filme
Jan 2026 12h37
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Em uma estrada escura, um homem atropela um cachorro. Sua esposa e filha também estão no carro. Ele para, checa se o incidente danificou o automóvel e continua a dirigir. Pouco depois, o veículo engasga e morre. Alguns metros à frente, há uma oficina aberta. Lá dentro, um mecânico, que se chama Vahid, fala ao telefone com sua mãe e presta pouca atenção ao que acontece no andar de baixo, até que ouve um som perturbador: o barulho da perna protética do motorista raspando o chão enquanto se aproxima. É o mesmo som do algoz que o torturava na época em que foi preso pelo governo iraniano.
Assim começa o filme Foi apenas um acidente, do cineasta Jafar Panahi. O filme é um road movie com ares de comédia, mas também uma grande crônica política, filmado no Irã sem a autorização do governo (com equipes e equipamentos reduzidos, pensados justamente para escapar dos olhos da polícia). Vem em bom tempo, visto que, conforme a agência Reuters noticiou no dia 18 de janeiro, cerca de 5 mil pessoas foram assassinadas pelo governo teocrático do país desde a eclosão, em dezembro de 2025, de uma série de manifestações em resposta a uma crise econômica e uma insatisfação generalizada com o regime. Panahi, que viaja com frequência em razão de seus filmes mas segue vivendo no Irã, foi condenado por propaganda contra o Estado. Enquanto os aiatolás não gostaram do longa, o mundo vem numa maratona contrária: o filme já venceu uma série de prêmios, incluindo a Palma de Ouro no Festival de Cannes, no ano passado.
Poucos são os cineastas que encontram o tom certo em gêneros que mesclam humor e tragédia: é até perigoso tratar de temas como esse com a leveza da qual o roteiro dispõe. Trata-se de uma aventura por Teerã e seus subúrbios, feito por um grupo de pessoas que matutaram, mesmo que de jeitos inconscientes, uma espécie de vingança em resposta à repressão.