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Mai 2025 09h42
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Nelson Rodrigues costumava mencionar os amigos em suas crônicas e cutucar aqueles que fossem de esquerda. Em uma delas, disse que Hélio Pellegrino tinha muitas qualidades e apenas dois defeitos: era psicanalista e comunista. O ano era 1969 e pouco tempo depois Hélio foi preso pelos militares. Para ajudar a soltá-lo, sua esposa, Maria Urbana, recorreu ao próprio Nelson Rodrigues, que era apreciado pelos generais, para que fosse conversar com os milicos. A estratégia funcionou e Hélio foi solto depois de três meses em cárcere. Da experiência de tensão nas celas, nasceu uma coisa boa: a amizade com Zuenir Ventura.
Essa história é uma das várias que compõem o livro Hélio Pellegrino, meu pai, publicado em maio pela Rocco. Escrito por João Pellegrino, o mais novo dos sete filhos de Hélio, o livro é uma espécie de mosaico de evocações biográficas do filho sobre a vida do psicanalista e escritor. Sem uma ordem cronológica na narrativa, os acontecimentos se dividem em pequenas crônicas que podem ser lidas separadamente.
De carona na Variant amarela de Hélio, carro da Volkswagen famoso à época, João nos transporta para a intimidade do pai, às idas ao boliche e aos passeios na Lagoa. Assim que acordava, antes das cinco da manhã, Hélio ia para o escritório, seu lugar sagrado da casa. Dizia que verde é a cor que tem mais variação de tons, ao admirar a mata e as florestas cariocas.
Apesar do encanto pelo Rio, Hélio era de Minas Gerais. Ao lado de Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, foi integrante do quarteto mineiro que ficou conhecido como “os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, expressão essa criada por Otto. Estátuas de bronze na Praça da Liberdade em Belo Horizonte homenageiam o grupo. O novo livro de João é também uma homenagem a este importante personagem da história e da literatura brasileira. Repleta de carga afetiva, a leitura flui como um passeio de domingo em família.