21 Set 2026
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4 de julho de 2026. Andrew Callaghan está em Anchorage, no Alaska, para acompanhar a comemoração da cidade para os 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Carros – novos e velhos – são arremessados do topo de uma montanha e o público vibra quando eles se estraçalham no chão. Em uníssono, o público grita: “USA! USA! USA!” O jornalista de 29 anos, com um microfone de lapela, pergunta a uma moradora como aquele espetáculo representa o país. Ela responde: “Isso traz a essência do direito à liberdade de expressão, direito ao porte de armas, direito de dirigir rápido sem usar capacete, direito de arremessar carros.” E os Estados Unidos sobreviverão mais 250 anos? “Não sei”, continua ela. “Mas por enquanto estamos aqui e é muito maneiro e foda!”
Publicado no canal de YouTube Channel 5 no mês passado, o vídeo de quase 20 minutos é um rápido mergulho no reacionarismo americano. Todos ali compartilham do fascínio pela destruição e violência do arremesso de carros. Os entrevistados falam em retorno da “família nuclear”, papéis de gênero baseados no cristianismo, fim da igualdade entre homens e mulheres e ameaça de desaparecimento das pessoas brancas através da “ideologia woke”.
As entrevistas dão um gosto do que eles entendem por identidade, patriotismo e liberdade. Para um adolescente de blusa listrada, com cores e traçados que lembram a bandeira dos Estados Confederados da América (a República separatista do Sul dos Estados Unidos que existiu entre 1861 e 1865), ser americano é simplesmente “ter liberdade e não aceitar desaforo de ninguém”. Nesse tema, outra resposta se sobressai. Um homem barbudo e sem camisa diz que, na verdade, a liberdade americana é uma farsa porque ele precisa trabalhar de 10 a 12 horas por dia, “quase escravidão”. Só consegue aproveitar duas horas diárias com a família. Ele diz que ninguém deveria trabalhar tanto e que os serviços de água e energia deveriam ser gratuitos. “Você é tipo um socialista?”, perguntou Callaghan. “Não”, respondeu o homem. “Eu não converso com pessoas.”
O Channel 5 foi criado em 2021 e ficou famoso pelas entrevistas que Callaghan fazia em eventos trumpistas, onde encontrava todo tipo de bizarrice. O portfólio foi ampliado e as produções ficaram mais sofisticadas desde então. Hoje o canal – que tem um tom descontraído, inspirado no jornalismo gonzo – tem mais de 3 milhões de inscritos. Callaghan cobriu a crise do fentanil, o submundo de Las Vegas, a atuação do ICE contra imigrantes, atravessou a fronteira mexicana na companhia de coiotes e recentemente esteve na Cisjordânia documentando a violência de colonos israelenses contra palestinos – e inclusive foi detido por isso. A voz de prisão foi dada por dois adolescentes de Nova Jersey que haviam se mudado para integrar o Exército em Israel.
O canal também exibe outras entrevistas interessantes. Callaghan já conversou, por exemplo, com Hunter Biden sobre política e drogas, com Nick Fuentes, um streamer e ativista político muito popular com a juventude de extrema direita, e com o influenciador da machosfera Braden Eric Peters, mais conhecido como Clavicular (que abandonou a entrevista quando as perguntas ficaram difíceis). O canal também conta com uma versão em espanhol, o Canal Cinco Latinoamerica, focado em assuntos caros aos imigrantes.