vultos da república
Consuelo Dieguez Ago 2019 07h00
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A ministra Tereza Cristina, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, entrou no prédio envidraçado do Parlamento Europeu, em Bruxelas, para a discussão do acordo entre União Europeia e Mercosul, com a sensação do jogador que pisa em campo na final do campeonato sem nunca ter atuado em partida alguma. Nos últimos vinte anos, dezenas de diplomatas, técnicos e ministros se revezaram em duras rodadas de negociação na tentativa de abrir um mercado de mais de 500 milhões de pessoas para os produtos brasileiros (e também argentinos, uruguaios e paraguaios).
Quando ela desembarcou na capital belga, no dia 24 de junho, as cláusulas econômicas já estavam amarradas. A pendência se concentrava justamente no agronegócio. A pressão sobre a ministra – tanto por parte dos técnicos da pasta da Economia, no Brasil, quanto dos comissários da União Europeia (UE) e dos parceiros do Mercosul – era tremenda. Se o grupo da Agricultura não fosse capaz de desatar os nós, o acordo, mais uma vez, ficaria emperrado.
“Eu me senti como aquele jogador que vai bater o último pênalti da disputa”, ela me disse, em meados de julho, quase um mês após o fechamento do acordo. “Se eu acertasse, a vitória seria atribuída, com razão, a todo o time que há anos se empenhava na viabilização do projeto. Se eu falhasse, a culpa seria toda da Agricultura.”
As acusações de que parte da soja brasileira estaria vindo de áreas desmatadas ilegalmente se transformaram no ponto de maior atrito. Tereza Cristina foi informada de que o acordo só seria fechado se os negociadores brasileiros concordassem com a inclusão do chamado “princípio da precaução”. Segundo essa cláusula, a suspensão imediata da importação de soja pelos europeus estaria autorizada caso houvesse denúncia de que o produto provinha de área de desmatamento ilegal.
A ministra bateu o pé. Avisou que o Brasil estava fora do acordo se os europeus insistissem na exigência. A tensão aumentou e as negociações travaram. Entrou em campo, então, a diplomacia. Uma reunião foi marcada fora da agenda oficial entre Tereza Cristina e o comissário para a Agricultura da União Europeia, o irlandês Phil Hogan. Às sete e meia da manhã de 28 de junho, data final para a assinatura, ela e Hogan, um homenzarrão calvo, de quase 2 metros de altura, se encontraram para o breakfast no restaurante do hotel Steigenberger.
O hotel fora escolhido para a conversa porque não abrigava membros das delegações que discutiam o acordo. Para surpresa da brasileira e do irlandês, porém, apareceu no restaurante o embaixador americano para a União Europeia, que resolveu sentar-se justamente à mesa ao lado. “Tivemos que falar num tom muito baixo, tapando nossas bocas com as mãos, para que ele não nos ouvisse”, contou a ministra.
A conversa não foi amena. Hogan insistia que o acordo só sairia se o Brasil aceitasse a exigência. “Eles queriam colocar uma trava nas nossas exportações, já que qualquer informação de que a soja vinha de área desmatada seria motivo para suspenderem as compras.” E esse processo só seria revertido, afirmou ela, se o Brasil provasse que a informação era falsa, o que poderia levar meses.
A contraproposta brasileira era de que a cláusula somente poderia ser aplicada se os europeus fizessem as acusações com base em provas científicas, como imagens de satélite. “Era o mínimo”, me disse ela, sem esconder certa irritação. “Se nos acusam, cabe a eles apresentar as provas de que estamos agindo errado.”
Apoiada por dois diplomatas brasileiros, Tereza Cristina comunicou a Hogan que não estava blefando e chegara ao limite da negociação. “Eu estava muito brava. Ou eles aceitavam que a cláusula fosse redigida conforme a proposta brasileira ou a negociação se encerrava ali.” O café da manhã terminou sem se obter um consenso.
Por volta das oito da noite, após um dia de tensos debates, no decorrer do qual a ministra ameaçou abandonar as negociações, os três comissários da União Europeia informaram aos presentes que concordavam com os termos do acordo – inclusive com o princípio da precaução, como proposto pelo Brasil. A euforia tomou conta da sala e houve quem chorasse de emoção. Tereza Cristina apenas sorriu. “Eu quase não comemorei. Estava simplesmente exausta, acho que quase em estado de choque.”
Embora o acordo tenha sido saudado como um marco histórico pelos governos dos países envolvidos – 27 europeus e quatro sul-americanos –, ainda falta muito para o Brasil ganhar a confiança e a simpatia dos parceiros do Norte. O Brasil obteve vitórias expressivas nos pleitos de cotas de exportação de carne, frango, soja, milho, arroz, açúcar e álcool para a União Europeia, além de uma proteção temporária para o vinho nacional, mas o país pode colocar tudo a perder caso não se comprometa, de maneira substancial, com o respeito ao meio ambiente.
“Se esse acordo fosse colocado hoje em votação nos Legislativos francês e alemão duvido que o aprovassem”, especulou o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do Observatório do Clima, uma respeitada coalizão de organizações não governamentais (ONGs) que calcula anualmente as emissões de gases do efeito estufa, causadoras do aquecimento global. Numa conversa por telefone, em meados de julho, Azevedo expôs suas razões: “Não passaria, pois nenhuma das salvaguardas ambientais que o governo brasileiro colocou no acordo se sustenta. Não é verdade que a agricultura do Brasil é sustentável. Uma parte dela ainda desmata. E não é verdade que estamos controlando o desmatamento. O Brasil tem que admitir os seus erros e dizer que está se empenhando em mudar, em vez de querer vender a imagem de que faz tudo certo.” Segundo ele, os problemas ambientais servem para reforçar o lobby europeu, que usa a seu favor o fato de que parte da produção brasileira provém de áreas desmatadas.
Azevedo disse que este seria o momento de o país mostrar com clareza que está comprometido com a preservação. “Quando produtores queimaram um caminhão do Ibama, em Rondônia, em protesto contra o endurecimento da fiscalização, o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, tinha que ter mandado prender os que atacaram os funcionários do Estado; quando o senador Flavio Bolsonaro, filho do presidente, sugere a redução das áreas de reserva legal, o governo tinha que dizer que aquilo está fora de cogitação; quando o garimpo invade terra de índio, a polícia e o Exército tinham que entrar em campo e punir os responsáveis”, afirmou. “O governo brasileiro pensa que não existem satélites? Que ninguém enxerga as invasões em terra indígena?”
A bióloga Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente nos governos Lula e Dilma, é uma voz influente nos foros de clima internacionais. Ela também antevê problemas no acordo entre os dois blocos, caso a Europa perceba riscos ao meio ambiente no Brasil. Em julho, ela me disse que, a despeito do agronegócio dar sinais de que tem se esforçado para aumentar a produção sem desmatar, a verdade é que ainda ocorrem estragos, principalmente na Amazônia e no Cerrado.
