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Mas sem perder a ternura jamais

    Sexo, malhação, clube de futebol: a tadala está por toda parte, inclusive onde não deveria Crédito: Allan Sieber

questões medicamentosas

Mas sem perder a ternura jamais

Por que a tadalafila, remédio contra disfunção erétil, se tornou um fenômeno cultural entre os jovens brasileiros

Gustavo Palmeira, do Rio de Janeiro | 26 mar 2026_08h40
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A despeito da minha tendência à hipocondria, não imaginava que uma droga para disfunção erétil pudesse se tornar tão viral. Foi no fim de 2024, em uma noite quente de Miami, que percebi sua popularidade, ao ouvir a conversa dos amigos hétero-topzeiras do meu irmão, todos imigrantes brasileiros por volta dos 20 anos. Eles discutiam dosagens de tadalafila como se estivessem administrando medicamentos escassos de um hospital em zona de guerra. “Meio comprimido antes da festa, o resto se o date da noite render”, dizia um deles, com a serenidade de um químico da Pfizer.

Alguns meses depois, de volta ao Rio de Janeiro, a caminho de uma balada com amigos homossexuais cariocas descolados, a conversa novamente foi sobre a logística do consumo da tadala, como a droga é carinhosamente chamada. “Vou levar uma pílula na carteira. Se eu pegar um passivo, tomo eu. Se pegar um ativo, dou o remédio para ele”, dizia um amigo que é polivalente em posições sexuais.

Em seguida, veio o Carnaval em que Valesca Popozuda lançou Poesia cústica, hit que trazia este verso publicitário: “Em 2025, a pipa sobe com tadala.” Na verdade, a mocidade brasileira já conhecia a tadala de outros carnavais. Um relatório divulgado pela Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac) constatou que a tadalafila havia sido o quinto medicamento genérico mais vendido no Brasil em 2024, com mais de 65 milhões de unidades comercializadas.

Um levantamento publicado pelo G1 em maio do ano passado, com base em dados da Anvisa, mostrou que a venda de tadalafila cresceu vinte vezes em dez anos no Brasil. Isso se deu especialmente entre os jovens, que não são, em tese, o público-alvo do remédio. Um estudo realizado em 2021 por pesquisadores da Faculdade de Ciências e Educação Sena Aires, de Valparaíso de Goiás, entrevistou cerca de oitocentas pessoas que compraram a tadalafila em drogarias do Plano Piloto, em Brasília. Descobriu que 51% desses consumidores tinham entre 17 e 30 anos, faixa etária na qual a incidência da disfunção erétil é baixa (o problema se manifesta sobretudo a partir dos 40).

Grande parte dos compradores ouvidos no estudo não apresentaram receituário médico. A automedicação é comum, pois qualquer um pode comprar a tadalafila nas farmácias. A caixa com comprimidos é sinalizada com a tarja vermelha, que formalmente indica a necessidade de prescrição médica, mas, no dia a dia, as farmácias só a pedem quando o medicamento é tarja preta, que exige a retenção da receita médica. Nas redes sociais, há uma infinidade de testemunhos em vídeo de influenciadores sobre a eficácia do remédio. Eles apresentam a tadalafila não como um tratamento para quem tem problemas de ereção, mas como uma espécie de energético sexual, indicado para melhorar a performance. Até onde sei, meus conhecidos héteros e gays que ajoelham na igreja da tadala não sofrem de disfunção erétil – e todos compram a droga sem receita. 

Remédios contra a impotência – identificados como PED5 ou PED5i, no jargão farmacêutico – relaxam a musculatura lisa e facilitam a circulação sanguínea, o que favorece a ereção. O sildenafil (princípio ativo do Viagra, também chamado de sildenafila) e a tadalafila, pelo que se sabe de testes clínicos, não viciam nem provocam síndrome de abstinência. Podem, no entanto, provocar dependência psicológica. O uso recreativo (ou impróprio) dos PED5, atrelado ao desejo de incrementar o desempenho sexual, muitas vezes vem conjugado a substâncias ilícitas, como cocaína e ecstasy. Originalmente destinados ao tratamento clínico, esses medicamentos passaram a compor o rol das chamadas “drogas de estilo de vida”.

