piauí recomenda
Dez 2024 18h24
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Um artigo na revista americana Dazed, publicado em julho de 2024, perguntava no título: Por que homens heterossexuais não leem romances? Os motivos são os mais detestáveis, e confesso que senti o golpe. Passei então a priorizar por um tempo livros de ficção, que estavam levando de 7 a 1 nas minhas prioridades.
Lendo Passeio com o gigante , de Michel Laub, tive a sensação de roubar um pouco no jogo. O romance é uma narrativa ficcional bastante inventiva na forma, mas permeada por questões recentes como as eleições presidenciais de 2018, a divisão ideológica do país e a pandemia da Covid, que dão ao livro a temperatura do noticiário.
Em meio a memórias e reflexões, o advogado sionista Davi Rieseman se lembra de dores da própria infância e cita episódios históricos. Por volta de cem anos atrás, em uma época na qual lideranças como o reitor de Harvard consideravam judeus uma raça inferior e doente, floresceu nos Estados Unidos a ideia (importada da Europa) do “judaísmo musculoso”, pela qual a obsessão com a forma física se tornou um modo de combater esses estereótipos racistas. Nesse contexto, surgiram boxeadores judeus campeões de nomes como Joe Choynski e Kid Kaplan, e o maior de todos: Benny Leonard.
É por isso que se chama Benny Seguros a empresa que o advogado assume depois da morte do sogro, um judeu rico e apegado às tradições. Em 2018, pensando no que julgava melhor para a comunidade judaica brasileira (e para os próprios negócios), o herdeiro usa a companhia para apoiar financeiramente o candidato de extrema direita que se saiu vencedor na disputa pelo Palácio do Planalto.
O texto nunca nomeia o político, mas é explícito em suas consequências: chega a pandemia e a mulher do advogado convalesce num hospital enquanto o presidente debocha da falta de ar dos doentes de Covid numa transmissão pela internet. Presente e passado se embaralham no texto, e para o leitor não convém desembaralhá-los: nos borrões do fluxo de pensamento do personagem, a leitura fica mais instigante – e, de alguma maneira, entre arrependimentos e contradições, se torna muito mais clara.