Como Azevedo, Teixeira vê na atuação do governo federal a razão do insucesso do país. Enumera, em sua lista de críticas, as estocadas do presidente e do ministro do Meio Ambiente contra ambientalistas e órgãos públicos, as insinuações de que será permitido garimpo em terras indígenas e o ataque de Jair Bolsonaro aos dados do desmatamento divulgados pelo renomado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe [Esta edição traz reportagem específica sobre o Inpe, da página 20 à 24].
No final de agosto, Bolsonaro entrou em confronto com a comunidade internacional, alarmada com as queimadas na Amazônia. A crise ganhou o noticiário no dia 19 de agosto, segunda-feira, após o céu da cidade de São Paulo enegrecer no meio da tarde – a principal causa foi o transporte de fumaças de queimadas na região amazônica.
Na manhã daquele dia, Tereza Cristina havia estado em Rondônia para a cerimônia de um programa de manejo sustentável da Floresta Nacional do Jamari. Durante um sobrevoo pela floresta deparou-se com dois grandes focos de queimada e pressentiu problemas. Ao chegar a Porto Velho, a fumaça encobria o aeroporto. Preocupada, fez um discurso ao lado do governador, alertando para os incêndios. Quando ela voltou a Brasília, a escuridão em São Paulo já era assunto em todo o país.
No dia seguinte, um satélite da Nasa revelou as queimadas para o mundo, e o desmatamento na Amazônia se transformou em crise internacional. Governantes de vários países, artistas, atletas e celebridades passaram a atacar Bolsonaro, acusando-o de incentivar a destruição da floresta. Multidões se aglomeraram em frente às embaixadas brasileiras mundo afora, engrossando os protestos.
O mais veemente deles veio do presidente da França, Emmanuel Macron, que acusou Bolsonaro de mentir sobre compromissos ambientais assumidos durante o encontro do G20 no Japão, em junho. O francês foi logo apoiado pelo primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar. França e Irlanda são, coincidentemente, os dois países mais insatisfeitos com o acerto comercial entre a União Europeia e o Mercosul, por temerem a competição com o agronegócio brasileiro. Na reunião do G7, no fim de semana de 24 e 25 de agosto, Macron chegou a sugerir que o acordo fosse desfeito.
Bolsonaro, em vez de admitir a ocorrência de queimadas na região amazônica e propor medidas de emergência para conter o fogo, preferiu o confronto. Primeiro, acusou, sem qualquer prova, as ONGs de serem as responsáveis pelas queimadas. Em seguida, constrangeu os governadores da região, dizendo que eles não faziam nada para conter os incêndios. Por fim, disse que os fazendeiros também eram culpados pela situação, o que agastou integrantes do agronegócio.
A tensão aumentou no setor, e Tereza Cristina resolveu agir. Na manhã do dia 21, quarta-feira, ela arrastou o ministro Ricardo Salles para a sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, em Brasília. Uma reunião emergencial com os presidentes de todas as federações da agricultura e da pecuária havia sido convocada para discutir um modo de desassociar o setor da destruição da Amazônia.
O clima na confederação era de guerra. Os presentes acusaram o Ministério do Meio Ambiente de nada fazer para conter a devastação e disseram que, se Salles não agisse rapidamente, quem pagaria a conta seria o agronegócio. O ministro reagiu e, segundo um participante da reunião, disse aos produtores que não pedissem mais a colaboração dele para nada. Tereza Cristina, percebendo que a situação estava saindo de controle, pegou o microfone e afirmou que todos estavam ali para encontrar juntos uma solução. Também repetiu o que dissera no Palácio do Planalto, na véspera: a imagem do Brasil no exterior era muito ruim e o governo precisava agir logo.
Não demorou muito até que Bolsonaro criasse nova confusão. No dia seguinte, à tarde, em uma de suas habituais transmissões via internet do Palácio do Planalto, ele afirmou: “Há suspeita de que tem produtor rural que tá agora aproveitando e tacando fogo geral aí.” Revoltados, os representantes das federações da agricultura e da pecuária se reuniram para redigir uma carta contra o presidente. E, mais uma vez, a bombeira foi a ministra Tereza Cristina, que os fez desistir do intento. Principais atingidas pelas denúncias de desmatamento, as federações dos estados da região Norte insistiram que o governo, ao menos, declarasse publicamente que quem faz queimada é bandido, e não agricultor.
Criticado dentro e fora do país, Bolsonaro decidiu fazer um pronunciamento na sexta-feira. Em rede nacional de televisão, afirmou que mandaria o Exército intervir na região amazônica e montaria uma força-tarefa para conter as queimadas. Durante o pronunciamento, houve panelaços em várias cidades do país. No sábado, Bolsonaro recebeu as primeiras boas notícias da reunião do G7: a chanceler alemã, Angela Merkel, defendera que a suspensão do acordo entre a UE e o Mercosul não era uma boa solução para as queimadas. Além disso, os líderes mundiais decidiram oferecer ao Brasil 20 milhões de dólares (cerca de 83 milhões de reais) para ajudar no combate ao problema na Amazônia.
Na conversa que tive com Tereza Cristina em meados de julho, antes da crise das queimadas, ela não escondia seu entusiasmo. “O acordo é uma realidade e será imensamente vantajoso para os dois blocos”, disse, recostada no sofá de camurça marrom de seu gabinete, no oitavo andar do prédio do Ministério da Agricultura.
Quando falei das críticas da ex-ministra Izabella Teixeira e de Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, Tereza Cristina respondeu que a maior parte do agronegócio brasileiro já tomou consciência de que não existe futuro para o business se ele não for desenvolvido de forma sustentável. E afirmou ainda que isso ocorre não porque os produtores tenham se transformado em ambientalistas de uma hora para outra, mas por puro pragmatismo. “Nossos produtores sabem que, com a enorme guerra comercial em torno do agronegócio, os concorrentes buscarão qualquer pretexto para tentar barrar a entrada de nossos produtos na Europa.”
Ela credita parte da visão negativa a respeito do setor ao desconhecimento generalizado sobre os avanços no campo. “É preciso que a sociedade brasileira entenda que houve uma enorme evolução na nossa agricultura no que se refere ao meio ambiente e ao uso do solo, graças a investimentos em tecnologia e inovação”, explicou.
Tereza Cristina não faz coro aos setores do governo que duvidam que haja desmatamento e aquecimento global. Quando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris, que define políticas globais para enfrentar as mudanças climáticas, a ministra se reuniu com ele no Itamaraty para demovê-lo da ideia. “A equipe da Agricultura explicou que é muito importante o Brasil continuar no Acordo de Paris”, ela me disse. “Nosso agronegócio só tem a ganhar, porque é um atestado de que estamos andando na linha. Sem isso, nossas exportações sofreriam um baque gigantesco. Viraríamos párias perante a comunidade internacional.” Pelo texto do acordo Mercosul-UE, os signatários se obrigam não só a implementar o Acordo de Paris, mas a combater o desmatamento ilegal, a conservar a biodiversidade e a estimular o uso sustentável dos recursos naturais.
