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Fev 2025 16h52
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No conto O moço do saxofone, da escritora Lygia Fagundes Telles, o som do instrumento é praticamente um personagem da narrativa. A base do enredo é simples: um caminhoneiro chega a uma pensão. Mas, no desenrolar da história, o leitor é levado a um cenário complexo e revelador da existência humana.
A mesma carga insólita da percepção sonora como condutora da narrativa introduz a coletânea de contos Cavalos no escuro, livro mais recente do escritor paulista Rafael Gallo, publicado pela Record no ano passado. Personagens simples em situações complexas são marcas dos dez contos.
A semelhança com Lygia aparece no conto de abertura, homônimo ao livro. Nele, pouco importa o tempo e o espaço, mas sim a relação psicológica entre os personagens principais: um caseiro e sua mulher, ambos submissos ao patrão proprietário da fazenda. Na história há uma quarta voz, o relincho dos cavalos, que acompanha todo o desenrolar da narrativa. Pedro, o caseiro, sabe que o patrão abusa de sua confiança, mas não consegue tomar uma atitude – fato que o atormenta em sonhos, “quando a escuridão da noite domina a fazenda e o primeiro relincho dá início ao alvoroço”. Por meio do som dos cavalos, o autor nos apresenta as angústias e os sentimentos do personagem.
Em Vidro, Gallo mostra que a pequenez das relações humanas pode nos equiparar a um inseto (“No silêncio, o zumbido: grito que não é voz, mas tremulações do corpo inteiro”). Em Anjo caído, mergulhamos na realidade de uma mãe que tem dificuldade de impor limites a um filho que sofre de obesidade e tem compulsão alimentar. No oitavo conto, Diário de transbordo #99, Valentina é uma influencer que pede aos seguidores para a ajudarem no processo de transição de gênero.
Gallo apareceu na lista de melhores leituras do ano de 2023 da piauí, com Dor fantasma, livro que lhe rendeu o prestigioso Prêmio José Saramago. Agora, o autor retorna ao gênero que o revelou, em 2012. Cavalos no escuro comprova o talento de Gallo para concentrar impacto dramático nas poucas páginas de um conto.