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SOBREVIVENTES ENLUTADOS

Romance de estreia de Thiago Camelo narra a experiência do luto do protagonista
Imagem Sobreviventes enlutados

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“Por mais manifesta, a dor é sempre um segredo.” É patentemente errado, talvez até imoral, resumir um romance tão antirreducionista a apenas uma frase. Mas há força nessas palavras do narrador de Dia Um, primeiro romance de Thiago Camelo. Ao enfrentar o luto por seu irmão mais velho – um homem que, após anos de depressão, pula do sétimo andar de um apart-hotel de Copacabana – o narrador busca menos desvendar o segredo do que aprender a conviver com ele. Há, nessa convivência, culpa, impotência, flashes de remorso: sentimentos universais que, de um modo ou de outro, fazem parte do cotidiano de “sobreviventes enlutados” (expressão que o narrador – e, suponho, o autor – consideram um tanto absurda).

O que interessa mais a Camelo é a parte íntima (a parte secreta, digamos) do luto, e a potência do seu livro reside na forma oblíqua que ele usa para transmiti-la. Uma justaposição sugestiva atravessa o livro, e à primeira vista causa estranhamento. Seis meses depois da morte do irmão, a avó do narrador morre. Essa segunda morte – que seria tratada pelo senso comum como “natural”, a antítese de um suicídio – se mescla ao luto cotidiano complexo do protagonista, que lida também com o próprio histórico de crises de ansiedade. A veia pericial de Camelo – há uma explicação seca e ao mesmo tempo comovente sobre a dificuldade de encontrar um lugar adequado para o irmão no cemitério São João Batista – faz notar que não há nada “natural” na morte, por mais que tentemos domá-la ou absorvê-la. De certa forma, Dia Um é uma resposta forte e deslocadora ao clichê “a morte faz parte da vida”, um oximoro que sempre me pareceu feio e inapreensível.

Disso não resulta um romance opressivo. Há momentos luminosos no livro – rememorações da infância em Jacarepaguá; uma ida ao último jogo do campeonato brasileiro de 1997, quando o Vasco, time dos irmãos, é campeão; o frisson de conseguir uma bolsa literária em Portugal. Na verdade, o que Dia Um capta bem é que tanto a depressão como o luto não possuem categorias claras, marcadores óbvios. Leveza e opressão roçam ombros, sentimentos virtuosos se mesclam a outros menos nobres. “A doença de seu irmão mais velho era desesperadora para vocês todos, mas talvez mais ainda para ela”, o narrador diz, referindo-se à mãe. “Muito pouco podia ser dito, explicado. E nada era sujo e revelador como uma ferida. Ou mesmo quente como a febre.” O desafio hercúleo de Dia Um é atravessar e ao mesmo tempo transmitir ao leitor algo dessa zona nebulosa.

PS: Os primeiros capítulos de Dia Um foram publicados na edição de outubro da piauí, leia aqui.


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