A ministra contesta que a agricultura seja responsável pelos estragos ambientais. E coloca a culpa pelo desmatamento da Amazônia na atividade ilegal de contrabandistas e grileiros. “No entanto, se tiver produtor desmatando ilegalmente, este também tem que ir para a cadeia. Desmatamento ilegal é crime, venha de onde vier”, disse, e voltou a insistir: “Culpar a agricultura como um todo pelo desmatamento é fazer o jogo dos nossos concorrentes, que levantam essas mentiras para nos tirar do mercado.”
Como boa parte do agronegócio, Tereza Cristina vê oportunismo no comportamento dos europeus. “Nesse mundo internacional não tem nenhuma bondade em relação à preservação do meio ambiente. O que existe são interesses comerciais”, afirmou. E citou a Noruega que, em razão do desmatamento, congelou em agosto um repasse de 133 milhões de reais que fazia anualmente para o Fundo Amazônia. “A Noruega vive nos atacando, mas libera a caça à baleia para estimular sua indústria de óleo, que está em declínio, contrariando a moratória internacional, além de explorar petróleo em alto-mar. Que ambientalismo é esse? Só vale para o terreno dos outros?”
Em seguida, atacou a França. “Os franceses vivem criticando as injustiças sociais no Brasil e querem exportar vinho para cá sem imposto. Isso mataria os nossos produtores, quase todos pequenos.” Um pouco irritada, ela contou que por isso mesmo, em maio, antes do acordo com a União Europeia, deixou de apoiar a candidata francesa para a presidência da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. “Apoiamos o candidato chinês [Qu Dongyu]. A França vive nos atacando. Não quer comprar nossa soja, não quer comprar nossa carne e depois vem pedir apoio? De jeito nenhum.”
Os embates entre governo e ruralistas, de um lado, e ambientalistas de outro, são antigos. Mas se ampliaram muito no governo Bolsonaro, sobretudo por causa das atitudes do presidente e de Ricardo Salles. Na atual configuração do poder, a área do governo que se mostra disposta a conversar com setores ligados à causa ambiental é, paradoxalmente, o Ministério da Agricultura. “Discordo da maioria das ideias da ministra Tereza Cristina”, me disse Tasso Azevedo, do Observatório do Clima. “Mas reconheço que ela entendeu qual é o papel de um ministro de Estado. Embora seja egressa da bancada ruralista, sabe que, como ministra, não pode apenas ouvir os seus pares.”
Azevedo contesta a tese de que quem desmata na Amazônia é o madeireiro ilegal. “O madeireiro não é o maior desmatador. Ele consegue tirar, no máximo, dez árvores por hectare, porque é uma operação difícil e cara. O que ele consegue fazer é abrir estrada para escoar a madeira.” Um levantamento do Ibama, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, mostrou que o consumo total de madeira em tora por ano é de 10 milhões de m2; a área anual de desmatamento, porém, corresponde a vinte vezes este número. “Colocar a culpa pelo desmatamento no madeireiro é desconhecer o que está acontecendo no país”, afirmou Azevedo.
A principal causa de desmatamento, segundo ele, é a ocupação ilegal de terras públicas. A prática consiste em desmatar uma extensa área pertencente ao Estado e titulá-la irregularmente, processo conhecido como grilagem. Depois disso, a terra é vendida para algum produtor rural, em geral pecuarista. “O grileiro queima a floresta, desmata, vende a terra para o produtor, que, por sua vez, se exime de culpa dizendo que já a comprou assim”, disse Azevedo. No fim das contas, é o produtor que acaba se beneficiando do trabalho sujo do grileiro.
Dados da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, indicam que 63% da área desmatada na Amazônia entre 1988 e 2014 viraram pasto de baixa produtividade, com menos de um boi por hectare, enquanto outros 23% se transformaram em áreas degradadas e abandonadas. “Por que raios estamos desmatando, se 86% dessa área são de baixa produtividade? Qual o sentido de desmatar para colocar meia cabeça de boi ou abandonar a terra?”, questionou Azevedo.
Ele também chamou a atenção para o corte de árvores no Cerrado. Em 2018, enquanto na Amazônia o desmatamento foi de 7,5 mil km2, no Cerrado chegou a 6.657 km2, segundo o Inpe. “A maior parte é ilegal”, comentou Azevedo.
Pelas lentes de Tereza Cristina, a situação é completamente diferente da que descrevem os ambientalistas. Ela dá razão a Ricardo Salles quando este tenta colocar um freio na fiscalização do Ibama. “Os fiscais muitas vezes exageram, impõem multas estapafúrdias e adotam medidas drásticas contra os produtores, sem se preocupar em buscar alternativas para a recuperação de área desmatada”, disse a ministra, que acredita que muitas vezes o produtor precisa de orientação, e não de multa. Ela acrescentou que são frequentes os casos de extorsão e chantagem ao produtor por parte de alguns fiscais, mas não citou nenhum caso a mim.
O Climate Policy Initiative é um grupo de pesquisa sobre políticas climáticas, cujo escritório no Brasil fica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No prédio que abriga a entidade na Gávea, um grupo de pesquisadores tem se ocupado nos últimos anos em pesquisar a evolução da agricultura brasileira e seu impacto no meio ambiente.
O economista Juliano Assunção, diretor-executivo do instituto no Brasil, é autor de um alentado estudo sobre o assunto, intitulado A Economia do Desmatamento no Brasil: O Papel das Políticas e a Modernização da Agricultura. Sua pesquisa ilumina a evolução do setor da década de 1970 até os dias de hoje. Conforme o estudo, 60% do território brasileiro – equivalente a 509 milhões de hectares – é constituído de florestas. A pecuária ocupa 27% (234 milhões de hectares) e a agricultura, 9% (79 milhões de hectares) – os 4% restantes são ocupados por cidades, rios, lagoas e áreas de infraestrutura.
Desde a última década, a agricultura vem se instalando na área antes ocupada pela pecuária. Trata-se de um bom indicador, explicou o economista, pois mostra que a expansão tem ocorrido em regiões de pastagens de baixo uso ou mesmo degradadas, e não mais em florestas. “Esse movimento é resultado do aumento da produtividade do setor, que tem conseguido recuperar o solo destruído pelo pasto e reaproveitá-lo para o plantio.” A ocupação do solo degradado tem se dado principalmente em prol das culturas de soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e papel e celulose – os grandes do agronegócio, voltados para a exportação.
Até mesmo a pecuária tem reduzido a área de pastagem e aumentado a produtividade em terrenos menores. Tome-se, por exemplo, o Sudeste. O período de expansão da área de pastagem na região se deu entre 1970 e 1975, ano em que a pecuária ocupava uma área de aproximadamente 45 milhões de hectares e a produção era de menos de uma cabeça de boi por hectare. Dali em diante, a utilização do solo para pastagem encolheu mais da metade, baixando em 2017 para 25 milhões de hectares, enquanto a produção aumentou para quase 1,5 cabeça de boi por hectare.
