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Elogio às livrarias de rua

    Banca Tatuí, em São Paulo Foto: Divulgação

questões urbanísticas

Elogio às livrarias de rua

Elas precisam da cidade para existir. E a metrópole precisa delas para recuperar a sua essência de local do encontro das diferenças — e, assim, florescer

Eduardo Andrade de Carvalho e Tomas Alvim, especial para piauí | 25 fev 2026_13h22
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As livrarias de rua de São Paulo não estão apenas resistindo — elas estão florescendo. Lançado em novembro de 2025, o Mapa das livrarias de rua de São Paulo lista – de forma divertida e didática – 37 dessas lojas, que, diferentes entre si, têm algumas coisas importantes em comum, como cuidado com a cidade e carinho com seus clientes. É o que ela e os leitores precisam.

O impacto de uma boa livraria no espaço urbano não é o mesmo de um comércio comum. A Banca Tatuí, da editora independente Lote 42, aberta em outubro de 2014, foi reinaugurada dois meses depois, em dezembro daquele ano, com um show de música para quem passasse na rua. Desde que surgiu, a Banca tornou mais agradável a vida de quem passa pela esquina das ruas Barão de Tatuí e Imaculada Conceição, em Santa Cecília, no Centro da capital paulista.

A Livraria Simples, na Rua Rocha, também na região central da cidade, que abriga ainda um sebo, deixa caixas de livros e banquinhos na sua frente — e essa simpática postura nos convida a conhecer um mundo que se abre dentro dela. A loja organiza uma feira de livros, que reúne outros livreiros para um festival aberto à metrópole

Já a livraria Miúda, especializada em obras infantis, organiza clubes de leitura gratuitos para crianças — e também um bloco de Carnaval de rua para a garotada, que sai da frente da loja, na Pompeia, Zona Oeste. Próximo dali, a Bibla, em Alto de Pinheiros, promove ciclo de conversas com parceiros literários da região e organiza sessões de jogos de tabuleiro com a Ludoverso.

Localizada na Praça da República, no Centro, no térreo de um edifício desenhado por Oscar Niemeyer, o Eiffel, a livraria de mesmo nome é especializada em design e arquitetura e organiza debates sobre esses assuntos. Já a Gato Sem Rabo, também no Centro, é dedicada a livros escritos por mulheres.

A Bandolim, outra loja localizada em Santa Cecília, que mantém um café e impecável curadoria, faz pequenas apresentações de chorinho abertas aos seus clientes. A MegaFauna, no Copan, outro Niemeyer da cidade, também na região central, realiza lançamentos e debates — e inaugurou em agosto de 2024 uma unidade dentro do Teatro Cultura Artística, reaberto no mesmo ano.

 

Por que livros combinam com música, com Carnaval, com café, com jogos de tabuleiro, com transeuntes, com bate-papo, com troca de ideias? Ora, porque combinam com cidades, o espaço, por excelência, do encontro das diferenças. O que as livrarias de rua de São Paulo estão fazendo é exatamente isto: devolver à cidade a sua essência — inclusive histórica. Elas não estão apenas nos ajudando a ser leitores melhores, mas, sobretudo, trabalhando para vivermos em uma cidade melhor também.

Ressalte-se que algumas vêm cumprindo essa missão há décadas. É o caso da acolhedora Zaccara, em Perdizes, na Zona Oeste, que tem mais de quarenta anos. E da Martins Fontes, nascida em Santos em 1960 e com sua primeira unidade na capital aberta no início da década de 1980 na Rua Dr. Vila Nova, Vila Buarque, região central da cidade. A própria variedade do acervo dessas livrarias é uma defesa e um elogio à tolerância — algo fundamental para convivermos juntos numa cidade.

E é essa tolerância que se vê também na Feira do Livro de São Paulo, que acontece uma vez por ano na Praça Charles Miller, no Pacaembu, Zona Oeste da metrópole. Na última edição, em junho, por mais de uma semana, 150 expositores — editores e livrarias — atenderam a uma multidão, que foi ao local, de acesso gratuito, para comprar as obras, conhecer os lançamentos, ouvir autores ou apenas tomar sol ou sentar e relaxar.

