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Já que é pra levantar… Levantei

    Após eliminação com índice recorde, Karol Conká voltou ao BBB como repórter Divulgação/TV Globo

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Já que é pra levantar… Levantei

Karol Conká, pouco a pouco, cancelou o cancelamento

Roberta Malta, do Rio de Janeiro | 09 abr 2026_07h16
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Final do Big Brother Brasil de 2021. Dois meses depois de protagonizar a maior rejeição da história do programa, ao ser eliminada com 99,17% dos 285 milhões de votos, Karol Conká sobe ao palco dos estúdios Globo e se apresenta no programa final da atração uma música composta dias antes. Dilúvio fala de uma mulher machucada, sob pressão, que atravessa o fim de um ciclo. Bem diferente da imagem exibida nas quatro semanas em que permaneceu no reality de maior audiência da televisão brasileira, ela trocou o moicano trançado por cachos acobreados e os figurinos fashionistas com roupas de cores vivas por um vestido turquesa esvoaçante, num tom semelhante ao da princesa Elsa, do desenho Fronzen

A artista queria tirar de si a capa de agressividade que passou a definir sua persona pública. O pocket show era também uma possível despedida. Ninguém sabia, mas, na cabeça de Karol, aquela poderia ser sua última aparição pública. Por motivos pesados. Fulminada pelas redes sociais, que responderam com linchamento ao comportamento intolerante que a cantora mostrou no confinamento, ela chegou a pensar em tirar a própria vida. 

Passados cinco anos, os cancelados serão exaltados? Em geral, não. Mas sim, no caso de Karol Conká. Suas frases ferinas no reality (como “minha língua é um chicote”), que provocavam ódio no programa, passaram a ser lembradas em vídeos de humor nas redes. Aos poucos, a rapper vinda de Curitiba que ascendeu como sinônimo de empoderamento feminino, e se apresentou na Olimpíada do Rio, voltou a brilhar na tevê.

No ano passado, ela havia participado da chamada de divulgação da celebração dos 25 anos do programa (ao lado de outros participantes, mas com mais destaque, encerrando no vídeo). Neste ano, se tornou repórter do quadro Flash BBB, entrevistando o público nas ruas, e apresentadora do quadro Gestão de Crise, no qual entrevista os  eliminados da semana. 

Quando recebeu a proposta de voltar ao programa como entrevistadora, Karol entendeu ali um fechamento possível para uma história que parecia ter ficado em suspenso. “Desde que saí, tem muita gente falando ‘volta, Mamacita’”, diz, lembrando do apelido que ficou famoso durante o reality.

A escolha não foi casual. Samantha Almeida, diretora de Marketing da TV Globo, contou à piauí que a volta da artista responde à relação que ela mantém com o público e sua “capacidade de mobilização”. Para a executiva, a presença da artista se sustenta na relevância que ela mantém no cenário cultural, no papel expressivo que ocupa entre figuras emblemáticas do reality e em sua capacidade de motivar conversas. Ou seja, ela dá o que falar, e amplia o buzz da atração.

Cheia de presença e com bom humor no vídeo, ela tem se saído muito bem. Nas redes, a participação tem boa repercussão. O jornalista Chico Barney, um dos principais comentaristas de tevê, publicou no dia 11 de março, em sua conta no X, que trazer Conká no Flash BBB era “o maior acerto do Rede BBB nos últimos anos”. O comentário foi feito depois do papo dela com o ator Babu Santana, nome sólido do teatro e do cinema, que havia acabado de ser eliminado da competição em meio a repercussão ruim de seu comportamento no programa. 

Em vídeos rápidos, de no máximo 2 minutos, Karol faz comentários bem humorados, com acidez branda, sobre a trajetória dos participantes. Para Babu, compôs uma música. “Você teve a chance de entrar no BBB de novo/ Tinha favoritismo e fez a música do ovo/ Pesou na comparação foi parar no paredão/ E teve a votação que tombou o Babuzão”, cantou, com referências à briga dele com a participante favorita da edição, a jornalista Ana Paula Renault. “Acho que eu salguei o molho”, disse Babu. “Sei bem. E eu, que amarguei o meu”, ela devolveu.

