Mark Zuckerberg, imperador e gladiador: fascinado pela Roma clássica, em 2024 ele presenteou sua mulher, Priscilla Chan, com uma enorme estátua em que a pediatra posa como deusa CRÉDITO: KLEBER SALES_2025
Ou Zuck, ou nada
A conversão ultradireitista de Mark Zuckerberg – e a interpretação implacável de sua irmã
Victor Calcagno | Edição 232, Janeiro 2026
Poucas semanas antes do pleito que reelegeu Donald Trump em 2024, Mark Zuckerberg, dono da Meta – empresa controladora do Facebook, WhatsApp e Instagram –, pisou no palco do Chase Center, arena acostumada a receber jogos do campeonato americano de basquete e grandes shows em São Francisco, na Califórnia. Sob os gritos de 6 mil espectadores que pagaram no mínimo 50 dólares por ingresso, o bilionário de 41 anos, uma das cinco pessoas mais ricas do mundo e a mais jovem entre elas, era a atração principal do podcast de tecnologia Acquired, que teria seu episódio gravado ao vivo naquela noite de setembro.
Visivelmente mais encorpado, com a pele bronzeada, cabelos mais longos, corrente de ouro, relógio de luxo e roupas largas, diferia ao extremo da imagem de frágil menino gênio que cultivou durante anos – pálido, magro e sempre usando uma mesma combinação sem graça de jeans e camiseta cinza. Logo na primeira intervenção da conversa que duraria pouco mais de uma hora, comentou sobre a participação de Jensen Huang, presidente da empresa de semicondutores Nvidia e último entrevistado do programa, que enviara um vídeo pedindo desculpas por declarações feitas no episódio anterior. “Talvez a gente já precise marcar outra conversa apenas para eu pedir desculpa sobre o que vou falar hoje”, disse Zuckerberg, tirando risadas da plateia e da dupla de apresentadores. “Tô brincando”, emendou antes de dar o golpe que alvoroçaria de vez a arena: “Eu não peço mais desculpa.” No peito, arfando com as risadas em seguida, trazia na camiseta enormes caracteres gregos estampando o dito pathei mathos, ou “aprender pelo sofrimento”.
A frase de Agamêmnon, peça de Ésquilo escrita no século V a.C., faz parte de um grande repertório de atitudes, referências, opiniões, roupas, esportes radicais e hobbies pretensamente masculinos aos quais o dono da Meta tem recorrido para se reinventar. Entre fazer exercícios para engrossar o pescoço e participar de torneios de jiu-jítsu, surfar com pranchas motorizadas, caçar javalis para comer e criar gado na sua propriedade no Havaí, gravar com o rapper T-Pain e aderir à moda urbana junto de estilistas famosos, a transformação não veio só na estética, mas também no posicionamento político. Treinado para evitar o tema desde que criou o Facebook ainda na faculdade em 2004, aos 19 anos, a surpresa foi grande quando Zuckerberg abandonou toda a neutralidade cuidadosamente construída por duas décadas para se alinhar a Trump em dois grandes gestos no início de 2025.
Na primeira das atitudes que marcaram a virada, em 7 de janeiro do ano passado, anunciou em vídeo no Instagram uma série de novas políticas para suas plataformas e seus mais de 3 bilhões de usuários ativos, segundo números do próprio dono. Em nome da “liberdade de expressão”, a Meta estava “se livrando” da parceria que firmara anos antes com checadores para apurar conteúdos duvidosos. Esses profissionais, nas palavras do bilionário, eram “enviesados” e “tinham destruído mais confiança do que criaram”; além disso, os sistemas de moderação da plataforma eram responsáveis por enorme “censura”. No mesmo tom, opiniões sobre tópicos antes considerados sensíveis, como gênero e imigração, passariam a ter menos proteção na rede, uma vez que limitá-los estaria “desalinhado com o discurso em voga”, prática que já tinha “calado pessoas com ideias diferentes”. O segundo gesto de alinhamento às demandas da direita, este mais literal, veio na própria posse de Trump em 20 de janeiro do ano passado, quando Zuckerberg esteve na primeira fileira de convidados, ao lado de colegas bilionários da tecnologia como Elon Musk (Tesla, SpaceX), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple) e Shou Zi Chew (TikTok).
Já não era mais o rapaz tímido que, depois da primeira eleição do magnata em 2016, pareceu constrangido ao receber uma enxurrada de críticas pela leniência de suas plataformas com a desinformação e o mau uso de dados pessoais, e passou os anos seguintes cabisbaixo, pedindo desculpas e prometendo melhoras enquanto sua imagem se desgastava sem contra-ataques efetivos. No mesmo vídeo do dia 7 de janeiro, Zuckerberg afirmou que as restrições que haviam influenciado fortes políticas de moderação em sua rede, estratégia feita na tentativa de recuperar a credibilidade da plataforma, tinham ido “longe demais”.
