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UMA VIAGEM AO PASSADO

Em Posta-restante, Cynthia Rimski produz uma autobiografia que é também um romance de aventuras do mundo globalizado e fragmentado
Imagem Uma viagem ao passado

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A partir de um incidente menor – o encontro casual com um álbum de fotos antigo, à venda numa feira de usados em Santiago do Chile, no qual está escrito a lápis um nome, “Rimski”, parecido com o seu sobrenome — a narradora de Posta-Restante viaja para tentar refazer a trajetória de sua família, judeus que migraram da Europa Oriental para o Chile no início do século XX. É uma aposta: embora não saiba exatamente o que irá encontrar no final da jornada — simbolizada pelo nome de um povoado, Ulanov — sabe que irá encontrar alguma coisa, e isso lhe basta. Andando por uma rua de Tel Aviv, a narradora vê portas entreabertas e tenta capturar o que está no interior das casas. Usa essa situação para caracterizar a experiência do viajante e assim descreve também nossa experiência como leitores: “Faminto de imagens fugazes, será necessário completá-las com a imaginação.”

A autora chilena Cynthia Rimsky, que trabalhou como repórter e há dez anos migrou para a Argentina, produz uma espécie de autobiografia que é também um grande romance de aventuras do mundo globalizado e fragmentado, sempre mais complexo do que parece à primeira vista. Não apenas o texto, mas também as imagens dão testemunho dessa fluidez e transformação: o livro é ilustrado com rascunhos, anotações, rabiscos, mapas, e dessa forma evoca uma frase famosa de Montaigne: “Pinto a passagem.” A tradução de Mariana Sanchez capta bem a prosa de Rimsky, que passa facilmente da descrição prosaica ao voo poético, parecendo sempre suspensa num estado fronteiriço: “Contemplo a ânsia de Moisés M e o desconsolo de Rosa S por me transformarem em algo impossível, um homem que reboca com gesso a fachada de uma casa. Contemplo minha rachadura, que carrego como um lar.”

No Museu da Diáspora, Rimsky não encontra seu nome de família, e os mapas da Europa ao longo do século XX parecem colocar em xeque o próprio vilarejo de Ulanov. A narradora, ao longo do processo, também se transforma, oscilando entre a primeira e a terceira pessoa. Há no livro as imagens de cartas que, enviadas para a posta-restante das cidades por onde a narradora passou, terminam devolvidas ao remetente – daí o título do livro. Endereço do sujeito em trânsito, a posta-restante é metonímia de nossa condição, andando por aí pelo mundo batalhando por felicidade, ou por um sentido para o viver.


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