Em suas aparições, Karol gosta de dizer que seu comportamento mudou depois do BBB 21. “Antes eu era a própria bomba, agora sou uma nova mulher”, afirmou ela, com um tom entre a ironia e a leveza, ao entrevistar um telespectador. Para Babu, disse algo parecido: “Estou aqui, uma nova mulher, para te ouvir e, quem sabe, dar algumas dicas.” Enquanto esteve confinado, Babu ressaltou que Karol era um ótimo exemplo de alguém que havia conseguido limpar a própria imagem após diversas polêmicas (Karol, aliás, é citada pelos participantes de todas as edições posteriores à sua, sempre no assunto cancelamento).

A avaliação de Babu ajuda a entender o momento atual da artista. Aos 40 anos, com um álbum em fase de produção, a cantora encarna um caso raro de descancelamento — prova de que, na cultura digital, a queda nem sempre é definitiva. “Graças ao apoio do público, que teve empatia por mim, à minha saúde e à minha terapia, estou muito bem”, disse Karol à piauí.

 

O Big Brother é um programa com faturamento bilionário (estreou com 1,1 bilhão de reais garantidos em patrocínios, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo). Um participante que “movimenta” o jogo tem um valor multiplicador para a atração, seja um queridinho do público que logo fica multimilionário graças a contratos publicitários, como a advogada Juliette Freire e o economista Gil do Vigor, sejam aqueles que saem com imagens e carreiras avariadas, e consequentemente com portas fechadas, que não são raros. 

A eliminação de Conká foi um infortúnio para ela, mas a glória para a emissora. Rendeu 38,3 pontos de audiência no Ibope e 59,7% de share (televisores ligados), superando os índices das dez finais anteriores do reality. Era pandemia e havia mais gente em frente à tevê, o que ajuda a explicar essa marca, hoje dificilmente alcançada até em último capítulo de novela. A defenestração da rapper, ainda assim, foi o ponto alto da temporada programa, só comparado à final em si. 

Nas quatro semanas em que ficou na casa, ela teve embates com Juliette, posteriormente sagrada campeã, mas especialmente com o rapper e ator Lucas Penteado, que acabou desistindo da atração. Suas falas contra ele (por exemplo: “não quero que você fale comigo quando estou na mesa”), motivaram a ira do público. 

Quando deixou o hotel onde os ex-participantes se hospedavam, Karol precisou sair pelo subsolo, temendo represálias. Com medo de ser agredida no aeroporto, voltou para casa de van, na companhia da mãe e do filho, em uma viagem de 430 km entre Rio de Janeiro e São Paulo

Alçada a vilã nacional, a artista foi chamada para gravar o documentário A Vida Depois do Tombo, da Globoplay, logo depois de sair da casa. Ela topou. Nele, Karol fala de episódios íntimos da vida pessoal, como a infância e a relação com o pai (alcoolista, ele morreu aos 34 anos de forma trágica, afogado no próprio vômito).

Ela considera que o documentário a expôs ainda mais. De fato, não serviu de redenção, mas Fabiana Bruno, CEO da agência Suba, sua empresária na época, avalia que ele lhe prestou um bom papel. “O Big Brother é uma exposição sem contexto. O filme permitiu mostrar uma história maior do que aquele recorte.”

Ainda assim, a angústia de ter mais uma camada da própria história transformada em narrativa pública intensificou o recolhimento. “Não se tinha notícias minhas nas redes sociais. Quando a equipe de gravação ia embora, eu recebia amigos e não falava com mais ninguém”, lembra. Longe dos holofotes e das redes, Karol trabalhava. Escrevia, gravava, reorganizava ideias. De alguns, recebeu o conselho de “ir para o mato e sumir”, mas decidiu que o silêncio seria apenas provisório. “Isso é covardia”, diz. “Minha forma de me curar é trabalhando.”

