro nome talvez seja mais adequado, já que ela mesmo relata como o sobrenome diz pouco de sua origem) comove ao mesmo tempo que disseca.