piauí recomenda
Dez 2024 20h10
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No livro Ainda Estou Aqui, do escritor Marcelo Rubens Paiva, há uma analogia sobre a memória e o tempo. As marcas de nossa vida armazenadas em nosso HD interno, o cérebro, não são talhadas em pedras e, portanto, imutáveis. Elas vão e vêm, esculpidas como as areias das dunas, com lembranças que passam a ter um peso ou ganhar novos sentidos e contornos à medida que amadurecemos. A analogia serve bem à história de Melhor não contar, da escritora e jornalista Tatiana Salem Levy. É talvez a obra mais pessoal e visceral de Levy – e a sua história dialoga com a de muitas mulheres.
Quando tinha 10 anos de idade e tomava sol sem a parte de cima do biquíni, a criança – futura narradora do livro e alter ego da autora – percebeu que seu padrasto, muitos anos mais velho, rabiscava um desenho de seus seios eretos e empinados. A agressão entrou em sua cabeça. Conto ou não conto para a minha mãe? Na infância, muitas vezes, uma criança assediada não sabe nominar o que se passou. Mas os assédios e os comentários por parte do padrasto se seguiram na adolescência. Não havia zona cinzenta. Aquilo já tinha nome e os efeitos na vida de Tatiana seriam eternos. A mãe de Tatiana, a jornalista Heloísa Salem, faleceu de câncer quando a filha tinha 20 anos. A própria mãe tinha sido vítima de um estupro por outro homem, passagem relatada no livro.
Tatiana fez uma investigação pessoal, buscando e relendo diários, juntando as peças do que se passou. As mulheres, desde a infância até o último suspiro, são incentivadas e premiadas por ficarem em silêncio. A elas há sempre a recomendação expressa: melhor não falar. “Por que remexer o passado?”, pergunta-se, como se o passado ficasse no passado. Outra forma de coibir relatos é afirmar que quem conta a história se expõe demais, como se o silêncio fosse uma cápsula protetora. Tatiana aborda no livro uma conversa com um namorado sobre a intenção de escrever essa autoficção, e, mais uma vez, é aconselhada a deixar a história de lado. Em um ato de coragem, relata sobre o aborto feito aos 44 anos, em Portugal, país onde vive e onde a prática é legalizada.
O momento mais marcante do livro se dá quando Tatiana rememora, dentro dessa sua busca para entender o que se passou, o encontro com o padrasto num café em Paris. Ao remexerem nos episódios de assédio, o padrasto não nega suas atitudes, e acaba tentando justificar o injustificável dizendo ter se apaixonado na época pela enteada décadas mais jovem. Tatiana não cita o nome dele no livro, mas o cineasta com quem sua mãe se relacionou na época foi Nelson Pereira dos Santos, um dos fundadores do Cinema Novo, falecido em 2018.
Ao contar algo tão íntimo com tamanha delicadeza e profundidade, Tatiana joga luz no fato de que eles, os abutres, estão por todas as partes – dentro de casa, por exemplo, defendendo valores como a democracia e a cultura. Na ocasião do lançamento de Melhor não contar, a autora disse não ter escrito o livro para condenar ninguém. Nem para perdoar.