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UMA FANTASIA CÔMICA DE CÉSAR AIRA

O Congresso de Literatura é uma mistura promíscua entre erudição e deboche, entre metaficção cerebral e cinema B
Imagem Uma fantasia cômica de César Aira

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Em novembro de 2023, me encontrei com César Aira em Buenos Aires para entrevistá-lo e fazer seu perfil para a piauí. A obra de Aira, composta de mais de cem livros, é notoriamente extensa, e, na preparação para o encontro, me deparei com alguns livros seus dos quais nunca tinha ouvido falar. O mais peculiar entre eles foi um que não costuma ser contabilizado em sua produção oficial. Se chama Argentina: Las Grandes Estancias.

Lançado em 1995 por Rizzoli New York e Ediciones Brambila, organizado e editado por Tomás de Elia e Juan Pablo Queiroz, o livro discorre sobre a história de 22 propriedades latifundiárias argentinas do século XIX que, até a publicação do livro, permaneciam nas mãos de herdeiros das famílias ruralistas. É uma espécie de livro de mesa de centro, cheio de fotografias de paisagens suntuosas e casarões decorados: um pátio com rede e banquinho iluminados no Sol do crepúsculo; uma sala de estar com lareira e paredes revestidas de pedras e ancestrais europeus; uma cozinha rústica com prataria dourada. As imagens oscilam entre o lírico e o kitsch (uma das fotos mostra Jackie Kennedy de echarpe e óculos escuros, em 1966, montada a cavalo na estancia de San Miguel). Aira assina os textos do livro, abordando os detalhes históricos de cada propriedade. São textos curatoriais relativamente convencionais, mas vez ou outra nos lembramos de quem está escrevendo. Como no caso da descrição de Los Alamos, casarão de propriedade da família Aldao Bombal, localizada ao Sul da província de Mendoza:

O casarão havia sido construído como forte de fronteira em 1830, com paredes grossas de adobe, pátio interno, janelas com barras de ferro forjadas à mão, e um fosso defensivo para protegê-las de invasões indígenas. Ao longo daquele século, a estancia havia resistido a duas invasões, que incluíram sequestros de mulheres e roubo de gado. Segundo a tradição oral, um cacique foi enforcado no pátio principal da casa em represália. Um destes ataques, em 1838, que pegou toda a região, foi registrado em vários desenhos e óleos pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas, na época de passagem pela província.

De início, tinha estranhado a participação de Aira num projeto tão convencional (nenhuma das pessoas que entrevistei parecia ter uma teoria a respeito, e a maioria nem conhecia o livro). Mas ao ler os textos, me dei conta de que a prosa do autor – impessoal, fluida, e leve – era perfeita para um livro desse tipo. Uma das qualidades de Aira é justamente narrar tudo do mesmo jeito: Rugendas é um dos personagens de seu romance Um acontecimento na vida do pintor-viajante, e as alucinações do protagonista na ficção são narradas com a mesma limpidez e graça que ele usa para descrever a história dos casarões.

Toda essa digressão aireana serve para dizer que reencontrar O congresso de literatura, lançado no Brasil neste ano pela Fósforo num box junto a três outros romances seus, foi uma experiência reveladora. A primeira vez que me deparei com o livro – em 2011, numa livraria de Buenos Aires – a premissa de um tradutor que decide arregimentar um exército de clones do escritor mexicano Carlos Fuentes me pareceu pernóstica, mais até pela insistência do vendedor fanático do que pela história em si. Mas, depois de mergulhar na obra de Aira, me dei conta de que a vitalidade do livro reside justamente em sua mistura promíscua entre erudição e deboche, entre metaficção cerebral e cinema B. A acessibilidade e a graça da prosa preparam o leitor para qualquer coisa – Aira tem um poder inimitável de naturalizar eventos incríveis, e de imbuir eventos mundanos de estranheza. Quando um problema no processo de clonagem gera uma tragédia com minhocas azuis gigantes, já estamos convertidos ao desconcerto narrativo tão comum em suas obras. Traduzido por Joca Wolff e Paloma Vidal, o livro é uma boa porta de entrada para quem nunca leu a obra, ainda que qualquer livro de Aira – até um livro de mesa sobre latifúndios – se beneficie da leitura de outros.

Quando lhe perguntei sobre Argentina: Las Grandes Estancias, naquela entrevista do ano passado, ele me disse que aceitara o convite dos organizadores porque tinha a impressão de que se tratava de um projeto de preservação histórica. Pouco tempo depois, porém, boa parte das propriedades foram vendidas. Contou isso rindo, como se admirasse o pequeno truque imobiliário, o jogo do qual tinha participado.


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