“Atenção, Abud. Você é o cara mais esperto do Facebook, o xeique dos escritores, mas no aeroporto você é um asno! Não fique zanzando, se liga.” IMAGEM: PEDRO FRANZ_2016_(DEPOIS DE STEINBERG)
A caixa-preta perdida
Em cada aeroporto sou lembrado de quem sou – menos no Brasil
Abud Said | Edição 124, Janeiro 2017
Em aeroportos, sou suspeito até que eu mesmo prove o contrário.
Não conheço o aeroporto de Damasco, claro que não. Nem o Aeroporto Internacional de Aleppo. Tampouco o de Abu Dhabi. Esses são para pessoas finas. Mas gente como eu, que fugiu da Síria, de repente tem todos os aeroportos da Europa à disposição. Viena, Amsterdã, Berlim, Estocolmo e um monte de outros.
É nosso direito natural, do qual faremos uso desde que tenhamos um passaporte de refugiado político. Podemos desfrutar do melhor em matéria de tráfego aéreo: elegância, organização, serviços cinco estrelas e muitas vezes até wi-fi de graça.
A vida é boa, a vida é bela.
Mas a coisa fica feia e complicada quando você chega ao controle de passaportes e o policial pega o seu. Basta que ele o examine com um pouco mais de atenção, mesmo que só por alguns instantes, ou então que manifeste certa suspeição ou folheie o documento diversas vezes, indo e voltando, para que você se lembre de que não inspira muita confiança e que não é igual aos outros. Ainda mais quando o seu nome é “Muhammad Abud Said”. Some-se a isso minha pele morena, da qual minha mãe se orgulhava tanto antigamente.
O primeiro aeroporto em que pus os pés foi o de Istambul, depois de escapar da Síria cruzando por terra a fronteira com a Turquia. Na época, um amigo me disse: “Preste atenção, Abud. Hoje você vai ao aeroporto. É um troço enorme. Sei que você é o cara mais esperto do Facebook, o xeique dos escritores, o maior mestre-ferreiro da zona industrial de Manbij. Tudo muito bem, tudo muito bom, mas no aeroporto você é um asno! Não fique zanzando, vá fazendo perguntas para não se perder.”
De Istambul fui a Berlim para um ciclo de leituras do meu livro, que tinha saído na Alemanha. Já que agora eu era um escritor, era preciso, de alguma maneira, demonstrar isso exteriormente. Resolvi deixar a barba crescer. Não é o que todo escritor faz?
E então eu, um escritor barbudo em Berlim, entregava meus documentos para pedir asilo político. E lá estava eu, também na foto que colaram no passaporte, com minha barba étnica.
Assim, me apoderei de um passaporte com meu nome, minha barba e minha cor de pele. E dali em diante conheci aeroporto atrás de aeroporto. Os destinos e os objetivos variavam, mas meu nome, minha barba, minha cor de pele e a cena no controle de passaportes continuavam os mesmos.
Rodei por quase toda a Europa – isto é, toda parte aonde meu passaporte de refugiado pode me levar. E, em cada aeroporto, sou sempre lembrado de quem sou eu, não escapa um. Menos no Brasil, no Brasil é diferente. Me convidaram para um festival literário, já que um livro meu tinha acabado de sair no país. E é claro que topei, na mesma hora. Quem não gostaria de ir ao Brasil?
Quase todos os brasileiros têm a pele morena, às vezes até mais escura do que a minha. Eles não têm fobia da tez árabe-islâmica. Eu praticamente desapareço na morenice deles. E o horror que os nomes árabes suscitam não cola entre eles.
No Brasil, tudo é possível. O Brasil é como a Síria, só que sem o Bashar al-Assad. No Brasil, uma mulher bonita nem sempre sabe que é bonita e que poderia se dar ao luxo de ser arrogante. E o supermercado no Brasil é mais como uma pequena banca aonde se vai de manhã e se diz: “Bom dia! Dá pra fazer as sementes de girassol por 5 liras?”
Então, fui para o festival e, como sempre, as pessoas queriam falar sobre a guerra, o Estado Islâmico, direitos humanos e assim por diante. Fui curto e grosso: “Não quero falar sobre a guerra e o Estado Islâmico. Vou falar sobre o meu livro e sobre mim mesmo”, eu disse. Alguns jornalistas viram na frase uma boa isca para suas matérias. De certo modo, virei manchete negativa.
Depois de dois ou três dias o festival acabou – deu tudo certo, sem maiores consequências. E depois da festa continuei um tempinho no país, bebendo cachaça de bar em bar e conhecendo os nativos. Dá para descrevê-los numa única frase: “Os brasileiros não são estrangeiros!”
Um povo abençoado com caos e beleza. Mesmo. Quando eu ia embarcar do Rio de Janeiro para São Paulo, resolvi fumar na entrada do aeroporto. Minha namorada estava com nossos passaportes, na fila do check-in. Quando chegou a sua vez, ela os mostrou à funcionária, que perguntou onde estava o titular do outro passaporte. Ela apontou para mim na entrada e falou: “Ele está lá fora, fumando.” “Tudo bem”, disse a moça, e entregou os cartões de embarque. Simples assim.
Terminei de fumar e enfiei a bituca do cigarro numa garrafa de cerveja que estava no chão. Entrei e fui procurar meu avião. De repente um funcionário de pele morena me parou, pedindo documento e cartão de embarque. E aí falou umas coisas incompreensíveis (para mim, que não entendo português). “Será que agora até eles aderiram à histeria do controle?”, pensei.
