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Set 2024 09h38
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O documentário Um dos nossos: David Chase e a família Soprano, que estreou em 7 de setembro e está disponível na plataforma de streaming Max, começa numa sala de terapia – a réplica exata da sala em que o protagonista mafioso da série célebre de Chase, Tony Soprano, se encontrava semanalmente com Jennifer Melfi, sua psicanalista. Chase surge na cadeira do paciente, de frente para Alex Gibney, o diretor do documentário. Imagens da infância do criador da série aparecem na tela enquanto ele narra algumas memórias, numa espécie de fluxo de consciência.
“Conte um sonho e perca um leitor”. A frase atribuída a Henry James poderia servir bem a sessões de terapia filmadas ou narradas: se ouvir um sonho alheio pode ser tedioso, imagine vários. A premissa de Gibney, porém, é a de explorar alguns aspectos autobiográficos de Família Soprano, sobretudo a ligação entre a mãe de Tony, Livia Soprano (interpretada magistralmente por Nancy Marchand) e a mãe do próprio Chase, que em certa medida inspirou a série.
De todo modo, o início vagamente experimental do documentário rapidamente dá lugar a uma forma mais simples de narrar, em que diversos membros do elenco relembram episódios das filmagens. O resultado é uma historiografia despretensiosa que entrega pepitas de informação triviais e ao mesmo tempo valiosas para aficionados. Drea de Matteo, que interpreta Adriana La Cerva, por exemplo, ganhou sua vaga no teste de elenco ao esticar a vogal de uma onomatopeia (quando empurrada, disse “Ow-aaa” em vez de “Ow”, uma sutileza ítalo-americana que encantou o diretor). Martin Scorsese não gostava da série, em parte porque estranhava a escolha de Nova Jersey em detrimento de Nova York para ambientá-la. Chase inicialmente queria contar uma história de máfia sem usar violência – regra que depois considerou boba e eliminou.
Gibney tempera essas informações soltas com imagens dos testes de elenco para a série – mostrando James Gandolfini, Michael Imperioli e Edie Falco, entre outros, lutando pelos seus papéis em meio a vários rostos desconhecidos interpretando Tony, Christopher, Carmela e tantos outros personagens que se firmaram na psique dos espectadores nos últimos 25 anos. Gibney também relata as dificuldades que Chase teve para vender a série. A HBO – na época ainda uma coadjuvante entre estúdios, sem a reputação de excelência da qual goza hoje – só a comprou depois de muitas dúvidas e enrolação.
Gibney atiça a nossa ilusão de inevitabilidade (por um triz a série não foi feita!) ao mesmo tempo que a desfaz, pois bastaria que um dos testes de elenco tivesse um resultado diferente para que Família Soprano fosse distinta de como a conhecemos. Talvez inspirado na visão de mundo de Chase, Gibney não aposta em uma grande explicação para o sucesso inesperado da série. Em vez disso, mostra como o caos do acaso, a sorte, decisões instintivas de criadores e decisões improváveis de executivos podem confluir para algo grandioso e permanente.