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Dez 2023 14h46
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Em 1976, o peruano Mario Vargas Llosa deu um murro no rosto do colombiano Gabriel García Márquez, em público, na Cidade do México. Até hoje ninguém sabe ao certo o motivo da agressão. Talvez tenha sido um “ataque de honra”, depois de García Márquez ter cortejado a mulher de Llosa. Talvez fosse o clímax das discórdias políticas crescentes entre os dois. García Márquez morreu em 2014, aos 87 anos, rezando com a bíblia da esquerda latino-americana. Llosa, hoje com 86 anos e antes um esquerdista moderado, enveredou-se mais e mais pela direita, até o extremo de dizer no ano passado que preferia Bolsonaro a Lula. São dois dos maiores escritores do século XX, certificados pelo Nobel, que premiou García Márquez em 1982 e Llosa em 2010.
Em 1967, quase uma década antes do murro, eles eram promissores autores do chamado boom da literatura latino-americana. García Márquez tinha 40 anos e acabara de lançar Cem Anos de Solidão. Llosa tinha 31 anos e estava coberto de elogios pelo romance A Casa Verde. Em setembro daquele ano, os dois se encontraram em Lima para uma conversa na Universidade Nacional de Engenharia. O diálogo foi publicado na época, a edição esgotou e só alguns anos atrás esse precioso documento ganhou nova impressão – lançada há pouco no Brasil, com esclarecedor prefácio do escritor Eric Nepomuceno.
Foram dois dias de uma conversa que preserva toda a vivacidade, graças à precisão das questões levantadas por Llosa e a vibrante loquacidade de García Márquez. No primeiro dia, predomina o tema do realismo literário, em confronto com os disparates da realidade latino-americana. “Eu sou um escritor realista, porque creio que na América Latina tudo é possível, tudo é real”, diz García Márquez, e exemplifica: “Na América Latina, por decreto, se esquece um acontecimento de uns 3 mil mortos…” Para avalizar o amigo, Llosa comenta: “Dizem que uma vez o governo brasileiro suprimiu uma epidemia com um decreto.”
No segundo encontro, a grande questão é o engajamento político. “O principal dever político do escritor é escrever bem”, aconselha García Márquez. Eles também falam dos métodos de escrita e de suas preferências literárias. “Detesto Borges”, avisa o colombiano, ressalvando que lê o argentino “reacionário” sem cessar, para aprender a escrever. Para os dois debatedores, o deus maior é o norte-americano William Faulkner, que García Márquez, em mais uma de suas imaginosas analogias, qualifica de “escritor latino-americano”.