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Mar 2025 15h47
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Situada na Serra da Mantiqueira, no extremo sul de Minas Gerais, a cidade de São José da Ventania é o palco para as três novelas reunidas no volume que leva o nome do vilarejo, lançado pelo escritor e jornalista Roberto B. de Carvalho e editado pela Impressões de Minas.
Os três relatos colocam em cena dramas dos moradores da cidade ambientados em algum momento entre os anos 1950 e 1960. As histórias se passam na mesma época e localidade, mas não se entrelaçam. São contadas pelo mesmo narrador, que reconstitui os casos que ouvia quando menino, contados pela empregada doméstica que trabalhava em sua casa.
A vila onde as histórias se desenrolam é povoada pelas lembranças afetivas do autor, que nasceu e foi criado em Paraisópolis, cidade mineira que se chamava São José da Ventania até o começo do século XX. Os dramas de seus moradores são clássicos atemporais da condição humana: eles vivem histórias de intriga e amizade, apaixonamento e desilusão.
A seu modo, a primeira novela reencena no Sul de Minas a Ofélia de Hamlet tal qual ficou eternizada na pintura do inglês John Everett Millais, prestes a se afogar num rio. A Ofélia de São José da Ventania vê seu mundo desmoronar após uma decepção amorosa, e seu destino é selado numa misteriosa mata de eucaliptos, o que dá ao relato uma pitada sobrenatural.
Já Guerra santa, a novela central de São José da Ventania, é também a mais extensa e a mais arrebatadora. Seu título remete à violenta batalha travada pela Liga Católica da cidade contra uma peça de teatro. A obra sobre a Reforma protestante seria encenada na escola municipal por iniciativa da professora de história, uma forasteira malvista por alguns colegas. O protagonista do relato é o infame Major Laudônio, líder da Liga Católica e perpetrador de abusos de todo tipo às mulheres que o rodeiam, dono de um falso moralismo que virou figurinha fácil no Brasil contemporâneo.
São José da Ventania é o primeiro livro de prosa que Carvalho assina sozinho; antes disso, ele já tinha lançado três volumes de poemas e participado da escrita a oito mãos de um romance policial. A capa é ilustrada com uma litogravura do artista plástico Amilcar de Castro, o filho mais ilustre de Paraisópolis. As novelas são construídas com minúcia na escolha das palavras e um ritmo que recria a familiaridade e a urgência das conversas de copa e cozinha onde aquelas histórias começaram a ganhar corpo na imaginação do narrador. A leitura harmoniza com broa de fubá e café preto.