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Mar 2025 15h48
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Vejo num globo terrestre/de portaria de hotel/ a familiar carga larga/ e torta do Brasil/ simpática, geográfica/ não é história. O curto poema, escrito por Roberto Schwarz durante seu exílio na França, nos anos 1970, exprime a dubiedade que o crítico literário sempre enxergou no Brasil. Parecia, com sua cara larga e torta, um país deslocado do tempo e da história. Um lugar não propriamente periférico, mas jamais integrado ao circuito das potências; não mais escravocrata, mas não plenamente moderno. Terreno fértil para “as ideias fora do lugar”, expressão que serviu de título ao mais importante ensaio de Schwarz, em que o crítico, analisando a obra de Machado de Assis, faz uma leitura original sobre a “comédia ideológica” brasileira. O descompasso entre a ideologia dominante na metrópole e sua prática num país como o Brasil, argumenta Schwarz, nos permite enxergar com lentes críticas a ideologia em si mesma e seu jogo de aparências. É a “vantagem do atraso”.
Schwarz é parte de uma geração de intelectuais marxistas que gravitavam em torno da USP e construíram, a partir dos anos 1960, uma importante escola de pensamento sobre a questão nacional. A história desse grupo é contada no ótimo livro Lugar periférico, ideias modernas, do sociólogo Fabio Mascaro Querido. Começando pelo famoso seminário de O Capital, organizado em 1958 por Fernando Henrique Cardoso e José Arthur Gianotti, Querido reconstitui a trajetória intelectual de autores como Francisco Oliveira, Florestan Fernandes, Paulo Arantes e sobretudo Schwarz, que serve como fio condutor da história.
O livro é um elogio à teoria – que, embora seja muitas vezes estigmatizada como atividade de intelectuais sem contato com a realidade, tem implicações práticas na vida nacional. Nem por isso o livro é maçante. Querido transita bem entre a análise teórica e a história pessoal dos autores que retrata, incluindo algumas boas anedotas sobre a rixa entre marxistas paulistas e cariocas. Uma delas trata de um encontro entre Schwarz e Leandro Konder, em 1968. Schwarz, à frente da revista Teoria e prática, havia encomendado uma resenha crítica a um livro escrito por Konder. Ao encontrá-lo por acaso, numa peça de teatro, comentou que os marxistas, por serem muitos poucos, passavam a mão na cabeça uns dos outros. “Precisamos nos esculhambar mais”, disse Schwarz, segundo as memórias do próprio Konder. Só então, um tanto constrangido, Schwarz informou o colega da tal resenha.
Querido, ao resgatar histórias assim, nos faz sentir saudade de quando os intelectuais da esquerda se esculhambavam mais, no bom sentido da expressão. Tempos em que a ambição de pensar e transformar o Brasil não era uma exclusividade da extrema direita.