UM GRANDE MOSAICO

Lições de Grego, de Han Kang, discute os limites entre o dito e o pensado e entre os nossos sentidos e o mundo
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O romance da sul-coreana Han Kang, ganhadora do Nobel de Literatura de 2024, é sobre um homem que está perdendo a visão e uma mulher que perdeu a voz, mas é sobretudo um livro sobre fronteiras. Sobre os limites entre o dito e o pensado, entre uma pele e outra, entre culturas distintas, entre os nossos sentidos e o mundo, entre a vida e aquilo que conseguimos expressar com palavras. 

Por momentos, as duas histórias – da visão masculina que se turva e da voz feminina que se apaga – são contadas separadamente, com intervalos marcados por capítulos. Mas, à medida que o livro avança, sensações e momentos se aproximam e se entrelaçam, ora separados apenas por uma linha em branco, ou já definitivamente conectados em frases vizinhas uma à outra, em um grande mosaico que chega a um encontro possível.

Embora publicado originalmente em 2011, o livro foi lançado em agosto pela editora Todavia. A tradução de Natália Okabayashi captura bem a prosa e o estilo de Kang, mas a revisão final da edição deixou escapar vários erros gramaticais. Ainda assim, Lições de Grego é um livro que utiliza não apenas a linguagem da escrita em si, mas também o espaço deixado na página – com vazios, vãos, pausas e respiros. Com uma escrita sutil, Han Kang desliza por superfícies, provoca sem exaltação. Como é pensar sem palavras? Como é que se imagina quando não se pode mais ver? 

Em seu discurso à Academia Sueca, três dias antes de receber o prêmio Nobel de literatura, Kang disse: “Com esse romance, tentei responder à pergunta: se tivermos que continuar vivendo neste mundo, quais momentos tornam isso possível? Será que, ao contemplarmos os aspectos mais delicados da humanidade, ao acariciarmos o calor inegável que ali reside, podemos, afinal, continuar vivendo neste mundo breve e violento? [...] Quando escrevo, uso meu corpo. Uso todos os detalhes sensoriais da visão, da audição, do olfato, do paladar, da experiência da ternura, do calor, do frio e da dor [...]. Tento infundir em minhas frases essas sensações vívidas que sinto como um ser mortal com sangue correndo pelas veias. Como se estivesse enviando uma corrente elétrica.” Pois o leitor navega, entre calmo e arrepiado, por essa corrente elétrica. E, ao fechar o livro, a impressão que fica é a de ter visto, entre galhos na floresta, um pássaro: belo, fugaz, colorido, que alça voo.


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