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UMA SÉRIE ROMANTICAMENTE OTIMISTA

Too Much acompanha uma produtora nova-iorquina recém-saída de um relacionamento longo e tóxico
Imagem Uma série romanticamente otimista

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Lena Dunham é uma daquelas autoras tidas como a “voz da geração” millennial, um título banalizado, mas que ainda serve para descrevê-la. É algo que ela mesma forjou para si logo no primeiro episódio de Girls, sua aclamada série sobre os tropeços e as (raras) vitórias de um grupo de amigas em seus vinte e poucos anos em Nova York. Numa cena famosa e um pouco patética, Hannah (interpretada pela própria Dunham) olha com um ar sério para os pais e diz: “Eu não quero assustá-los, mas eu posso ser a voz da minha geração.” No ar entre 2012 e 2017, Girls foi um marco na representação de jovens millennials. O registro ali era o embate entre expectativas e frustrações. As personagens de Girls achavam que mereciam muita coisa, mas não queriam nada tanto assim — uma representação mordaz e cínica de uma geração marcada por promessas não cumpridas, frustrações precoces e certa autoconsciência paralisante. Mesmo quando diz que pode ser a voz de sua geração, Hannah fala de um jeito cômico e autoirônico. Se ela, Dunham, se tornasse a voz de sua geração, ótimo; se não, era só uma piada.

Dunham estava prestes a fazer 26 anos quando Girls foi ao ar. Agora, aos 39, ela volta às séries num registro completamente diferente. Too Much, lançada pela Netflix em julho, acompanha Jess, uma produtora nova-iorquina recém-saída de um relacionamento longo e tóxico. Ela se muda para Londres e conhece Felix, um músico britânico de ascendência japonesa em recuperação do vício em drogas. Ambos estão em seus 30 e poucos anos e passam por aquela fase em que é necessário reconstruir a própria vida. Só que, aos 30 e poucos, não há mais espaço para esperar as coisas acontecerem. Assim, as personagens de Too Much vão na contramão de Girls. Mesmo com indícios de que suas escolhas não são ideias, Jess e Felix são personagens que encaram a vulnerabilidade e o desconforto de admitir e correr atrás dos próprios desejos.

Querer e correr atrás pode parecer meio ridículo, pela exposição da possibilidade de fracassar. Mas recomeçar exige abrir mão do controle e admitir que se importa com algo. Dessa forma, Too Much propõe uma nova imagem para os millennials: não mais como jovens promissores desiludidos que já sabem que não vão conseguir e nem tentam, mas como adultos sobreviventes tentando construir um cotidiano possível.

Assim, o tom da série é muito menos cínico que Girls, o que pode causar um certo estranhamento para quem está acostumado com o sarcasmo de Dunham. Too Much mistura momentos de delicadeza, humor melancólico e umas boas sacadas sobre afetos, vício e trauma. Como disse a própria Dunham em entrevista à revista The New Yorker, essa é a primeira vez que ela tenta criar algo “romanticamente otimista”. Talvez porque, depois de viver boa parte das experiências que coloca na série, ela tenha descoberto que o amor não é só uma distração cínica — pode ser também um modo de seguir em frente.


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