Na região Sul, a de maior produtividade no país, a pecuária reduziu a ocupação do solo de 21 milhões de hectares, em 1970, para cerca de 18 milhões, em 2017. Apesar disso, a produtividade subiu de uma cabeça de boi por hectare para mais de 1,5. O mesmo fenômeno se repetiu no Nordeste e no Cerrado, que também registraram redução da área de pastagem e aumento de produtividade. Apenas a região Norte teve aumento, no mesmo período, de uso de solo, passando de 10 milhões de hectares para 30 milhões, principalmente por causa da expansão na Amazônia. Ainda assim, a produtividade passou de menos de uma cabeça de boi por hectare para pouco mais de uma.
Segundo Assunção, a agricultura também tem obtido ganhos de produtividade, mas ocupando mais território. Na região Sul, em 1970, a soja ocupava uma área de 2 milhões de hectares, e a produtividade era de 0,7 tonelada por hectare. Em 2017, o plantio passou a ocupar uma área de 10 milhões de hectares, mas a produtividade aumentou para 3,5 toneladas por hectare. No Centro-Oeste, a ocupação do solo para plantação de soja era de menos de 1 milhão de hectares no começo dos anos 1970 e subiu para 14 milhões de hectares – a produtividade alcança hoje 3,4 toneladas por hectare.
Essa evolução no aproveitamento do solo permitiu que o Brasil atingisse, antecipadamente, algumas metas estipuladas pelo Acordo de Paris – como a de integração de 12 milhões de hectares de lavoura, pasto e floresta até 2035. Mas a integração já atinge 17 milhões de hectares no país.
O fenômeno do aumento de plantio com redução de área, diz Assunção, ocorre em todo o planeta. “O mundo está produzindo alimentos numa área total menor, mostrando que é possível trabalhar nos terrenos existentes sem avançar sobre a natureza.” Estudos demonstram que, quando as taxas de desmatamento começaram a cair, a partir de 2004, isso não trouxe qualquer impacto sobre a produção, que continuou a aumentar sistematicamente. “Portanto, não há razão para se desmatar”, observou Assunção. A despeito disso, a expansão da fronteira agrícola é defendida por integrantes do governo federal, por ruralistas e parte dos governadores da região Norte.
O fato é que a taxa do desmatamento voltou a subir depois de um longo período de queda, ainda que esteja substancialmente abaixo do número registrado em 2004, quando quase 28 mil km2 de florestas – área equivalente à do estado de Alagoas – foram abaixo. A partir de então, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva iniciou um bem-sucedido processo de combate à destruição. Foram tomadas medidas repressivas e criadas linhas de crédito mais barato para quem não desmatasse. Satélites que desde 1989 detectavam o desmatamento em áreas públicas foram essenciais para a melhoria da fiscalização.
O resultado dessas políticas foi que, em 2012, a taxa anual de desmatamento desabou para 4,5 mil km2. Nos anos seguintes, contudo, tornou a aumentar. Chegou a 7,5 mil km2 em 2018 e, neste ano, deve crescer ainda mais, como apontam diferentes sistemas de monitoramento por satélite – há quem aposte que vá alcançar 10 mil km2. “Se a alta se confirmar, é difícil não vê-la como consequência do desmonte na governança do combate ao desmatamento feito pelo ministro Ricardo Salles”, concluiu Assunção.
Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias tem 65 anos, é uma mulher miúda, de 1,56 metro de altura, olhos negros e pele clara. Nasceu em Campo Grande, antes da divisão do estado de Mato Grosso (ocorrida em 1977), em uma família de proprietários rurais e políticos. Seu avô, médico de formação, foi duas vezes senador e outras duas, governador do estado. Também seu bisavô governou Mato Grosso duas vezes. Ela costuma dizer que na sua família tem “bastante sangue político” e não esconde o orgulho de ser tataraneta de Quintino Bocaiuva, importante advogado e político, primeiro-ministro das Relações Exteriores e da Agricultura da República. É deles que Tereza Cristina acredita ter herdado a vocação para a vida pública, uma vez que nem o pai, Fernando Augusto, engenheiro agrônomo, nem a mãe, Maria Manuelita, se interessaram pela política – como também não se interessam seus dois irmãos, mais novos que ela.
Até os 5 anos, Tereza Cristina viveu na fazenda de gado da família. Depois, foi para Campo Grande, onde fez os primeiros estudos. Quando jovem, morou um ano e meio em Nova York, na casa de uma tia pelo lado paterno, casada com um diplomata brasileiro. “Meu pai me mandou, para abrir a cabeça”, contou. A casa nova-iorquina dos tios era frequentada por artistas e intelectuais. Lá, ela conheceu o compositor Tom Jobim e a cantora lírica Bidu Sayão. Os tios a estimularam a ouvir jazz e música clássica, dois gêneros que aprecia (quando eu quis saber se gostava de música sertaneja, ela abriu um sorriso, e desconversou: “Não seria elegante com o meu setor opinar sinceramente sobre isso”).
De volta ao Brasil, cursou o antigo científico (atual ensino médio) em Brasília. Depois, fez vestibular para engenharia agronômica na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, por insistência do pai. Ele havia cursado agronomia na mesma escola e achava que a filha precisava ir para lá aprender “mineiridades”, um eufemismo para “saber ser política no trato”.
No último ano de faculdade, conheceu o marido, o economista Caio Dias, com quem continua casada e teve um casal de filhos. Atualmente aposentado, Dias foi administrador dos bens do piloto Nelson Piquet. O filho do casal, ligado às artes plásticas, mora em São Paulo; a filha, advogada, mora com o marido e o filho em Nova York. No seu celular, Tereza Cristina mostrou-me a foto do neto – um menino de 3 anos, louro e de olhos azuis. “Ele é lindo, não? Converso com ele quase todo dia por Skype. Esse é o meu maior hobby.”
Apesar de pequena, a ministra se locomove com agilidade, obrigando seus assessores a apertar o passo para acompanhá-la. Mas ela nem sempre foi tão lépida. Para se livrar de uma obesidade mórbida, fez na juventude uma cirurgia bariátrica. Perdeu 30 quilos. E o tratamento teve um custo: desde então, precisa tomar mensalmente injeções de ferro. Como passa a maior parte do tempo em viagens internacionais, acaba se esquecendo do remédio e sofre de quedas de pressão. Para manter-se disposta, também toma, diariamente, guaraná em pó.
Depois de formada, Tereza Cristina trabalhou em empresas do setor pecuário e alimentício, em São Paulo. Foi uma das responsáveis pela introdução da raça “brangus” no país, na década de 1980.
