ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016
A botina amarela
Um museu para Santo Amaro
Paula Scarpin | Edição 114, Março 2016
Quem visita o Museu de Santo Amaro nas tardes de terças e quintas-feiras é recebido pessoalmente pelo curador, um senhor de bengala, terno e gravata. Aos 74 anos, o advogado aposentado Alexandre Moreira Neto gosta de guiar os interessados pela história do bairro da Zona Sul da capital paulista. Não chega a ser um trabalho exaustivo, nem tão frequente assim. Se a plaquinha da entrada – discretíssima – e o portão quase sempre trancado já não bastassem para desencorajar os ocasionais visitantes, a numeração da rua Professor Alceu Maynard de Araújo confunde mesmo os que se deslocam até ali procurando pelo museu.
“Você sabia que Santo Amaro é o único bairro de São Paulo em que os números das casas não partem da Praça da Sé?”, perguntou o curador, enquanto abria o cadeado. Fazia referência ao sistema de numeração – quanto mais distantes do marco zero do município, mais altos são os números. “Aqui a numeração parte do Largo Treze de Maio, o nosso centro.”
Moreira Neto, que escande cuidadosamente to-das as sí-la-bas da fra-se, tem um discurso pontuado pela oposição entre “nós”, os de Santo Amaro, e “eles”, o restante de São Paulo. Bairrista stricto sensu, ele não demora a se declarar “autonomista”, ou seja, militante do retorno da autonomia do bairro de Santo Amaro com relação à capital. O movimento já viu dias melhores, e perdeu por pouco um plebiscito em 1985. “Jogaram sujo”, acusou o curador. Segundo ele, a campanha do “não” apelava para o bolso dos eleitores, alegando que os ônibus para São Paulo – intermunicipais, se vingasse a proposta – passariam a cobrar uma tarifa maior, e que as chamadas telefônicas seriam interurbanas.
Os anseios separatistas ganharam ímpeto novo recentemente, com a crise hídrica em São Paulo. Temendo a barbárie na disputa pela água, grupos que pedem a autonomia do bairro reivindicavam o Sistema de Abastecimento Guarapiranga, segundo maior da cidade, que chegou a desbancar o Cantareira no posto de maior produtor de água da capital paulista no momento mais sensível da estiagem. “São Paulo rouba água da Guarapiranga desde 1929, quando canalizaram para o reservatório da Vila Mariana. Santo Amaro poderia ter autonomia hídrica”, disse o curador, pouco antes de iniciar a visita guiada pela reserva técnica do museu: uma miscelânea de carteiras escolares antigas, um manequim trajando o uniforme de um soldado da Revolução Constitucionalista de 1932 e uma grande variedade de eletrodomésticos. “Meu maior prazer é quando vem alguém aqui e diz: Minha avó tinha uma geladeira igualzinha.”
A Santo Amaro de Moreira Neto não é o bairro de 40 quilômetros quadrados administrado pela subprefeitura com sede no Largo Treze – mas a “Santo Amaro histórica”, um território de 640 quilômetros quadrados que abarcaria 45% da capital paulista, além dos municípios de Itapecerica da Serra, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Taboão da Serra, São Lourenço da Serra e Juquitiba. “O Ipiranga ficava em Santo Amaro. O grito da Independência do Brasil aconteceu no nosso município”, disse, orgulhoso.
A independência da cidade paulista chegou ao fim em 1935, quando foi anexada a São Paulo por determinação de Getúlio Vargas – contam os autonomistas, numa narrativa um pouco confusa, que a ordem seria uma represália à participação de santamarenses na Revolução Constitucionalista, três anos antes.
A turma da Jovem Guarda já entrava na rua Augusta a 120 por hora, do outro lado da cidade, quando Moreira Neto e alguns de seus amigos, num trote cadenciado, começaram a se articular para reinstituir a Santo Amaro histórica. Corriam os anos 60, e certo dia o grupo voltava, a cavalo, de uma romaria para Pirapora do Bom Jesus, quando, conversa vai, conversa vem, tiveram a ideia de criar o Centro das Tradições de Santo Amaro, o Cetrasa. Durante os trinta anos seguintes, continuariam a se reunir periodicamente para saudar as tradições do antigo município, como o carro de boi e a casa de taipa, e a sonhar com um museu do bairro.
O sonho só se concretizaria em 1998, quando o prefeito Celso Pitta sancionou uma lei municipal que determinava a criação de “minimuseus” nos bairros paulistanos. Santo Amaro foi o primeiro – e até agora o único – a cumprir a lei. O maior orgulho do acervo é uma sala totalmente dedicada ao mais ilustre dos santamarenses (na opinião do curador): o artista plástico Júlio Guerra, autor da estátua de Borba Gato. O monumento de 10 metros de altura, todo revestido de pastilhas, foi instalado no canteiro central da avenida Santo Amaro no IV Centenário do bairro, em 1963. Homenageia o famoso bandeirante, nascido naquelas terras no século XVII, descobridor de ouro na região que viria a ser Minas Gerais.
A estátua provoca cizânias desde então. “Esses manifestantes acham que estão inventando a roda”, disse o curador, referindo-se aos defensores dos direitos indígenas, que em novembro de 2015 picharam “bandeirante ruralista assassino” no pé do monumento. “Júlio Guerra tinha a sabedoria de que o nosso povo é fruto do português e do índio; o santamarense é mameluco”, argumentou. Em seguida, apontou para a quase imperceptível representação do povo indígena no museu: uma foto da aldeia guarani de Parelheiros em 1998, e dois chocalhos presos num cantinho da parede.
Moreira Neto precisou dar por encerrada a visita. Era uma terça-feira, dia de reunião do conselho do museu. “Fevereiro não é um mês muito movimentado”, comentou, ao atravessar o auditório vazio. “Ainda falta muito para o nosso maior evento”, lembrou. Referia-se à entrega do troféu Botina Amarela, outorgado há 22 anos, sempre no mês de agosto, a santamarenses ilustres. “Como a gente não é mais município para entregar um título de cidadão, damos uma Botina Amarela”, disse.
O calçado, um símbolo que ilustra bordados e vitrais do museu, representa o homem simples do bairro, segundo o curador. Questionado sobre quem seria merecedor desse tipo de honraria, Moreira Neto não titubeou. “Você, por exemplo, poderia ganhar. Nasceu aqui, está interessada na história do bairro”, disse, e deu uma piscadela, antes de entrar na reunião.
