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Out 2025 10h02
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O cinema hollywoodiano parece ter abandonado os filmes sobre adolescentes. A tevê brasileira também. O cinema brasileiro, então, nem se fala. Deixaram de ser feitos aqueles longas protagonizados por adolescentes comuns, que sofrem bullying, se apaixonam, se metem em encrencas na escola, têm problemas com os pais, são considerados perdedores e, no fim, aprendem o valor da amizade. Esses filmes eram importantes ritos de passagem, e ainda formavam uma plateia futura para o cinema. Por isso, é tão importante que os adultos levem os adolescentes para assistir O último episódio, filme dirigido por Maurílio Martins, um dos fundadores da produtora mineira Filmes de Plástico.
Martins, que também escreveu o roteiro do filme com Thiago Macêdo Correia, faz uma delicada homenagem aos clássicos adolescentes da Sessão da Tarde, ao narrar a história de Erik (Matheus Sampaio), um garoto meio loser que tenta conquistar a gatinha da escola dizendo guardar em casa uma fita VHS com o cobiçado episódio final da série de animação Caverna do Dragão. A série fez grande sucesso nos anos 1980 e 1990, quando foi exibida, e marcou a geração de crianças e pré-adolescentes que a assistiu na época.
Mas Erik mente: a fita VHS não existe. Para resolver o dilema, ele convoca os amigos Cristiane e Cassinho para ajudá-lo a recriar o episódio e impressionar a menina mais bonita da escola.
As equipes de arte, figurino e caracterização acertaram em cheio na recriação do ano em que se passa o filme, 1991. Tudo evoca o passado – nos cenários, nas roupas e nas locações –, sem cair na caricatura. Martins não esconde sua reverência ao americano John Hughes (1950-2009), diretor de Curtindo a vida adoidado, e seus congêneres, o que se percebe em cenas como o plano de detalhe de um par de tênis sob o reservado do banheiro, o quarto abarrotado de pôsteres pop, o adolescente com seu olhar melancólico, ora cabisbaixo, ora mirando o teto. Martins é íntimo desse universo e o conduz com afetuosidade, respeitando as convenções, temas, estruturas narrativas e códigos visuais desse tipo de cinema dedicado aos adolescentes.
Mas o que torna O último episódio realmente especial é sua antropofagia. Martins absorve e digere esses códigos à sua maneira e ao modo como os diretores da Filmes de Plástico veem o mundo a partir dos bairros periféricos da cidade de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. No ritmo delicado e contemplativo que caracteriza o coletivo de diretores, Martins cria uma crônica terna da vida simples, um olhar generoso e carinhoso sobre personagens e espaços, deslocando as aventuras do subúrbio americano (como nos filmes de Hughes) para o Jardim Laguna de sua infância.
Martins também mostra como a vida íntima é atravessada pela realidade social. O tempo narrativo do filme coincide com o contexto sufocante da hiperinflação durante o governo Collor, que atinge em cheio a família de Erik, mas também a rede de proteção e afeto da comunidade pobre onde ele vive. O adolescente perdeu o pai, Vilmar Doido, em circunstâncias misteriosas para ele. A mãe enfrenta o luto trabalhando como repositora de supermercado e recorrendo ao álcool para suportar a dor. São os amigos, professores, vizinhos e velhos conhecidos do bairro que ajudam Erik a atravessar esse período de turbulências.
Nos filmes adolescentes americanos, os dramas são quase sempre individuais – e a superação dos conflitos também se dá no plano individual. Já em O último episódio, a saída para os conflitos de Erik nasce da coletividade. É um caminho trilhado por Martins em outros filmes, como No coração do mundo (codirigido por Gabriel Martins, em 2019).
Matheus Sampaio, que interpreta Erik, tem o carisma exato dos heróis tortos do gênero como Jerry Mitchell (Te pego lá fora), Mikey Walsh (Os goonies) ou Ted (Gatinhas e gatões). É um ator jovem que maneja com habilidade o humor sutil, a rebeldia contida e a doce melancolia. Os coadjuvantes são igualmente cativantes. Daniel Victor está adorável como Cassinho, o amigo e vizinho, um tecladista evangélico que vive uma comovente trama queer (menos explorada do que merecia). Tatiana Costa encanta como Cristiane/Cristão, a garota inteligente e de personalidade vibrante que livra Erik das enrascadas – e que, como nos bons filmes adolescentes, nos faz perceber que a amiga esperta é sempre mais interessante que a gatinha popular.
Outra marca da Filmes de Plástico que eleva o longa acima da simples homenagem é a maneira de borrar fronteiras entre ficção e realidade. Martins intercala o filme com imagens de seu acervo pessoal: vídeos em VHS e fotografias que retratam o cotidiano vibrante do seu bairro nos anos 1980 e 1990. E o diretor narra a história em primeira pessoa, conferindo-lhe um tom autobiográfico. A trilha sonora, assinada por John Ulhoa e Richard Neves, ambos do Pato Fu, é um deleite. Ulhoa faz um registro pós-punk na abertura do filme, e Fernanda Takai, uma graciosa interpretação de Qualquer jeito (“Não está sendo fácil viver assim…”), a canção de Kátia, sucesso da época.