Em 1998, voltou para Campo Grande e passou a atuar na Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul. Foi chamada para trabalhar com o governador André Puccinelli, do PMDB (hoje envolvido em denúncias de corrupção), eleito em 2006 e reeleito em 2010. A pasta que ela comandava reunia Agricultura, Indústria e Comércio e Turismo.
Tereza Cristina deixou o governo de Mato Grosso do Sul para concorrer à Câmara dos Deputados em 2014. Ganhou a eleição e, no Legislativo federal, tornou-se presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) – apelidada pelos adversários de “bancada do boi”. “Ela sempre foi muito cooperativa”, disse Izabella Teixeira a respeito de Tereza Cristina. “Ao contrário de muitos de seus pares e também de parte dos ambientalistas, ela não estava ali para confrontar. Queria realmente negociar. Claro que defendia os interesses do agronegócio, mas a discussão com ela foi sempre civilizada.”
Filiada ao PSDB desde 2007, Tereza Cristina mudou-se em 2013 para o PSB, partido do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pré-candidato à Presidência. A ministra se emocionou ao falar dele. Ela foi uma das primeiras pessoas a tomar conhecimento da morte de Campos, no dia 13 de agosto de 2014, em um acidente aéreo. Na véspera recebera uma ligação dele, dizendo que precisavam muito conversar. Tereza Cristina viajou de Campo Grande até Santos de carro, durante a noite toda, para encontrá-lo. “O tempo estava muito feio quando cheguei”, recordou. “Eu estava no aeroporto, numa sala, ao lado de uma militar da Aeronáutica, aguardando a chegada de Eduardo. Vi quando o avião dele tentou pousar e arremeteu. Naquele momento, levantei e fui buscar um café. Na volta, ouvi a militar falando ao celular, com cara de espanto: ‘Caiu?!’” A ministra fez uma pausa, respirou fundo e continuou. “Nunca soube o que ele queria falar comigo. Foi tudo muito triste. Ele era uma pessoa espetacular.”
Tereza Cristina deixou o PSB em 2017, durante o governo de Michel Temer, a pedido do comando da legenda. Ela havia votado a favor da reforma trabalhista – à qual o partido se opunha. Seguiu para o DEM, acompanhada por outros deputados que também votaram a favor da reforma. No novo partido, estreitou os laços com o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de quem se tornou amiga.
No ano passado a piauí revelou que corriam na Justiça cinco ações contra Tereza Cristina e seus irmãos por dívidas de 9,8 milhões de reais com bancos e fundos de investimento. Duas das ações eram movidas pela holding jbs, no valor total de 4,5 milhões de reais. Na época, a então deputada disse à revista que os empréstimos e financiamentos foram contraídos por sua mãe, em nome das empresas da família. E que, em razão de um desentendimento entre os herdeiros depois da morte da matriarca, as obrigações com os credores deixaram de ser pagas. “Não tem calote nenhum. O patrimônio é maior do que a dívida. Tudo vai ser pago”, disse ela.
Em agosto último, a Folha de S.Paulo noticiou que um produtor rural de Mato Grosso do Sul, Rodolfo Paulo Schlatter, iria quitar 9 milhões de reais da dívida, em troca de 500 hectares da propriedade rural da família da ministra, em Terenos (MS). O advogado da ministra, Dorvil Vilela Neto, me explicou que quatro das ações já foram arquivadas pela Justiça após as dívidas terem sido pagas. Resta a ação movida pelo Banco do Brasil, também referente a uma dívida do espólio de sua mãe, que ainda não chegou ao escritório.
Desde que assumiu o Ministério da Agricultura, em janeiro, Tereza Cristina não para de viajar. A primeira vez que a encontrei, em maio último, ela havia acabado de retornar da Ásia, onde passara catorze dias visitando China, Japão, Vietnã e Indonésia. Ela prefere viajar sempre na classe econômica, apesar da insistência dos assessores para que aceite um upgrade para a classe executiva.
No dia seguinte à sua chegada, ela foi pela manhã conversar com os deputados da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara. Falou por mais de três horas e procurou responder todas as perguntas – sobre crédito rural para os pequenos produtores, comércio exterior, titulação de terra, além do tema mais sensível naquele momento, a liberação de quase uma centena de agrotóxicos pelo governo para utilização nas lavouras.
O tom amistoso da sessão passou a todos a sensação de que a civilidade voltara ao Congresso, dias depois de ruidosos bate-bocas dos ministros da Educação e da Economia com os parlamentares. Ao final, Tereza Cristina foi aplaudida e abraçada por alguns colegas. Quando lhe perguntei se seu desempenho era resultado da mineiridade que aprendera em Viçosa, ela riu. “Política é diálogo. É para isso que existe a política. Para que as pessoas conversem, ouçam umas às outras com respeito e tentem chegar a um acordo que seja o melhor para todos.”
Almoçamos numa pequena sala contígua ao gabinete da ministra. Ela me exibiu o dedo enfaixado, que quebrara ao fechar uma porta num quarto de hotel, na Ásia. Quando o garçom serviu o picadinho de carne – com ovo, arroz, feijão e farofa –, celebrou: “Saudade dessa comida.” Falou com entusiasmo da viagem. “Nossas parcerias com a Ásia só tendem a aumentar.” Interrompeu o relato e chamou a secretária para pedir que ela mandasse cartas de agradecimento aos embaixadores brasileiros dos países por onde passou. “Hoje estou morta”, reclamou.
A viagem foi ofuscada pelas notícias que circularam naqueles dias sobre o aumento do uso de agrotóxico nas lavouras. A imprensa repercutiu a informação de que, no intuito de favorecer os ruralistas, desde o início do ano mais de cem marcas de agrotóxicos haviam sido liberadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), do Ministério da Saúde, e pelos ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura.
Nas redes sociais lia-se que os brasileiros estavam sendo envenenados. O glifosato era apontado como o grande vilão, um causador de câncer e outras doenças. Enquanto a ministra abocanhava uma fatia de tomate, perguntei se ela não tinha medo da contaminação por agrotóxicos. “Esse é um assunto altamente técnico”, disse, calmamente. “Como vamos garantir alimento para a população? Como vamos garantir aumento de produção reduzindo desmatamento, como estamos fazendo, sem usar esses produtos para proteger as lavouras?”, perguntou. Para ela, o Brasil sempre vai aparecer nas estatísticas usando mais agrotóxico que a Europa. “Nosso território é muito maior e estamos muito mais sujeitos a pragas por sermos um país tropical, além de fazermos duas colheitas por ano”, argumentou. “Nenhum desses produtos envenena a população porque são usados de acordo com normas de segurança alimentar.”
Ela disse que os produtos colocados no mercado não eram moléculas novas, e sim as de uso já autorizado – na verdade, sete das substâncias autorizadas este ano são, sim, moléculas novas. “É como se estivéssemos colocando remédios genéricos. É o mesmo produto, só que com marca diferente. Isso aumenta a concorrência e reduz muito o preço para o agricultor.” Na visão da ministra, alguns parlamentares se aproveitaram do tema dos agrotóxicos. “Eles iam para a Comissão de Meio Ambiente dizer que nós queríamos envenenar a população, que eu sou ruralista. Eu digo que é remédio, e eles debocham.”
