23 Jul 2026
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Publicado em dezembro de 2024 pela editora Âyiné e traduzido por Tamara Sender, o livro Amanhã talvez o futuro – escritoras e rebeldes na Guerra Civil Espanhola, da escritora inglesa Sarah Watling, passou despercebido do grande público e da crítica quando foi lançado por aqui. Mas é uma notável contribuição à historiografia de um dos mais violentos conflitos da primeira metade do século XX, que resultou em cerca de 500 mil mortes. Uma obra comovente e, ao mesmo tempo, aterrorizante.
O título do livro é inspirado na abertura do poema do escritor inglês W.H. Auden, intitulado Espanha, 1937 (“Amanhã, o futuro talvez [...] Hoje, porém a luta”). O verso aponta para certo otimismo com o futuro, mas o livro não o confirma. Para contar a história espanhola, Sara Watling remexeu diários, cartas e manifestos perdidos e descobriu a importância das mulheres – escritoras ou não – na luta contra o fascismo na década de 1930, fazendo uma analogia daqueles tempos sombrios com os dias atuais.
Ao ler os manifestos de escritoras, como a inglesa Nancy Cunard, a autora se deu conta das muitas semelhanças históricas: “Processos democráticos, mecanismos de justiça, a própria verdade: tudo isso estava sob renovada ameaça.” Também não há como ignorar, depois de ler a obra de Watling, a similaridade entre a ineficiência da Liga das Nações naquela época e a da ONU, atualmente, bem como os paralelos entre a tragédia espanhola e as barbaridades atuais, como as cometidas em Gaza e na Ucrânia. Um mundo sem lei, como o que a humanidade assistiu no conflito espanhol, que desaguaria na Segunda Guerra Mundial.
É através do olhar arguto de mulheres como Cunard e das também escritoras Martha Gellhorn, Sylvia Townsend Warner, Valentine Ackland e Salaria Kea, entre tantas outras, que vemos a luta dos republicanos espanhóis e dos brigadistas de todo mundo que se dirigiram à Espanha para tentar conter o avanço do fascismo. Nas palavras de Gellhorn, jornalista e escritora americana que se juntou às brigadas internacionais, a hora era aquela: “Nós simplesmente sabíamos que a Espanha era o lugar para deter o fascismo.” Ou, como escreveu Cunard, num manifesto em que desafia seus colegas escritores a se posicionarem: “Estamos determinados ou compelidos a assumir um lado.” O distanciamento, ela diz, não era mais possível. Ou era “o fascismo ou oposição ao fascismo”.