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Dez 2022 11h36
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Em tempos de tentativa de ataque neonazista ao parlamento alemão, de invasão do Capitólio em Washington e, mais recentemente, de atos terroristas em Brasília, promovidos por vândalos bolsonaristas que não aceitam o resultado das eleições de outubro, nada mais oportuno do que a leitura de Como as Guerras Civis Começam. E Como Impedi-las, da cientista política norte-americana Barbara F. Walter. Lançado neste ano, o livro explica as razões das guerras civis que eclodiram no mundo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e alerta para o fato de que, com o aumento da polarização, nem mesmo democracias estáveis como a norte-americana estão livres de movimentos desse tipo.
Desde 1946, mais de 250 conflitos armados internos eclodiram em todo o mundo. Nos últimos anos, essas conflagrações aumentaram, atingindo seu pico em 2019: Síria, Afeganistão, Iraque, Malásia, Iêmen e outros tantos. Esses levantes, no entanto, não ocorrem apenas em países com democracias frágeis. Podem se dar em sociedades democráticas muito radicalizadas e polarizadas.
Walter – professora de assuntos internacionais na Universidade da Califórnia e consultora para assuntos externos do Departamento de Defesa – explica que esses movimentos explodem de maneira previsível, seguindo um mesmo roteiro. Em países que viviam em regimes autoritários e foram rapidamente empurrados para se transformarem em democracias – caso do Iraque pós-Saddam Hussein –, as guerras civis ocorrem porque facções passam a disputar o poder. Uma democratização rápida em países com profundas divisões pode ser muito desestabilizadora.
E por que os Estados Unidos entram nesse rol? A partir de 2008, o livro explica, mais de 70% das mortes relacionadas a extremistas no país foram causadas por pessoas de extrema direita ou por supremacistas brancos. “Aqui também há raiva e ressentimento e o desejo de dominar os rivais. Aqui também compramos armas quando nos sentimos ameaçados”, escreve Walter. E mais. Os norte-americanos, ela avalia, consideram a invasão do Capitólio como incidente isolado, ato frustrado de extremistas. Mas pensam assim porque não sabem como os conflitos começam.
A obra não fala do Brasil, embora nos sirva de alerta. As cenas registradas no país depois do resultado das eleições, com caminhoneiros bloqueando estradas e bolsonaristas chorando nas portas dos quartéis ou apedrejando a sede da Polícia Federal, nos mostra onde a intolerância pode nos levar. “A maioria das pessoas só percebe que está a caminho da guerra civil quando as milícias operam nas ruas e quando líderes extremistas estão sedentos de guerra.”
Para nosso alento, assim como existe um roteiro para a eclosão de guerras civis, também há uma estratégia para combatê-las. Ela passa pela reforma de um governo degradado através do reforço do estado de direito, do acesso igual ao voto a todos os cidadãos, e da melhora na qualidade dos serviços governamentais. É o que se espera que ocorra no Brasil a partir de 1º de de janeiro de 2023.