Geralmente, os jovens começam a usar a tadalafila por indicação de amigos ou por curiosidade. Isso já ocorria com o Viagra, mas o novo PED5 ganhou uma aura pop. Entrou em uma corrente escrachada da cultura brasileira, como demonstra o sucesso de Tadalafila, canção da dupla Barões da Pisadinha que tem mais de 20 milhões de reproduções no YouTube e no Spotify. A repercussão cresceu ainda mais graças a um produto que só o brasileiro poderia conceber: o gummy MetBala, chiclete de tadalafila fabricado pelo laboratório FB Manipulação Ltda. Ele foi proibido pela Anvisa no ano passado, já que não estava regularizado na agência e, para piorar, a empresa não tinha autorização para fabricar medicamentos. Mais recentemente, a Anvisa proibiu também o Tadala Max, anunciado como um “suplemento alimentar” que favorece a virilidade – e que, apesar do nome, não tem nada a ver com a tadalafila. 

Mas é enxugar gelo. No Carnaval de 2026, uma empresa do ramo de bebidas lançou um energético chamado Tadala, causando mais um fuzuê nas redes. Na verdade, não continha a substância, mas rendeu uma reclamação do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que lamentou a “banalização do uso de fármacos”.

 

O chiclete proibido foi uma modesta tentativa de surfar na onda que varreu o mercado farmacêutico nacional e internacional quando caiu a patente da tadalafila. Isso aconteceu em 2015 no Brasil, em 2017 na Europa e em 2018 nos Estados Unidos. Até então, o laboratório Eli Lilly tinha o direito exclusivo sobre a substância, princípio ativo do medicamento que ganhou o nome comercial de Cialis. O fim da patente deu início a uma briga de espadas no setor. Com a entrada de outros gigantes, como Eurofarma, Medley e EMS, as versões genéricas tomaram conta do mercado, atendendo ao público masculino que até então não tinha capital para fugir ao terror da meia bomba. Já em 2018 as vendas de Cialis caíram 20%, um declínio que só se acentuou.

Se antes o Cialis custava entre 150 e 200 reais, depois da quebra da patente, tornou-se possível encontrar genéricos na faixa dos 30 a 60 reais (por uma caixa com quatro comprimidos de vinte miligramas). A tadalafila tornou-se o assunto das editorias de saúde da imprensa brasileira. O jornal O Globo, por exemplo, publicou há dois anos uma manchete que dizia: “MC Bin Laden diz que toma remédio de disfunção erétil para treinar; isso funciona?” A resposta é não. O UOL, por sua vez, indagou: “‘Tropa do tadala’: o que está por trás do aumento das vendas do remédio?” O G1 foi além: “Tadalafila aumenta o tempo da ereção e o tamanho do pênis? Veja mitos e verdades sobre o medicamento.” O gabarito: não aumenta nem um nem outro.

A tadala está em alta no mundo todo, impulsionada não só pela quebra da patente, mas por um crescimento geral na venda de remédios contra a disfunção erétil nos últimos anos (reflexo, em parte, do envelhecimento da população mundial). Mas, ao que tudo indica, só no Brasil o medicamento se tornou um fenômeno pop. O país ganhou a liderança global nas buscas por tadalafila no Google, segundo os dados da plataforma. Entre as pesquisas mais comuns estão “tadalafila preço” e “tadalafila genérico”. Até a curiosidade feminina foi atiçada: “O que acontece se a mulher tomar tadalafila?” foi uma pergunta frequente. Não há indícios de que o medicamento incremente a performance sexual feminina, e elas estão sujeitas aos mesmos riscos que os homens.

Os especialistas alertam que o uso da tadalafila sem acompanhamento médico pode acarretar variados problemas de saúde. Numa nota publicada em maio do ano passado, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) listou alguns deles: dor de cabeça, dor lombar, vermelhidão facial, tontura, palpitações, hipotensão postural e distúrbios visuais. A interação com outros medicamentos, além disso, pode causar queda acentuada da pressão arterial e, em última instância, morte. A SBU, por fim, chamou atenção para o risco de dependência psicológica, já que, segundo a entidade médica, o uso frequente da tadalafila pode levar o indivíduo a “condicionar sua confiança à medicação”.

Conversei com muitos tadalafellas (como alguns usuários se definem, adotando um neologismo em inglês que pode ser traduzido como “parças da tadala”), e nenhum deles se vê no meio de uma crise da saúde pública. O uso, digamos, “preventivo” do medicamento está consagrado, apesar dos muitos alertas emitidos pelas associações médicas. Antes de partir para um encontro, muitos jovens tomam o comprimido e assim acalmam a ansiedade de performance (seja ou não por causa de um efeito placebo, como sugerem alguns médicos).

