piauí recomenda
Out 2025 13h45
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Kintsugi é um processo artesanal de restauração de cerâmicas e porcelanas desenvolvido no Japão do século XV. A beleza e a inovação dessa técnica está em deixar evidente o que normalmente se disfarça: as falhas, as rachaduras, as emendas. No romance da escritora chilena María José Navia, cujo título empresta esse nome e conceito, o leitor é apresentado à vida de uma família do Chile, atravessada por três gerações, repleta de rachaduras, de cicatrizes e de histórias mal resolvidas. O livro foi lançado em 2018 no Chile, mas teve recentemente sua primeira tradução para o português, por Isis Batista, em uma edição lançada em agosto deste ano pela Rocco. É o primeiro romance de Navia – que também é acadêmica – publicado no Brasil.
Os capítulos são como os cacos de uma peça de porcelana quebrada – pequenos contos que não seguem uma ordem cronológica linear, mas formam um conjunto capaz de apresentar o desenvolvimento dramático da família. A história começa com a geração mais antiga e já com uma tensão: um pai que foge de casa, e deixa os três filhos sob o cuidado da mãe, uma médica que construiu uma vida bem-sucedida, e que pede ajuda da irmã cleptomaníaca para cuidar de seus filhos. A cada salto geracional novas tensões são apresentadas. Sofia, a filha do meio que começa sendo a sobrinha que aprende a gostar da tia, no futuro passa a ser a tia que quer ser amada pela sobrinha, filha de seu irmão caçula. Há também um irmão que foi morar fora e não dá notícias. Não ficamos sabendo os motivos das separações e dos afastamentos, mas Navia consegue deixar claro o desconforto de todos. “Ela que não falava com a filha para mais nada, que não fazia perguntas”. Mãe, tia, irmã, filha e avó – as mulheres são as protagonistas e é pela voz delas que alguns dos capítulos são apresentados.
Ao contrário de O Colibri, romance de Sandro Veronesi presente na lista de melhores do ano da piauí do ano passado – em que a complexa ordem cronológica é indicada nos títulos de cada capítulo – em Kintsugi não temos pistas óbvias de quando se passa cada momento, mas conseguimos nos localizar pelas experiências dos personagens e pela habilidade artística de restauração de Navia.