Depois, ela acusou o Ministério da Saúde dos governos do PT de não liberar os agrotóxicos por questões ideológicas, por se opor ao setor rural. “Os produtores ficavam anos esperando pela liberação de produtos, inclusive mais modernos e menos tóxicos, e isso nunca ocorria. Prejudicava tanto os grandes quanto os pequenos. Misturar política com esse negócio não dá certo.”
Entre garfadas de arroz com picadinho, Tereza Cristina defendeu o glifosato, produto usado no pré-plantio para matar pragas e capim. “Essa é uma conversa de maluco que a população não entende”, disse. “É mentira que o glifosato foi banido na Europa. Não foi banido em lugar nenhum do mundo.” E endureceu as palavras. “Infelizmente, é um monte de gente ignorante e mal-intencionada tuitando. Qual é a solução? Como o Brasil vai manter os 80 milhões de hectares que planta sem desmatar dispensando o uso do glifosato, que aumenta a produtividade do solo? Se me derem uma solução, aceito. Agora, dizer que tem que usar produto orgânico no lugar do glifosato é desconhecer completamente como a agricultura funciona.” Sem se deixar interromper, falou que “a Organização Mundial de Saúde não baniu esse produto, mas vem o Greenpeace e a Fiocruz, pegam o caso de uma pessoa que morreu nos Estados Unidos ao aplicar o produto erradamente e fazem este carnaval. Assim fica difícil debater.”
O caso de maior repercussão mundial, de maio deste ano, diz respeito na verdade a um casal de norte-americanos que processou a Bayer. Ambos desenvolveram câncer depois de ter usado em sua propriedade um pesticida à base de glifosato por mais de três décadas. No ano passado, a ministra presidiu a comissão especial que tratou da nova legislação dos pesticidas, o projeto de lei nº 6299/02, chamado pelos detratores de “PL do veneno”. A tarefa lhe rendeu a alcunha de “musa do veneno”. Perguntei como se sentiu ao saber do apelido. “No começo fiquei chateada”, ela respondeu. “Afinal, sou mãe, sou avó, e é muito ruim ser acusada de querer envenenar a população. Mas tenho a consciência tranquila.”
O Greenpeace é uma das mais ativas ONGs de fiscalização do uso dos agrotóxicos no Brasil. Responsável pela área na entidade, Marina Lacôrte está convencida de que o país abusa do veneno na agricultura, diferentemente do que diz a ministra. Durante uma conversa no escritório de Lacôrte em Brasília, ela comparou o comportamento da indústria de agrotóxicos à de cigarros em décadas passadas. “A indústria de agrotóxicos e os ruralistas fazem o mesmo que a indústria do tabaco fez por anos, que foi negar os perigos do cigarro”, disse. “Aliás, é uma negação de tudo. Negam a nocividade dos pesticidas, a mudança climática, o desmatamento. Isso é perverso. Porque a sociedade não quer nada disso e não tem escolha.”
Lacôrte também acusou os produtores e a indústria de fazerem pressão sobre a Anvisa para liberar os produtos. “Muitos pesticidas banidos nos Estados Unidos e na Europa são autorizados aqui”, afirmou, frisando a seguir que “o Brasil é hoje o país que mais consome agrotóxicos no mundo”.
Rodrigo Fracalossi de Moraes, do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, é pesquisador especializado em relações internacionais e regulações. Ele acabou de concluir um estudo sobre a regulação de pesticidas e chegou a resultados importantes, que esclarecem a questão.
O estudo ressalta que, no Brasil, a quantidade de pesticida por área cultivada é inferior a que é usada nos demais países do Mercosul, na China, no Japão e na Itália. Fracalossi atesta que os limites máximos de resíduos de pesticidas em alimentos brasileiros, como o milho, por exemplo, estão dentro dos padrões dos órgãos de segurança alimentar internacionais e são semelhantes aos verificados nos países desenvolvidos. No caso do glifosato, os níveis no Brasil estão no mesmo patamar da Europa e do Japão, e são inferiores aos dos Estados Unidos.
Entretanto, o estudo indica que, desde 1990, o Brasil vem ampliando o uso de agrotóxicos, não apenas a quantidade total, como a quantidade por habitante. E esse aumento está na contramão da tendência observada na maior parte dos países desenvolvidos, de redução do uso. Os produtos de maior periculosidade, aliás, estão sendo cada vez mais usados no país.
O pesquisador aponta que o principal problema no debate a respeito dos agrotóxicos é o desequilíbrio entre os grupos de pressão: os fabricantes têm muito mais influência sobre o governo e o Congresso do que as entidades de consumidores e ambientalistas. Fracalossi me disse, durante uma conversa no Ipea, no Centro do Rio, que o mais preocupante hoje é a ausência de interlocução entre os movimentos sociais e o governo. “Os movimentos sociais foram completamente excluídos do debate. Sem a pressão deles, a sociedade é menos alertada a respeito dos riscos que está correndo.”
No dia 31 de maio, Tereza Cristina embarcou num jatinho da Força Aérea Brasileira para participar da Bahia Farm Show, uma feira agropecuária no município de Luís Eduardo Magalhães, com cerca de 87 mil habitantes. Dois dias antes, tinha ocorrido um grande embate no Congresso – a bancada ruralista da Câmara aprovara mudanças no Código Florestal, votado em 2012, redefinindo as datas para que os produtores recuperassem as áreas desmatadas em seus domínios.
Ambientalistas reagiram imediatamente. A mudança feria o Código e abria a brecha para que as próprias áreas de reserva legal fossem redefinidas. A ministra evitou criticar frontalmente seus pares de bancada, mas disse que achava “desnecessária” a alteração. Acrescentou que, se estivesse no Parlamento, atuaria para manter o Código como está. “Para que mudar se tudo funciona bem?”, perguntou. Considerado um marco tanto por militantes do meio ambiente quanto pelos produtores do agronegócio, o Código Florestal obriga os produtores rurais a mapear suas propriedades e identificar as áreas que não poderiam ser desmatadas. Essas informações estão sendo reunidas no CAR, o Cadastro Ambiental Rural, ao qual os produtores vêm aderindo nos últimos anos. O cadastro é a base para a criação das reservas legais.
Tereza Cristina está em sintonia com o que pensam alguns dos grandes produtores voltados para a exportação. “Vai mudar para quê? Para denegrir nossa imagem lá fora?”, me disse Eduardo Bastos, diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau, numa conversa por telefone. Segundo ele, 98% dos produtores rurais já estão alinhados com o Cadastro Ambiental Rural, e não têm interesse na mudança do Código. “Por que atender ao interesse dos 2% que ainda não se deram conta de que os tempos são outros?”