Mas os brasileiros não me desapontaram. O homem me entregou uma multa por ter enfiado o cigarro na garrafa e não no cinzeiro apropriado. Sim, claro, não faça cerimônia, senhor! Prefiro mil multas a um único olhar enviesado no controle de passaportes.
O sujeito anotou o delito num caderninho. A caneta não pegava bem. O caderno parecia pertencer a algum aluno desmazelado da 1ª ou 2ª série do primário, com as bordas amassadas e gastas. E ele ainda copiou meu nome errado. Usava óculos de lentes bem grossas, provavelmente não enxergava direito.
Foi isso que me aconteceu num aeroporto brasileiro. Sensacional. Assinei o protocolo da multa e logo avistei uma funcionária incrivelmente linda. Quis tirar rapidinho uma selfie com ela, e ela topou. Então me dirigi ao portão de embarque.
Enquanto esperava, do lado de dentro do portão, examinava o avião, do lado de fora. Notei que a tinta do nariz dele estava descascando. Nosso avião não me parecia muito nos conformes, havia vestígios de ferrugem aqui e ali. Numa das janelas da cabine de comando, vislumbrei a cabeça do piloto. A cara dele estava amassada. “Deus do céu, esse cara com certeza acabou de acordar e agora vai assumir o comando da aeronave… Bem, parece que tudo é possível no Brasil.”
Então imaginei que logo, logo cairíamos sobre o Atlântico, por algum motivo totalmente idiota, como por exemplo um cochilo do comandante. E quem vai convencer a CNN, a BBC ou mesmo a Al Jazeera de que realmente o sujeito cochilou? A primeira teoria sobre a queda com certeza vai ser: TERRORISMO. Ainda mais se não acharem a caixa-preta logo de cara.
Não vão achar. Vai demorar muito até que ela seja encontrada. E até lá vão passar um pente-fino na lista de passageiros, conferindo sobretudo as procedências. De repente, lembro da minha barba na foto de passaporte. E do meu nome: Muhammad Abud Said. O único sírio entre os passageiros daquele voo.
Como qualquer escritor, sempre sonhei em sair na mídia. E agora chegara o momento, todos falariam de mim. Meu nome ressoaria em todos os programas de rádio e tevê, em todas as revistas. Enquanto a caixa-preta não fosse encontrada, os meios de comunicação alimentariam a suspeita de terrorismo. No mínimo assim: “No avião brasileiro que caiu havia passageiros de diversas nacionalidades, entre os quais o sírio Muhammad Abud Said.”
Imagino as emissoras de tevê ligando para os mais renomados professores universitários na área de aeronáutica e lhes perguntando sobre quedas de avião. E, com os comentaristas de política internacional, discutiriam o quesito nacionalidade. Uma suspeita absolutamente normal e legítima!
Os jornalistas que cobriram a festa literária, lembrando como eu me negara a falar sobre a guerra, o Estado Islâmico e direitos humanos, vão retomar o assunto – afinal de contas, eles foram os primeiros a desconfiar de alguma coisa. Certamente vão associar a queda do avião às entrevistas que dei ao longo do festival.
O funcionário de óculos grossos que me multou vai se sentir especial quando me reconhecer na tevê, a bela funcionária com quem tirei uma selfie ficará tremendamente abalada.
A editora brasileira do meu livro vai viver seu apogeu. Milhares de exemplares serão vendidos, a edição vai esgotar (só enquanto a caixa-preta não aparecer).
Imagino o escarcéu no Facebook. Meus contatos, amigos e intelectuais não deixam passar batido nenhuma festa, nenhuma vítima de acidente de carro num vilarejo belga qualquer, nenhuma manifestação ou ameaça de insurgência em algum país remoto. E agora têm um sírio suspeito de terrorismo no Brasil entre os contatos deles. E, não bastasse, o avião caiu entre cidades que legitimam o nível cultural do acontecimento (e, de carona, o deles): Rio de Janeiro! São Paulo!… E assim por diante.
Escritores renomados falarão de mim, seguindo o script já decorado sobre a política do Islã e o terror.
Todos buscarão minha timeline e farão screenshots dos meus posts, e então vão rir das ingenuidades dos meus comentários sobre religião, e depois tentarão associá-las à queda do avião.
Imagino um amigo intelectual digitando o seguinte post: “Meus pêsames às cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, perseguidas, mesmo em casa, pelo terror.”
Já meus amigos alemães vão me excluir imediatamente da lista do Face e apagar todas as mensagens que porventura tenhamos trocado, depois se recostarão em suas poltronas e lerão notícias absolutamente neutras até que a caixa-preta seja encontrada.
Parentes próximos ou distantes, que até hoje se negam a acreditar que eu seja mesmo um escritor e more na Alemanha, vão erguer uma tenda funerária, receber os enlutados e lhes servir café amargo. E sempre que alguém perguntar: “Como foi mesmo que o parente de vocês, o Abud Said, morreu?”, eles começarão com alguma referência ao Facebook e terminarão no Brasil. E sempre que alguém perguntar a um dos meus primos paternos, conhecido por ser um zero à esquerda em geografia, “E onde foi mesmo que aquele seu primo morreu?”, ele vai recorrer ao filho caçula: “Fala aí pro seu tio onde caiu o avião que matou seu primo.”
“O avião caiu no Brasil. Ele ia de Leonardo DiCaprio a Pater Paolo, mas aí ele caiu no mar.”
