piauí recomenda

POESIAS DO ORDINÁRIO

A plaquete A superfície dos dias: o poema como modo de perceber, de Luiza Leite, traz um compilado de poesias sobre a vida cotidiana
Imagem Poesias do ordinário

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A qualidade da coleção Círculo de Poemas da Editora Fósforo já foi citada antes aqui na newsletter de dicas culturais da piauí. Com suas plaquetes peculiares, a série propõe um experimento que aproveita duas poéticas – não apenas o conteúdo do livro, por assim dizer, mas também a diagramação e design como parte do que o livro constrói e comunica.

Em A superfície dos dias: o poema como modo de perceber, de Luiza Leite, essa relação entre livro e forma de livro se torna ainda mais nítida. À delicadeza da plaquete e seu formato modesto, junta-se a exposição e defesa ensaística de uma poética voltada para o que é ordinário. Leite parece se interessar por poemas do tipo “fiz isso, fiz aquilo” – como teria dito Frank O’Hara a respeito de seus próprios escritos – , e seu livro-ensaio ganha uma força argumentativa incomum pela maneira leve e generosa como ela manuseia e explora o que lhe interessa. A impressão é que a autora está ao nosso lado, puxando uma conversa sobre a maneira como ela entende a poesia. Suas referências – John Berger, Laurie Anderson, Bernadette Mayer, Kazuo Ohno – poderiam ser intimidantes em outro contexto, mas nas mãos de Leite iluminam a discussão, nos aproximam da autora.

Todos os poemas utilizados no ensaio de Leite em alguma medida partem daquele ímpeto que a poeta argentina Tamara Kamenszain certa vez definiu como “escrever com o que se tem”, numa exortação a usarmos o que há de mais comezinho ao nosso redor como material de escrita. Leite escreve: “Perceber é deixar-se ficar no tempo, demorar, permitir ser conduzido pelo que olhamos. A exigência de inspiração desaparece porque a poesia está em tudo.”

A autora abre mão de qualquer pompa ou jogo autoritário, e assim é possível usar seu livro como se fosse uma boa aula de uma oficina de criação. Não apenas para escrever, mas também para viver –  o que, em se tratando de poesia, significam quase a mesma coisa.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.