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UM MERGULHO NA CABEÇA DE FERNANDA YOUNG

Documentário sobre a escritora tem um tom ensaístico-poético, com áudios de entrevistas, arquivos pessoais e trechos de livros
Imagem Um mergulho na cabeça de Fernanda Young

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A escritora Fernanda Young era uma figura midiática magnética. Falava sobre tudo, sempre disposta a expor fraquezas e imperfeições que gente famosa omite sobre si. No documentário Fernanda Young – Foge-me ao controle, a diretora Susanna Lira escolhe como forma narrativa um mergulho na cabeça profusa da escritora. O filme se constrói num tom ensaístico-poético, costurando áudios e vídeos de entrevistas, arquivos pessoais, trechos de suas obras literárias e audiovisuais para compor a personagem a partir dela mesma.

A concepção ensaística nem sempre funciona. Ainda que a proposta do documentário seja uma narrativa fragmentada, sem controle, como sugere o título, um filme-ensaio demanda uma construção de ideias muito bem amarradas. E por vezes o roteiro é solto demais, sem conectar com rigor as ideias que quer transmitir. Ainda assim, Young é uma figura tão interessante que qualquer apanhado de sua vida inevitavelmente tem apelo. Como quando Estela May, filha de Young, narra a união improvável da mãe punk com o pai yuppie (o roteirista e publicitário Alexandre Machado) que resultou num casamento duradouro e numa parceria profissional profícua. Há outras pérolas engraçadíssimas, como Young cantando e dançando ao som de um disco de Roberta Miranda. Ou os vídeo-ensaios produzidos pela própria escritora em vida. 

O maior atrativo do filme sobre Fernanda Young é Fernanda Young falando de Fernanda Young. É como se sentar numa mesa de bar e ouvir uma pessoa interessante falando de sua vida. Sobre como o abandono paterno moldou sua personalidade, ela diz: “Não quero que meu pai morra achando que fui uma babaca, quando na verdade fui uma doidona”. Da experiência com a maternidade: “A maternidade é uma cisão. Você pode estar numa suruba na Grécia e de repente: cadê meus filhos?” Ou o impacto que o livro Christiane F. teve em sua vida quando ela entrou na adolescência, experiência que relatou no seu livro, Tudo que você não soube: “Mil vezes estar descacetada numa rua de Berlim, chupando picas azedas pelos becos, do que estar em Niterói, assistindo ao Silvio Santos falar sobre seu carnê.” Ou o desdém que o meio literário tinha sobre sua obra: “Não reverencio os coronéis da cultura. Comecei a fazer sucesso com literatura e isso magoa as pessoas do meio. Sucesso é imperdoável pra essa gente.” Mas nem tudo é riso ou deboche. As partes mais comoventes do filme consistem em ouvi-la contando sobre como teve que superar a dislexia e a experiência de um abuso sexual.


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