O sildenafil, base do Viagra, garante de quatro a seis horas de efeito. A tadalafila, por sua vez, elevou a animação para 36 horas – o que levou o Cialis a divulgá-la como o “remédio do fim de semana”. O Viagra ainda exige jejum de comidas gordurosas para melhor absorção, enquanto a tadalafila não tem interações alimentares consideráveis. De quebra, o sildenafil provocou, em alguns casos, um distúrbio visual temporário chamado cromatopsia: o usuário enxergava tudo em um tom azulado que não contribuía para um ambiente sexy.

 

A segurança, porém, não é uma preocupação universal entre a crescente base de usuários do medicamento. A tadalafila tornou-se item obrigatório nos encontros de Chem-Sex (sexo com químicos),  maratonas sexuais regadas a drogas – tema de uma reportagem publicada pela piauí em abril de 2023. Por via oral ou inalada, ela é consumida junto com cocaína, ketamina e até ritalina, remédio empregado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Sob condição de anonimato, um amigo que chamarei de Jorge, de 35 anos, me falou de suas experiências químico-eróticas. Ele passou a associar o uso de cocaína ao medicamento para disfunção erétil, para vencer a insegurança: “Você está com um cara e quer performar muito, entregar demais, daí investe no corpo clínico e farmacêutico.” Em uma relação casual que manteve por um ano, Jorge recorria à tadala toda vez que transava, por medo de perder o ímpeto – ainda que, com outros parceiros, ele não tenha sentido a necessidade de turbinar a ereção com farmacêuticos.

O sucesso da tadalafila já se estendeu do sexo para uma outra paixão nacional. Há dois anos, Gabriel Aguiar montou o Tadalafila Futebol Clube para representar a cidade de Anhembi, no interior de São Paulo, em campeonatos locais. A sugestão do nome veio de um treinador de academia e foi prontamente aceita pelos demais membros da agremiação. “Todos do grupo têm mais de trinta anos. Todos ali já tiveram alguma experiência com o remédio”, diz Aguiar.

O presidente do time relata que um jogador que tem problemas cardíacos certa vez tomou a droga que dá nome ao time antes de uma partida – e acabou desfalecendo em campo. “Ele desmaiou e conta que, quando acordou no ambulatório, ainda estava daquele jeitão”, brincou Aguiar, em conversa comigo por telefone. O “jeitão”, bem entendido, era o efeito principal da tadala: o jogador voltou à consciência, no posto de saúde, com o mastro erguido.

 

A turma da maromba tampouco quer saber de meia bomba: embora não exista qualquer evidência científica de que a tadalafila favoreça o ganho de massa muscular, a droga virou febre nas academias. Existe até um guru da Tadalafila atlética. Um influenciador no Instagram com milhões de seguidores defende – sem sombra de comprovação científica – que o medicamento melhora a vasodilatação e incrementa a performance esportiva.

Entusiasta da Tadala, Felipe, amigo de um amigo meu, de 35 anos, toma o remédio diariamente há cinco anos, como parte de um combo que ainda inclui anabolizantes, testosterona e protetores hepáticos. Faz isso todo dia, “independente de malhar ou não”, diz. Ele me disse que esse regime é acompanhado por um endocrinologista.

Na malhação ou na balada, a ideia é afastar inseguranças. O psicoterapeuta Ralmer Rigoletto, membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH), lembra que as pessoas não frequentam a academia só para modelar o corpo, mas também (ou principalmente?) para exibi-lo. “E isso inclui exibir o volume do pênis por baixo da roupa. Quando o homem vai para a frente do espelho, para se ver e para que os outros o vejam, ele gosta de mostrar o volume. É uma tendência comportamental, não é uma necessidade orgânica”, explica.

A médica Sandra Poerner, especialista no tratamento de problemas sexuais, explica esse exibicionismo do falo: “A ereção é uma coisa vista. Não tem como disfarçar. Hoje em dia se pensa em sexo de um jeito performático, não como uma troca entre dois pares.” Ela lembra ainda que a atual facilidade de acesso à pornografia na internet vem reforçando a ideia de que o sexo precisa ser de “alta performance”. 

Por falar em performance, agora eu tenho que ir. Um tadalafella que entrevistei me chamou para a balada. Ele propôs uma espécie de gincana: vamos tomar tadalafila antes de sair, e quem conseguir alguém para colocar o medicamento em prática, ganha. Aquele que não tiver sorte vai para casa meio duro.