08 Set 2026
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Em 2008, cientistas da Universidade de Georgetown descobriram que algumas borboletas são capazes de se lembrar do que aprenderam quando ainda eram lagartas. O quinto álbum do Black Pantera, Continental, veio para provar que eles são como esses artrópodes. A banda que saiu do underground mineiro para se tornar uma das maiores revelações do rock nacional dos últimos tempos – hoje batendo ponto anualmente em grandes festivais como o Rock In Rio e o Lollapalooza – sabe exatamente de onde veio, mas não se limita ao próprio casulo, ou às expectativas de fãs já conquistados.
Quem gosta do crossover entre hardcore punk e heavy metal moderno se sentirá contemplado pelo novo disco. Os nostálgicos do underground das bandas brasileiras independentes das décadas de 1990 e 2000 também. Continental já começa com a metralhadora ligada da faixa-título, bem calcada na brutalidade lírica que o Black Pantera executa desde quando a banda ainda era apenas um projeto entre irmãos em 2014. Mas há também muita influência do soul e do rap no disco, entremeado ao forte discurso político e social dos mineiros de Uberaba. A militância fica explícita já na mesma faixa-título, por meio de um sample do geógrafo Milton Santos (1926-2001) explicando por que o refrão da canção é “eles não são o mundo” (o uso da voz foi autorizado pela família do falecido acadêmico baiano).
Um grande acerto do disco é o chiaroscuro que ele cria ao intercalar porradas que vêm com o intuito explícito de abrir rodas punk com momentos de maior calmaria e louvor à ancestralidade, algo que é brilhantemente orquestrado pela voz limpa de Chaene da Gama (baixista), que nessa gravação ganha ainda mais destaque, e o gutural característico de Charles Gama (guitarra). Nesse balaio sortido, as vozes de Sandra Sá (Quando canto), Derrick Green (Obsoleto), Duquesa (Serotonina) e Chico César (Banzo) aparecem não como meras feats, mas pontuando cada referência e reverência afrodiaspórica do trio. Continental é um disco que já nasce clássico e que prova, mais uma vez, que o rock pesado nacional e autoral ainda vive – amém, axé.