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Ago 2024 16h13
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Estar no mundo, mas não se sentir parte dele, observando-o como se espiasse através de um buraco na cerca. São os outros, e não suas inspirações, sua individualidade, que definem sob que condições você irá seguir seus anos de vida. É esta a angústia que marcha junto a Bigger Thomas, o protagonista de Filho nativo, clássico da literatura americana escrito por Richard Wright que a Companhia das Letras relançou em julho no Brasil.
Wright nasceu em 1908, no Mississippi, local dominado pelas leis segregacionistas. Filho nativo foi originalmente publicado em 1940, e lançou o escritor ao sucesso e reconhecimento internacional. Foi aclamado tanto pela qualidade de suas tramas – publicou também Black Boy: Infância e juventude de um negro americano (1945), The Outsider (1953) e White Man, Listen! (1957) – quanto pelo engajamento em questões políticas. Morreu em 1960, quando estava exilado em Paris.
No romance mais famoso, Thomas é um jovem negro que vive em extrema pobreza na periferia de Chicago durante os anos 1930. Comete pequenos crimes e, por insistência da mãe, acaba comparecendo a uma entrevista de emprego. A ida lhe rende uma vaga de motorista particular na casa de uma família branca e rica que se esforça para demonstrar o quanto reconhece a humanidade dos negros, fato que causa desconforto em Thomas desde o primeiro encontro. Lancinante, a trama se estende a partir desse contato entre Thomas e a família rica, inserido num contexto marcado pela violência e as questões sociais que cerceiam a relação.
O protagonista é um jovem angustiado pela falta de perspectiva e pelas incontáveis possibilidades frustradas de sua vida, como a de pilotar um avião – desejo que menciona em conversa com um colega. Segundo o próprio Wright, Thomas foi inspirado em pessoas negras que conheceu ao longo da vida e que não se encaixavam no perfil de subservientes. Trata-se de um personagem complexo, cujo desenvolvimento magnetiza através do arco que evoca suspense, desamparo e violência, mas sobretudo uma humanidade pungente, ao longo das 504 páginas do romance.