piauí recomenda
Mai 2025 10h14
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
A peça AO VIVO [dentro da cabeça de alguém] é uma experiência arrebatadora. Renata Sorrah abre o espetáculo lembrando ao espectador que todos ali presentes – no palco e na plateia – estão vivenciando um momento único de conexão. Em um mundo marcado por trocas fluidas e impessoais, esse encontro é algo a ser celebrado. O espetáculo faz um aceno à obra A gaivota, de Tchékhov, que conta a história de Trepliov, filho da atriz Arkádina. Ele escreve uma peça e mostra ao círculo social de sua mãe. Trepliov enfrenta uma série de frustrações e desencantos. Seu texto é rejeitado e a mulher por quem é apaixonado se enamora de Trigorin, um escritor renomado e namorado de sua mãe.
Mas o texto arguto de Marcio Abreu vai além. A encenação se passa dentro da cabeça dos personagens, e o que se compartilha, ao longo de 90 minutos, é um espetáculo vivo que se afasta da Rússia rural de Tchékhov para lançar luz sobre nosso passado recente e o Brasil contemporâneo. A peça reflete sobre os acontecimentos políticos e sociais que nos trouxeram até aqui, em que nos sentimos como uma sociedade perdida, sem rumo e sem sentido – tal como os personagens de Tchékhov.
A beleza do texto e da direção de Abreu está justamente em propor uma saída. Sua obra provoca reflexões e gera movimentos. A presença magnética da trupe da Companhia Brasileira de Teatro – que, além de Renata Sorrah, tem Rodrigo Bolzan, Rafael Bacelar, Bárbara Arakaki e Bianca Manicongo – nos eletrifica em um espetáculo que combina música, poesia e performances provocativas, capazes de gerar catarses e nos convocar à ação: enfrentar preconceitos e conservadorismos, e nos erguer do atoleiro de absurdos em que nos vimos afundados nos últimos anos. Abreu também elabora com coragem desafios contemporâneos como a luta por memória, identidade e a passagem do tempo. AO VIVO [dentro da cabeça de alguém] é mais do que uma obra reflexiva – é uma criação propositiva, profundamente conectada ao seu tempo. A peça, que já teve uma temporada em São Paulo, fica até o dia 31 de maio no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro.