Mai 2026 14h06
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
A Trilogia mexicana, de Yuri Herrera, livro publicado em fevereiro pela Editora Amarcord, é um compilado de três romances do autor e cientista político mexicano de 56 anos. É a primeira vez que Herrera – que aborda alguns dos temas mais atuais que atravessam seu país, como a migração e a violência do narcotráfico – é traduzido no Brasil.
No primeiro romance da compilação, Trabalhos do reino, o personagem principal é o músico Lobo, um jovem que tenta tirar o sustento através de apresentações do corrido, composição tradicional mexicana muito tocada pelos mariachis. “Nunca reparou nessa coisa absurda, o calendário, porque os dias eram todos parecidos: circular entre as mesas, oferecer canções, estender a mão e encher os bolsos de moedas”, descreve o narrador. A virada na vida de Lobo acontece quando ele aceita se tornar um dos músicos particulares de um poderoso narcotraficante da área, passando a ser chamado Artista (os outros personagens também têm o nome omitido – o Jornalista, a Menina, o Herdeiro, o Rei, etc).
No segundo romance, Sinais que precederão o fim do mundo, acompanhamos a jornada de Makina, uma mulher que passa por longa viagem para encontrar seu irmão, que foi em busca de terras da família para além da fronteira. Para chegar lá, ela precisa se embrenhar em um submundo do tráfico. A última história é A transmigração dos corpos, ambientada no contexto da pandemia de H1N1 no México em 2009. Em meio à corrupção e a uma crise sanitária, um homem é convocado para resolver conflitos de relações entre vivos e mortos.
Com uma escrita que vai do erudito ao popular, do real ao fantástico, habilmente traduzida nesta edição por Rachel Gutiérrez, essa tríade de Herrera é uma viagem pelo México em três atos. Uma viagem densa e violenta, mas ao mesmo tempo rica, saborosa, colorida – pelos goles de mezcal e pulque (bebidas alcoólicas tradicionais do México), pelos tacos e enchiladas apimentadas, na arte e na música de um país que, praticamente ao longo de toda sua história, viveu sob períodos de guerras e invasões. A mescla da linguagem erudita e o dialeto das ruas, dos subúrbios, faz com que temas estereotipados em nosso imaginário como o tráfico e a migração ganhem um ar de originalidade, apresentados como episódios vívidos. Herrera leva à reflexão sobre esse território, não tão diferente do nosso, onde a prosperidade é promessa constante.