Lévi-Strauss aos olhos de sua viúva
Em livro lançado na França, Monique Lévi-Strauss conta seus sessenta anos de convivência com o antropólogo
Monique Roman conheceu Claude Lévi-Strauss em 1949, num jantar no apartamento do psicanalista Jacques Lacan. Ela estava com 23 anos, e ele, com 40 anos. A jovem foi trabalhar com o antropólogo, como tradutora e assistente. Cinco anos depois, os dois se casaram. Em J’ai choisi la vie (Eu escolhi a vida), lançado na França, Monique, que hoje tem 99 anos, rememora sua vida até a juventude e os sessenta anos em que conviveu com Lévi-Strauss, que morreu em 2009, aos 100 anos. O livro é na forma de uma longa entrevista, dada ao escritor Marc Lambron, da Academia Francesa.
Quando se casou com Monique, o antropólogo acumulara consideráveis fracassos: não apenas nos dois matrimônios anteriores, mas nas tentativas de se firmar como autor relevante e acadêmico de prestígio. Seu livro As estruturas elementares do parentesco, publicado em 1947, havia sido “um insucesso custoso para o editor”, nas palavras de Monique. Para piorar, no início dos anos 1950, a editora Gallimard recusou uma reunião de ensaios de Lévi-Strauss e ele ainda fracassou nas duas tentativas de entrar no prestigioso Collège de France.
Foi nesse período difícil que surgiu a ideia de escrever Tristes trópicos, contando suas pesquisas no Brasil – a obra que tornaria Lévi-Strauss famoso mundialmente. Monique conta que a escrita do livro ocorreu por meio de um processo de colagem e construção gradual. O antropólogo escrevia em sua velha Remington e, segundo Monique, de cada dez páginas que ela recebia para ler, “duas eram sublimes, mas havia passagens tenebrosas”. Lévi-Strauss também recorria a uma tesoura para cortar trechos e parágrafos, reescrevendo o que fosse necessário, até chegar ao texto desejado.
Depois de obter a versão definitiva, ele a entregava a Monique, que datilografava tudo com duas cópias em papel-carbono. A versão original, toda ela um misto de interpolações, cortes, adições e recortes, era jogada fora. Em meio a tanta papelada, a faxineira um dia encontrou um cheque jogado na lata de lixo.
Lévi-Strauss temia que Tristes trópicos pudesse repetir o malogro do livro anterior, que vendeu apenas oitocentos exemplares. Mas dois artigos na imprensa, um de Simone de Beauvoir e outro de Georges Bataille, garantiram o êxito de crítica e de público. Publicado em 1955, o livro conseguiu até mesmo a proeza de abrir as portas do Collège de France: Lévi-Strauss foi eleito em 1959.
A experiência no Brasil narrada em Tristes trópicos foi o ponto de inflexão da carreira acadêmica de Lévi-Strauss, proporcionando-lhe a projeção que buscava. Nas palavras de Monique, a temporada brasileira chegou mesmo a operar mudanças na personalidade em geral fria e distante do antropólogo. Ela comenta que nem a visita a Israel tocou tão fundo Lévi-Strauss. “Eu o vi mais emocionado no Brasil”, ela conta.
Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.
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