Uma das primeiras pessoas de fora a lhe estender a mão foi Eliane Dias, empresária de Mano Brown. Às vésperas de lançar Mano a Mano, podcast comandado pelo rapper, que tem como premissa trazer à luz temas da atualidade que causam desconforto, Eliane insistiu que Karol fosse a convidada de estreia. O time relutou. “Mas ela acabou de ser cancelada, vamos mesmo abrir com ela?” Eliane bateu o pé. “Vamos, sim. Esse assunto precisa ser discutido.” Mesmo quando a direção sugeriu adiar sua participação porque a artista havia concedido uma entrevista ao influenciador Whindersson Nunes – um dos comediantes de maior alcance na internet – , a empresária se manteve firme. “Ela foi cancelada. Tem que ir a todos os lugares para provar que está no jogo e saber que é bem-vinda”, disse na ocasião. O episódio do Mano Mano, lançado em 26 de agosto, foi um dos mais ouvidos daquela temporada – segundo o Spotify, foram mais de 1 milhão de plays. 

Para Karol, o cancelamento e a retomada da vida pública foram “a maior experiência de sua vida”. Ela diz ter aprendido o que, em outras circunstâncias, levaria décadas. “Foi tudo muito intenso. Como se eu tivesse vivido vinte anos em pouco tempo.”

Em 2023, a cantora deixou a Suba amigavelmente para cuidar da própria carreira. Em outubro passado, se uniu a Map Brasil, que negocia seus contratos de publicidade. A empresa agencia artistas como Anitta, Jade Picon e Leandro Lima. “Karol sempre teve clareza sobre seus objetivos”, diz Juliana Dejesus, diretora de cultura e relacionamento da empresa.”

Com a imagem apaziguada, era enfim tempo de colheita – sempre com referência ao cancelamento, mas agora com humor.

Na mesma semana do anúncio com a Map, Karol estrelou uma campanha do Nubank intitulada O fim da era do cancelamento para lançar a operadora de celular do banco (NuCel). “É o fim da era do cancelamento… de planos de celular”, diz ela na peça promocional. No mesmo período, anunciou seu retorno à TV Globo para participar da cobertura do BBB. “Karol vive um momento especialmente positivo, com projetos na tevê, música, publicidade e um novo álbum em produção”, avalia Dejesus. 

A presença constante na tevê fez a rapper emendar diversas campanhas publicitárias entre o fim do ano passado e o começo de abril, todas com referências à sua polêmica participação no reality. Na rede de fast food KFC ela diz o seguinte: “Então vocês acham que minha língua serve só para chicotear? Não, não. A minha língua também serve para degustar um sanduíche delicioso.” “Língua de chicote” foi o termo utilizado pelo público para definir as falas debochadas e agressivas de Karol.

Para a marca de produtos capilares Haskell, o texto dizia: “cancelei hábitos antigos, a pressa e cancelei o cancelamento.” O nome da linha de produtos da qual foi garota propaganda se chama “frizz cancelado”. Frizz é um efeito do cabelo quando ele está desidratado. 

Com a Nívea, ao promover um creme corporal, Karol afirmou que “depois daquele tombo, muita gente criou teorias sobre como eu consegui levantar. Tem gente que diz que foi estratégia ou uma boa gestão de crise. Tem quem diga que eu simplesmente apareci diferente. Uma nova mulher”. 

Para o comercial da marca de refrigerante Fys, um lançamento do grupo Heineken, divulgado em 1º de abril, o dia da mentira, ela afirmou que não conhecia o produto e que “é melhor ser tombada por dizer umas verdades no BBB e na vida do que ser esquecida pelo público”. Uma voz diz que ela não precisava ser tão sincera, ao que a rapper conclui com um dos bordões do reality: “Desculpa se eu nasci debochada.” 

Além da presença massiva em comerciais e propagandas, um dos objetivos de sua ida para a Map Brasil é fortalecer a divulgação de seu novo álbum, previsto para este ano. O trabalho será o primeiro desde Urucum, de 2022. Recentemente, em entrevista ao jornal O Globo, Karol afirmou que o projeto vai abordar temas como lealdade, saudade, vulnerabilidade e maturidade. “Passei um bom tempo falando muito de resistência, força, e não que eu não vá falar disso nesse novo trabalho, mas acredito que a vulnerabilidade e a sensibilidade também fazem parte da resistência.”

A mamacita está de volta.