Entretanto, se, de um lado, muitas livrarias abriram em São Paulo recentemente, precisamos lembrar: muitas, e por diferentes motivos, também fecharam as portas nos últimos anos, e deixam saudades. Pense na Cultura do Conjunto Nacional, em plena Avenida Paulista, na Livraria Francesa, no Centro, na Haikai, não muito distante de onde acontece a Feira do Livro. No Itaim, tinha a discreta Corrêa do Lago — que vendia livros novos e antigos. Muitos sebos encerraram suas atividades de pouco tempo para cá — como infelizmente ocorreu em dezembro com o Sagarana, em Pinheiros.

Quem também lamentou o fechamento do Sagarana foi Ricardo Lombardi, dono de outro sebo em Pinheiros, o Desculpe a Poeira. Para ele, o Sagarana foi vítima “de um tipo cada vez mais comum: aquele que entra, tira fotos, publica no Instagram — e não compra nenhum livro”. Com uma bandeira com uma foto de Roberto Bolaño na entrada, o Desculpe a Poeira ocupa uma pequena garagem e tem um acervo maravilhoso. O próprio Ricardo, sentado na calçada, com uma garrafa de vinho ao lado, aproveita a sua erudição para indicar preciosidades pouco conhecidas. Essa relação com a rua — a do Ricardo e do sebo — faz daquele canto de São Paulo um lugar especial.

Sebos não são concorrentes — são amigos, parceiros. Trabalham juntos. Assim como as livrarias de rua de São Paulo, que, ao se organizarem para criar o Mapa citado antes, passaram também a divulgar coletivamente o próprio trabalho. Os verdadeiros concorrentes das livrarias, dos sebos, dos livros, não são outros livreiros. São a falta de leitura, de conhecimento — ou mesmo de interesse.

Por isso, é preciso estender a mão — e mostrar o que está dentro dos livros de uma forma acolhedora e simpática, como essas livrarias têm feito. Há um mundo dentro de cada livro. Um mundo que pode ser diferente, curioso — que pode nos ajudar a descobrir coisas diferentes e a pensar melhor. Um mundo que, independentemente de onde e quando a obra foi escrita, pode não ser velho. O slogan do Desculpe a Poeira, aliás, é: “A livraria das novidades velhas.”

Precisamos também dessas novidades. O professor Antonio Carlos Secchin organizou por muitos anos um guia dos sebos brasileiros — comentado e prático — cuja última edição saiu em meados dos anos 2000. Muitos dos sebos listados ali já não existem. O jornalista e editor Matinas Suzuki Jr. lançou, em 2025, os primeiros livros da sua nova editora, a Casa Matinas, dedicada a “livros imperecíveis”, que “nasce para dar nova vida a livros esgotados e fora de catálogo”. Precisamos de novidades com e sem poeira. E precisamos delas em todos os lugares. O Yerba, um bar de mates no Campo Elíseos, na região central, também tem uma livraria. O Barouche, especializado em drinks, na Vila Madalena, Zona Oeste, vende uma seleção cuidadosa de livros. (A Mercearia São Pedro também deixa saudades.) Alguns cinemas da cidade também têm a sua livraria, como o Reserva e o Belas Artes. Também há livrarias na loja do Masp, nos Sescs, na Sala São Paulo, na sede da Osesp, na Pinacoteca e em várias instituições culturais — e, em geral, elas são ótimas.

Vale lembrar ainda a trajetória da Livraria da Travessa, que nasceu no Centro do Rio, em 1986, consolidou-se como ponto de encontro em Ipanema, chegou a São Paulo em 2019 e no mesmo ano a Lisboa.

No seu livro Livrarias, o escritor espanhol Jorge Carrión diz que uma biblioteca guarda o passado, enquanto uma livraria aponta para o futuro. Temos que apontar para o futuro que queremos. Um livreiro gosta de contar a piada de que, no Brasil, estamos divididos entre os que não leem e os que escrevem — é uma piada dura. Precisamos ler e, tanto quanto possamos, apoiar as nossas livrarias: frequentando, tirando fotos — e comprando livros nelas.
As livrarias paulistanas precisam da cidade para existir. E São Paulo precisa delas para florescer.

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