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Dez 2024 20h03
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Há uma cena em V13 – O Julgamento dos Atentados de Paris, livro do francês Emanuel Carrère, traduzido por Mariana Delfini, em que uma vítima do ataque terrorista na casa de shows Bataclan pede perdão ao tribunal que julga seus algozes. O rapaz, que tinha 21 anos à época do atentado – que ocorreu em 2015 e incluiu ainda ataques no Stade de France e nas ruas da capital francesa –, saiu sem danos físicos da tragédia, mas por muito tempo não conseguiu tocar a vida, em razão de um trauma que só compreendeu três anos depois, na terapia.
Na noite do atentado, o rapaz empurrou, pisoteou corpos, fez de tudo para sobreviver, enquanto jovens como ele eram varados por metralhadoras. A culpa por ter saído fisicamente ileso o atormentava – por isso o pedido de desculpas ao tribunal. Um pouco antes de decidir pelo gesto inusitado, o mesmo rapaz já tinha se emocionado quando outra vítima que quebrara as costelas naquela noite minimizou sua dor, dizendo que duas costelas quebradas não eram nada. “Pode ter sido você quem passou por cima de mim, pode ter sido outra pessoa, nunca vamos saber, mas se foi você, quero que saiba.”
Essa passagem ocupa apenas uma página e meia das 224 páginas do livro. É uma história dentre tantas trabalhadas pelo autor, que se propôs a assistir todas as sessões do tribunal ao longo de nove meses, no Palácio da Justiça, em Paris. Inicialmente, Carrère escreveu crônicas semanais para a revista Le Nouvel Observateur. Dois terços do livro são feitos destas crônicas, agora ampliadas. Ao longo do trabalho notável que excede a crônica judiciária, Carrère pontua relatos íntimos dos participantes do julgamento para explorar as complexidades do bem e do mal, e as imprecisas fronteiras entre eles. Retrata figuras ímpares – como Nádia, que dispensa o desejo de vingança pela morte da filha Lamia, de 30 anos, ao refletir que, como Lamia, os assassinos foram levados à escola de mãos dadas por suas mães; ou o pai que perdeu o filho assassinado e começa a se corresponder com o pai que perdeu o filho assassino. Juntos, escrevem um livro: “Só nos restam as palavras.”
Há também os catorze réus – entre eles Salah Abdelaslam, o terrorista que desistiu de se matar explodindo uma bomba que carregava. Ele, seus advogados, os advogados das partes civis, os acusadores e o juiz, são apresentados de maneira descritiva, mas também sob a lente mais introspectiva do autor. Em seu exercício de empatia, o autor por vezes parece um camaleão que assume as cores de quem estiver com a palavra – e até brinca com isso. Mas é na forma como revela tensões e joga luz nos silêncios que o livro se eleva.
Tudo se desdobra dentro de um tribunal, dentro de uma capital europeia, dentro de um país de passado imperialista, atingido por radicais islâmicos que clamam vingança ao Ocidente. Poderia ser Bélgica, Alemanha, mesmo Inglaterra, mas estamos falando da França, onde 130 pessoas foram assassinadas com tiros e bombas naquela sexta-feira, 13 de novembro de 2015 (daí a referência do título a V13, de Vendredi, sexta-feira em francês). É um julgamento que poderia ser insuportável para o leitor comum, mas que se torna um acontecimento literário. É uma busca pela verdade dos fatos que não renuncia ao rigor jornalístico, revelando os aspectos mais humanos e subjetivos do processo sem tabus, permitindo ao autor, até surpreendentemente, colocar-se no lugar do perpetrador. Que ironia, um resfolego no ato de julgar.