piauí recomenda
Ago 2025 16h12
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Uma dupla de rapazes se aproxima. Numa rua escura, à noite, se sentir ameaçado parece, no mínimo, pertinente. Acontece que, sendo mulher, a situação é ainda pior. Um dos rapazes usa coturnos “lustrados demais, limpos demais. Eram coturnos de quem pisa, não de quem é pisado”. A suspeição se confirma: os dois homens querem estuprar Maria João, uma repórter que, naquela noite de sábado, está voltando do plantão do jornal onde trabalha. Ela sente as mãos trêmulas, e, estudando a possibilidade de uma fuga, vê que um deles carrega uma faca. “Barba, poste e céu se misturando.” Cai no chão, como “um pacote de leite vencido/ um saco de lixo rasgado/ uma embalagem velha/ uma bexiga estourada”.
Assim Giovana Madalosso inicia seu terceiro romance, Batida só, que acompanha a jornada da protagonista depois desse momento de tensão. Nos dois livros anteriores, Tudo pode ser roubado e Suíte Tóquio, a autora antecipa várias das qualidades presentes no novo livro, como a sua prosa apressada (o que faz deles bons termômetros da vida igualmente veloz) e personagens femininas complexas, inseridas numa espécie de calor da hora. Todas acometidas, cada qual à sua medida, pela iminência de uma taquicardia. Porém, no livro mais recente, a taquicardia ataca sorrateira. O que poderia ser só um desmaio devido à situação de imenso nervosismo é, na verdade, o início de sua patologia – uma arritmia ventricular grave – ainda que nunca se saiba ao certo em que momento uma doença começa.
Susan Sontag disse o seguinte: “Meu ponto de vista é que a doença não é uma metáfora e que a maneira mais honesta de encará-la – e a mais saudável de ficar doente – é aquela que esteja mais depurada de pensamentos metafóricos, que seja mais resistente a tais pensamentos.” No entanto, a jornalista, ao receber o diagnóstico, pensa demais em sua situação, o que parece inevitável no contexto atual. Em um trecho da primeira parte do novo livro, Madalosso lista “guerra na Ucrânia, o preço do medicamento, a última parcela da máquina de gás hélio, a crise climática, o crédito rotativo do cartão, o pelo encravado na virilha, a extinção das abelhas, a cândida de repetição” no mesmo passo do coração atacado da personagem. Isso depois de seu médico recomendar que ela fique longe de emoções fortes.
Para atender à recomendação, ela decide partir para a casa de sua falecida avó, numa cidade interiorana, onde acaba tendo contato com uma antiga amiga, cujo filho também sofre de uma doença grave. As duas, apesar de já terem sido bem próximas, acabaram se distanciando em decorrência das diferenças que foram surgindo com o tempo. As opiniões conflitantes, porém, agora terão de conviver (especialmente as que versam sobre Deus). O livro é carregado de um humor dúbio que força o leitor a encarar de frente questões muito pertinentes, como a medicalização da vida e as questões de classe, e acaba, com essa fórmula, escancarando um país de muita, muita fé.