Bastos contou que, naquele mesmo dia em que conversávamos, um grupo do agronegócio iria a Brasília para pedir ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que engavetasse a proposta da Câmara. E foi o que aconteceu.
Em Luís Eduardo Magalhães, Tereza Cristina foi saudada pelos produtores ao chegar ao parque de exposições, cheio de tratores, máquinas, caminhões e estandes de produtos agrícolas. “Até hoje, [a senhora] foi o único ministro da Agricultura que veio aqui nos prestigiar”, disse um dos porta-vozes dos produtores. “Há vinte anos essa região era só um posto de gasolina. Agora vejam no que se transformou”, afirmou outro produtor no palco montado no centro do parque. “Foi o agronegócio, foram os produtores de todo o país, inclusive os muitos pequenos, que tiveram a coragem de desbravar esse lugar e fazer essa transformação”, ele completou.
A ministra, única mulher com destaque no palco, parecia à vontade entre os produtores. No final de seu discurso, ela pediu que apoiassem o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que estaria fazendo – conforme disse – “um ótimo trabalho”.
Ao final do evento, perguntei a Tereza Cristina por que defendera o colega. “Ele está contrariando interesses de muitos grupos. O que estamos vendo é que ia muito dinheiro do governo para consultorias de ONGs, e esse dinheiro nunca chegava ao pequeno produtor. Achei muito bom ele diminuir a quantidade de gente nesses conselhos civis. Imagine se é possível sair alguma decisão quando mais de cem pessoas participam?” Ela se referia ao corte de 77% dos participantes do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o Conama, que passou de 100 membros – entre eles, ONGs e entidades públicas – para 23. A representação da sociedade civil foi diminuída de 22 assentos para 4.
A bancada ruralista do Congresso se formou em 1988, na época da Constituinte, para defender os interesses dos produtores durante a redação da nova Carta. Três anos antes, uma entidade fora criada, a União Democrática Ruralista, comandada por Ronaldo Caiado, que mais tarde seria eleito senador por Goiás e hoje é governador do estado. Naquele tempo, o setor era mais homogêneo. Hoje, a realidade é outra: com a modernização do agronegócio, responsável pela maior parte das exportações brasileiras, o grupo rachou.
De um lado, estão os que defendem que, para o Brasil conservar a liderança mundial na exportação de alimentos, é preciso aumentar a produtividade por meio do uso intensivo de tecnologia, fazer uso controlado de pesticidas e seguir as exigências internacionais de não desmatar, não promover trabalho escravo e não invadir terras do Estado. De outro, estão os que insistem em fazer tudo ao contrário: apostam numa agricultura que exaure a terra (posteriormente abandonada em favor de outra lavra), na exploração da mão de obra e na violência contra posseiros, entre outros recursos praticados no Brasil há muitos séculos.
Principal liderança do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola, o Imaflora, uma organização não governamental, Luís Fernando Guedes Pinto também divide o setor em dois grupos: o agroprodutor e o especulador. Ou seja, o que quer produzir e ganhar mercado com o resultado do trabalho, e o que pretende apenas especular com a terra. “Temos um setor moderno convivendo simultaneamente com um arcaico. Existe o setor que quer logística, que quer crédito, que quer infraestrutura. E outro, que está lutando para acabar com as terras indígenas, com as unidades de conservação.” Outra contradição do setor, ele diz, está na excessiva atenção dada pelo Ministério da Agricultura aos grandes produtores e a pouca assistência que dispensa aos pequenos.
Guedes Pinto acredita que Tereza Cristina está alinhada com o grupo que quer a modernidade. Mas ele tem dúvidas de que essa ala consiga se impor à turma do atraso. Ainda mais porque a ministra atua em um governo que obteve o apoio do campo ao defender a liberação da posse e do porte de armas para os produtores, restringir o trabalho de ambientalistas, esvaziar os mecanismos de controle e fiscalização ambiental do Estado e prometer vantagens fiscais para os ruralistas que devem impostos.
Mesmo reconhecendo avanços na mentalidade do agronegócio, Guedes Pinto critica a omissão de sua ala mais moderna e da própria ministra em relação a certas escolhas de Bolsonaro. “Se eles estão tão preocupados em mostrar para a comunidade internacional e para a sociedade que são diferentes, deveriam vocalizar sua insatisfação, deixando bem claro que qualquer retrocesso é inaceitável”, disse, referindo-se aos ataques do presidente às comunidades indígenas, aos institutos de pesquisa ambientais e aos movimentos ligados à preservação. “Por que não vieram a público fazer um escarcéu quando a turma do atraso quis mudar o Código Florestal?”, questionou. “Eles nunca se atacam. Afinal, essa turma tem o mesmo DNA.”
A sede da Sociedade Rural Brasileira (SRB) fica num prédio imponente no Centro de São Paulo. O local, com paredes recobertas por madeira escura, pesados lustres antigos e mobiliário suntuoso, remete ao início do século XX, quando os produtores de café de São Paulo mandavam no Brasil. Atualmente, a entidade representa os setores mais avançados do agronegócio em relação à questão ambiental – café, cana-de-açúcar, papel e celulose, os mesmos cultivos que, no passado, levaram à devastação da Mata Atlântica.
Durante uma conversa na sede da SRB, em meados de maio, o presidente da entidade e produtor de café Marcelo Vieira disse estar satisfeito com o governo Bolsonaro. “Quero que o Brasil dê certo. O fundamental agora é o crescimento econômico”, afirmou. Ele acredita que o governo está indo no caminho certo ao trabalhar na redução do custo Brasil, na desregulamentação e no ataque aos privilégios, que começarão a desaparecer, na sua avaliação, com a reforma da Previdência. Incomoda-se, porém, com a agressividade dos integrantes do governo nas redes sociais. “Os menos preparados estão cada vez mais barulhentos”, observou.
Comentei com ele sobre as críticas de Guedes Pinto, do Imaflora, à omissão dos grandes do setor agropecuário a respeito de orientações retrógradas do governo, como depreciar as questões ambientais e armar os produtores. “Nós já dissemos que somos contra o produtor se armar. Queremos uma política pública de segurança para o campo como existe na cidade. Também somos a favor de uma agricultura sustentável. Deixamos isso claro várias vezes. Assim como a ministra Tereza Cristina. Só não ouve quem não quer”, respondeu, visivelmente incomodado.
Tereza Cristina foi indicada para o cargo de ministra pela Frente Parlamentar da Agropecuária logo após a vitória de Bolsonaro no segundo turno. Como deputada pelo DEM, ela apoiava a campanha do tucano Geraldo Alckmin, do PSDB, aliado do seu partido. Em meados de agosto de 2018, ficou claro para os ruralistas que somente Bolsonaro teria chances de derrotar Fernando Haddad, o candidato do PT. Em 2 de outubro, os mais de 250 nomes ligados à FPA declararam seu apoio oficial ao presidenciável do PSL. “A bancada do agro começou a ser pressionada pelos seus eleitores a se posicionar a favor de Bolsonaro. Tivemos que ouvir as nossas bases”, justificou Tereza Cristina, no voo de volta de Luís Eduardo Magalhães para Campo Grande, onde teria um compromisso com ruralistas na manhã seguinte.
