piauí recomenda

UM CONJUNTO DE INSTANTÂNEOS DA VIDA

Lia, romance de estreia de Caetano Galindo, faz um apanhado de histórias com ideias engraçadas, pensamentos profundos, dores e tristezas
Imagem Um conjunto de instantâneos da vida

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

“Osentido de ler é o fato de não existir sentido em ler. É prazer.” O prazer da leitura é justamente o que Caetano W. Galindo nos desperta ao percorrer os 99 micro-capítulos de Lia, um caleidoscópio de instantes que formam uma unidade. É um daqueles livros que não se encaixam em nenhum escaninho – e para os leitores mais curiosos, isso já vale uma boa espiada.

É o primeiro romance de Galindo, que, além de escritor, é um dos mais apreciados e demandados tradutores do mercado editorial brasileiro. Lia é um conjunto de instantâneos da vida, com ideias engraçadas, pensamentos profundos, dores e tristezas, e um apanhado de histórias de mulheres aleatórias que se chamam Lia, que podem ser uma só ou muitas, tanto faz. Talvez Lia seja o próprio Galindo – reservado que é, se camuflou no meio das historietas da protagonista, e faz delas sua declaração de princípios. Dá para ler o livro de trás para frente ou pegar do meio para o fim, ler salteado, e assim vai. Lia é como um álbum de retratos de várias mulheres: velha, jovem, bebê, semiviva ou semimorta, estirada numa calçada de Curitiba, ou uma mãe que já partiu e deixa uma casa vazia para o filho recolher “os trecos” e regar as plantas.

“Ler sobre algo, ver uma cena, olhar um quadro é prestar atenção. De verdade. É tirar alguma coisa da esfera do mundo e do fluxo do tempo e realmente olhar/ouvir, o que a gente quase nunca faz na vida real. E quando você dedica atenção de verdade a alguma coisa, quase tudo é bonito e de certa maneira quase tudo se revela cheio de sentidos”, escreve o autor lá pelo meio do livro. Ecoando essa declaração, Lia trata de temas profundos sem burocracia e de temas banais com o devido respeito. Um bebê vendo pela primeira vez o cubo de gelo mergulhar num copo d’água. Um bolinho com café na cozinha de casa. Um mero instante do passado que nos faz pensar no que vale a pena. Nessa toada, Galindo nos faz olhar com carinho para a nossa própria rotina, essas pequenas belezas do cotidiano, e nos leva a repensá-las com generosidade e leveza.

E já que estamos no fim do ano, surrupio aqui uma ideia do livro: Se na hora da sua morte, te dissessem que você tem direito a mais alguns minutos de vida se – e apenas se – você escolher uma música para ouvir, sendo que a prorrogação da sua vida terá a exata duração dessa música. Um arremate de beleza, “a morte protelada pelo tempo de uma música.” Qual música seria? (A do Galindo é uma linda canção, que eu não conhecia, mas já incluí na minha playlist.)


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.