piauí recomenda

OS CUIDADOS PALIATIVOS E A MEMÓRIA

A Cabeça do Pai, de Denise Sant’Anna, narra a experiência do cuidado de familiares doentes
Imagem Os cuidados paliativos e a memória

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

O livro começa com uma frase enigmática: “Preciso oferecer um galo ao meu pai.” Que galo? Do que estamos falando? Carregamos por um tempo esse problema, mas, à medida que avançamos na leitura, a questão é graciosamente esquecida, substituída por outros enigmas que vão aparecendo. Filha única de pais idosos, Paula – de classe média, casada, com dois filhos – se vê subitamente às voltas com um AVC sofrido pelo pai, que cuidava da mãe com Alzheimer.

Cuidar de entes queridos doentes é uma experiência limite, e o livro trata disso com o devido respeito à sua complexidade. Mas A Cabeça do Pai merece leitura justamente por ultrapassar a contingência terrível de seu incidente gerador. À medida que a narradora se envolve no mundo dos “cuidados paliativos”, a narrativa se lança a outras histórias, disparadas pela memória errática do pai da protagonista. As epígrafes, fáceis de esquecer, lidas lá no início, são um mapa cuja orientação só reconhecemos ao final do caminho. “Todos os dias eu perdia um pouco do pai e um pouco do país. Uma perda sem descanso ou luto”, a narradora diz, num momento em que o texto se dobra explicitamente em reconhecimento do quanto o drama mais privado ecoa a circunstância pública e social na qual ocorre. Em uma ficção de estreia breve e comovente, Denise Sant’Anna – historiadora, pesquisadora e professora da PUC-SP – mostra como a memória constitui e complica o que chamamos de identidade.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.