Dez 2023 15h36
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O escritor francês Édouard Louis só teve esse nome no registro civil quando completou 21 anos. Até essa idade, seu nome de nascença fora Eddy Bellegueule. “Eddy” foi escolha de seu pai, um fã da televisão americana que achava que esse era o nome de “um cara durão”. Acontece que, enquanto o homem esperava a dureza do menino, ele gostava de fingir ser uma cantora e dar shows na sala de casa. O pai respondia à decepção com o silêncio, se levantando do sofá para fumar um cigarro na varanda da casa.
Mudar de nome foi a segunda atitude tomada por Louis para tentar romper com as projeções do pai. A primeira foi se tornar escritor. Pouco a pouco, conquistou um lugar entre os mais proeminentes autores gays da atualidade. Hoje, Louis é elogiado pela vencedora do Nobel Annie Ernaux, e circula pelo meio intelectual francês com o escritor Didier Eribon, que conheceu quando era estudante universitário.
A Todavia publicou neste ano dois pequenos livros de Louis que conversam entre si. Em Quem matou meu pai, o narrador elenca memórias da infância para tentar entender o que tornou seu pai uma figura homofóbica e autoritária. Lembra, por exemplo, do dia em que a mãe flagrou o filho dançando no quarto e disse que, dançando, era quando ele mais se parecia com o pai. O pequeno Louis demorou para absorver aquela informação. Por vezes escrevendo como se endereçasse uma carta ao pai, Louis diz: “O fato de que seu corpo já tivesse feito algo tão livre, tão bonito e tão incompatível com sua obsessão pela masculinidade me fez entender que talvez um dia você tivesse sido outra pessoa.”
Louis analisa a formação social e familiar do pai, tentando identificar a origem do comportamento violento que, a certa altura, descreve como “sua loucura masculina”. O pai (que no livro não tem nome) deixou a escola na juventude porque entendia que estudar não era coisa de homem. Cresceu sendo orgulhosamente alcóolatra, racista e antissemita, e terminou a vida como um incapaz, depois de um acidente na fábrica em que trabalhava. “A masculinidade o condenou à pobreza, à falta de dinheiro”, analisa o escritor.
Aquele ambiente também era hostil para a mãe de Louis, que deixou o marido quando o filho ainda era criança e se mudou com ele para outra cidade. Ela é a personagem de Lutas e metamorfoses de uma mulher, o segundo livro traduzido pela Todavia. É o olhar terno de um filho para uma mãe extremamente pobre, responsável pelo sustento da casa e dos filhos. Os detalhes comoventes da história são silenciosos, como no trecho em que Louis aprecia a caligrafia da mãe enquanto ela preenche, pela quarta vez, o formulário de um sorteio que promete deixá-la rica. O leitor acompanha a transformação da personagem enquanto os filhos crescem e apresentam para ela uma nova França, um novo mundo e um novo modo de se relacionar com quem diz amá-la.