A ministra me disse ter uma relação formal com o presidente. Mas amigos próximos dela contaram que Tereza Cristina o chama simplesmente de Jair. Falam-se diariamente, e Bolsonaro, segundo ela, tem sido muito cooperativo. Um exemplo: quando o Ministério da Agricultura foi contra a saída do Brasil do Acordo de Paris, ele aceitou as ponderações da ministra. “Quer saber?”, disse ela. “O presidente é até suave no trato” – e gargalhou. No final de julho, após uma cerimônia no Palácio do Planalto para assinatura de um convênio com a Agricultura, Bolsonaro fez um coração com as mãos para ela.
Por causa da boa relação, ela foi responsável pela aproximação de Bolsonaro com o deputado Rodrigo Maia. “O Rodrigo me contou que nunca tinha estado a sós com o presidente e achei aquilo muito ruim. Pedi a Bolsonaro que o recebesse, e ele foi muito receptivo. Quando chegamos ao Palácio da Alvorada, o presidente pediu que eu ficasse”, rememorou. A conversa, segundo ela, foi descontraída e, ao final, Bolsonaro fez até algumas confidências. “Disse que o Alvorada era tão grande que tinha medo de não conseguir chegar ao banheiro a tempo caso precisasse urinar durante a noite”, lembrou, sorrindo. Bolsonaro também confessou que era muito mais fácil e agradável a vida que levava antes, quando tinha tempo de tomar caipirinha de frente para o mar, na Barra da Tijuca, onde fica sua casa no Rio de Janeiro.
Foi justamente no momento da escolha do ministro para a Agricultura que os conflitos do setor agropecuário vieram à tona. Nabhan Garcia, amigo de longa data de Bolsonaro, almejava o posto. Então presidente da União Democrática Ruralista, era apoiado pela turma do agro favorável à mudança no Código Florestal e à flexibilização da posse de arma no campo, entre outras pautas reacionárias. Ao insistir em sua própria indicação, Garcia bateu de frente com o setor exportador. Durante uma semana houve uma queda de braço. O nome de Tereza Cristina acabou se impondo.
Garcia, porém, garantiu para si um cargo importante no ministério: o de secretário especial de Assuntos Fundiários, que tem sob seu guarda-chuva o Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, responsável pela concessão e regularização das propriedades rurais. Foi posto no cargo a contragosto da ministra.
Sentindo-se muito seguro de sua proximidade com Bolsonaro, o próprio Garcia comunicou sua nomeação para a equipe de Tereza Cristina, em novembro do ano passado. “Foi um mal-estar geral”, me contou uma das pessoas que presenciou a cena no Centro Cultural do Banco do Brasil, onde se reuniam as equipes de transição em Brasília. No começo do mandato, Nabhan Garcia chegou a mandar fazer um cartão de visitas que o apresentava como “vice-ministro”, cargo inexistente. Com o tempo, seus esforços para influir no ministério arrefeceram. Embora o Incra esteja sob o comando dele, foi Tereza Cristina quem indicou o presidente da autarquia, o general João Carlos de Jesus Corrêa, com quem ela é bastante afinada.
Desde que assumiu o posto, Jesus Corrêa tem evitado se manifestar sobre o que ocorre na sua área. Em julho, ele me disse, no prédio do Incra em Brasília, que encontrou o órgão muito desorganizado. “Havia propriedades que eram de vários donos.” Segundo ele, na maioria dos assentamentos de reforma agrária não havia titulação definitiva de posse – o que ele credita à política “populista” de certas lideranças, que almejavam manter os assentados sob seu jugo. “Estamos fazendo todo o levantamento. Vamos dar título definitivo para os verdadeiros donos”, contou. Ele afirmou também que muitos lotes eram dados para políticos ou seus apaniguados.
Questionei Tereza Cristina sobre esta dicotomia: ela, alinhada ao agronegócio mais integrado ao mundo, e Nabhan Garcia, à turma das armas e do desmatamento. Ela riu e sacudiu a cabeça, como se negasse as diferenças. “O Nabhan tem suas convicções, mas ele tem se comportado muito bem. Às vezes não concorda com o que pensamos, mas as coisas caminham de maneira normal. Não há embate entre nós”, disse a ministra. Depois, argumentou: “As pessoas pensam que no Brasil não tem lei. Quando o que se tem aqui é excesso de lei. Temos uma Constituição a seguir. E, se não seguirmos, temos o Ministério Público, a CGU [Controladoria-Geral da União], o TCU[Tribunal de Contas da União] e todos os ‘us’ para virem em cima da gente.”
A sua preleção continuou: “Se é para demarcar, vamos demarcar, se é para titular, vamos titular. Temos um Código Florestal que é um avanço e tem que ser respeitado. Temos que usar agrotóxico seguindo os padrões mundiais. É simples assim. Seja eu, seja o Nabhan ou quem mais estiver aqui no ministério, não temos saída. Teremos que cumprir a lei.”
Uma das grandes desconfianças hoje entre ambientalistas, a comunidade científica e parte do agronegócio está justamente na disposição do governo de fazer cumprir a lei, ou de mantê-la inalterada, sem retrocessos. As palavras de Bolsonaro contra as reservas indígenas e a política de esvaziamento dos órgãos ambientais, entre tantas outras coisas, indicam que o discurso legalista da ministra está sendo formulado numa órbita bem diferente daquela em que gravitam o presidente da República e o ministro do Meio Ambiente.
Durante os dias mais tensos da crise provocada pelas queimadas, Tereza Cristina atuou quase o tempo todo como bombeira, equilibrando-se entre a defesa das posições do governo e acenos aos produtores e à comunidade internacional. No dia 26 de agosto, uma segunda-feira, ao participar pela manhã de um encontro na Câmara Árabe-Brasileira, em São Paulo, ela criticou as atitudes de Emmanuel Macron, chamando-as de “oportunistas”, e disse que a imprensa brasileira vinha cometendo “crime de lesa-pátria” ao alardear queimadas que, segundo ela, ocorrem todo ano. Ao mesmo tempo, disse aos presentes que a ajuda financeira oferecida ao país pelo G7 na véspera – e recusada num primeiro momento pelo presidente brasileiro – era muito bem-vinda. “Desde que nós, o Brasil, possamos decidir que iniciativas são importantes para a preservação da Amazônia”, acrescentou, fazendo eco ao discurso da soberania nacional caro aos militares. Ao final, afirmou que, apesar da repercussão negativa para o governo e o agronegócio causada pelas queimadas, ela seguia confiante no acordo com a União Europeia. “É claro que essa crise preocupa, mas chegou a hora de baixarmos a temperatura.”