piauí recomenda
Set 2025 16h42
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O Grupo Galpão é uma trupe de teatro de Belo Horizonte com mais de quarenta anos, que se notabilizou por apresentar montagens populares e inovadoras de clássicos do teatro e da literatura. Essa justa reputação pode ser vista com a primeira temporada da adaptação do romance Ensaio sobre a cegueira, do português José Saramago – que estreou no dia 28 de agosto nos palcos do Teatro Carlos Gomes, no Centro do Rio de Janeiro. A adaptação se chama (Um) ensaio sobre a cegueira, e a provocação no título, com a adição de um artigo indefinido, é boa. Sugere que aquela é uma versão possível, ou uma versão interessada em traduzir a obra humanista de Saramago para o estilo e a linguagem própria do grupo.
O espetáculo faz isso demarcando as características do grupo desde o primeiro momento. No primeiro ato – o momento inicial em que os personagens vão se acometendo da cegueira branca –, o grupo usa sua verve de humor, recorrendo inteligentemente à música para demarcar a ironia de Saramago. Durante o segundo ato, quando os personagens cegos (e a mulher do médico que finge ser cega) são levados e encarcerados num manicômio, a peça ganha contornos mais sombrios. E mergulha na alegoria temática de Saramago sobre a condição humana. Egoísmo, solidariedade, compaixão, ética, moral: a cegueira de quem estava cego mesmo quando supostamente enxergava.
O Grupo Galpão não perde de perspectiva a força da palavra de Saramago, mas também aproxima o público da obra com recursos surpreendentes e originais. Saramago, no seu livro, soube confinar o leitor num manicômio e compartilhar com os cegos a experiência do encarceramento vigiado por um Estado desumano e autoritário. O espetáculo, com direção e dramaturgia de Rodrigo Portella, alcança o mesmo resultado. O desfecho é admirável. A peça fica em cartaz no Rio até o dia 14 de setembro.