11 Jun 2026
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Novas diretrizes em tempos de paz é um dos textos mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. Montado pela primeira vez em 2001, o espetáculo foi um fenômeno de crítica, vencendo os prêmios Shell e APCA e se consolidando como um dos marcos da dramaturgia brasileira dos anos 2000. A peça escrita por Bosco Brasil atravessa o tempo sem perder atualidade, e reafirma o teatro como espaço sensível de denúncia das desumanidades do mundo. Agora, ela retorna ao Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, numa nova montagem dirigida por Eric Lenate e Vitor Julian, que ficará em cartaz até o dia 28 de junho.
A trama se passa em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Clausewitz, interpretado por Lenate, é um judeu polonês que tenta entrar no Brasil no pós-guerra. Ele chega ao gabinete de Segismundo, vivido por Fernando Billi, um funcionário da imigração e ex-torturador do Estado Novo que segue rigidamente as diretrizes do regime. O encontro acontece justamente no momento em que o país altera suas políticas migratórias depois da derrota do nazismo, deixando o burocrata dividido entre antigas práticas autoritárias e as novas diretrizes humanitárias. O que começa como uma entrevista burocrática transforma-se em um intenso duelo psicológico, filosófico e teatral.
Ao descobrir que Clausewitz é ator, Segismundo o provoca: exige que conte sua história e seja capaz de emocioná-lo. O imigrante já não precisa apenas apresentar documentos ou argumentos racionais; precisa convencer emocionalmente o representante do Estado para validar sua entrada no país. Sua sobrevivência passa a depender da própria capacidade de atuar. À sua maneira cruel, autoritária, Segismundo busca uma verdade humana que os formulários e a burocracia não conseguem alcançar. Mas essa exigência também é sádica, pois transforma o trauma real do refugiado em espetáculo diante da autoridade do funcionário do governo.
O texto expressa sua força no equilíbrio entre o político e o poético, e reverbera discussões sobre violência, burocracia e desumanização presentes em autores como Hannah Arendt, Franz Kafka e Samuel Beckett. A montagem ganha ainda mais força com a interpretação comovente de Lenate ao dar vida a um personagem profundamente humano e vulnerável (além da codireção da nova montagem, Lenate também assina a direção artística e o desenho de luz). Em um dos momentos mais impactantes da peça, Segismundo descreve friamente uma sessão de tortura contra um cirurgião que havia salvado a irmã do burocrata. “E por que não fez nada?”, pergunta Clausewitz. “Porque cumpro ordens”, Segismundo responde. A cenografia, a iluminação e a trilha sonora reforçam a atmosfera dura e, ao mesmo tempo, lírica da encenação.