A guinada de Mark Zuckerberg pode ser dividida em dois pontos práticos: um ligado aos negócios, outro a uma reserva ideológica contra ideias progressistas. Primeiro está o anseio por alianças políticas que protejam as redes sociais de futuras regulações, impostos e “censura”, de modo a mantê-las como um lucrativo território sem lei. A capitulação a Trump tem especial importância num momento em que as gigantes da tecnologia são julgadas nos Estados Unidos por formação de trustes, em processos movidos por órgãos públicos como o Departamento de Justiça (em franco desmonte pelo governo do republicano) e a Comissão Federal de Comércio (da qual o presidente expurgou os membros vinculados ao Partido Democrata). Em meados de abril do ano passado, o próprio dono da Meta depôs durante mais de dez horas no processo que julga as aquisições de WhatsApp e Instagram, cujo desfecho judicial em novembro o desobrigou a vender os aplicativos.
Em paralelo, há o resgate de uma ideia conservadora de masculinidade para bancar as mudanças de discurso, como nos vídeos em que “Zuck” luta jiu-jítsu. O tipo do macho ligado à indústria da tecnologia ganhou o nome de tech bro, uma espécie de “parça tech”, alcunha que tem sido aplicada à versão renovada do empresário. Sua nova estética, mudança bastante consciente e brusca, não raramente também é rotulada pela imprensa americana como proveniente de uma atitude forçada, uma espécie de crise de meia-idade misturada à aflita tentativa de tornar sua imagem mais simpática ao público (uma pesquisa Reuters/Ipsos de fevereiro do ano passado apontou o bilionário como o mais impopular entre os dez americanos mais ricos).
Mas nessa equação ideológica há ainda lugar especial para um elemento que nos últimos anos ganhou destaque não só pelo dono da Meta, mas por parte considerável da direita extremista: a apropriação da herança cultural greco-romana, ou a utilização do período histórico e suas expressões estéticas como lastro de poder e superioridade. Com suas referências a imperadores, batalhas, filosofias, físico, arte e dizeres da Antiguidade clássica, as civilizações grega e romana têm sido recuperadas por novos conservadores, desde meados dos anos 2010, como ideal de sucesso, virilidade, beleza, sagacidade e passado perfeito. Nos ambientes online, esses conceitos não raramente desembocam em racismo e misoginia.
Interessado na área ao menos desde que estudou latim no ensino médio, a admiração de Zuckerberg pela Antiguidade, no entanto, parece ter recrudescido desde que parou de se desculpar. A camiseta pathei mathos, por exemplo, faz parte de peças exclusivas criadas por ele em parceria com o estilista Mike Amiri em 2024. Antes, durante seu aniversário de 40 anos, já trazia estampada no peito a célebre frase de Catão contra a rival Cartago no contexto das Guerras Púnicas – Carthago delenda est, ou “Cartago deve ser destruída”. Outra peça mais célebre, agora na coleção estilizada, personaliza o ultimato Aut Caesar, aut nihil (Ou César, ou nada) para Aut Zuck, aut nihil (Ou Zuck, ou nada). Em agosto de 2024, o bilionário presenteou a sua mulher, Priscilla Chan, com uma enorme estátua em que a pediatra posa como deusa. A inspiração está na legenda da foto: “Trazendo de volta a tradição romana de fazer estátuas da sua esposa.” Os nomes das três filhas do casal, Maxima, August e Aurelia, prestam homenagem direta aos imperadores Augusto, Máximo e Marco Aurélio. O fundador do Império Romano, Augusto Otaviano, também é o preferido de Zuckerberg, que em entrevista já revelou admirá-lo em especial porque “estabeleceu duzentos anos de paz mundial”. Esse processo, porém, também envolveu a destruição dos elementos democráticos da república romana e sua transformação em regime autocrático – algo que “Zuck” aparentemente prefere não mencionar.
Alguns anos antes de Zuckerberg literalmente vestir suas referências clássicas e gerar imagens de si mesmo como gladiador – como faz hoje para promover a inteligência artificial de sua empresa –, houve o lançamento nos Estados Unidos de uma obra que destrinchava o então recente movimento unindo a Antiguidade e sua cooptação masculinista nas redes atuais. O livro Not all dead white men: classics and misoginy in the digital age (“Nem todo homem branco morto: clássicos e misoginia na era digital”), ainda sem edição no Brasil, é um trabalho publicado pela editora da Universidade Harvard em que, com larga e corajosa pesquisa em ambientes de hostilidade e perseguição nas redes sociais, a autora descreve os diversos meios em que homens brancos se valem da herança cultural greco-romana para justificar a necessidade de “salvar o Ocidente” e “proteger a tradição, rejeitando a modernidade”. Seja pelo sentimento de “declínio da masculinidade”, pela apropriação da filosofia estoica ou mesmo pelo uso de Ovídio e sua A arte de amar como espécie de “primeiro guia da pegação”, o livro expõe e analisa as formas mais comuns que fizeram Grécia e Roma tornarem-se inspiração para a direita que fez Trump possível. A classicista e autora do estudo, Donna Zuckerberg, provavelmente não imaginava que em seu livro de 2018 descrevia certas tendências que anos depois seu irmão mais velho reproduziria com orgulho.
Donna Zuckerberg é a única dos quatro irmãos de origem judaica a não ter entrado na indústria da tecnologia (as outras duas irmãs também seguiram os passos do irmão famoso). Ao contrário de Mark, que abandonou Harvard ainda na graduação para se dedicar à sua nascente rede social, Donna concluiu os estudos e seguiu a carreira acadêmica, recebendo o título de doutora pela Universidade Princeton em 2014.
A opção pela área de estudos clássicos e seu posicionamento progressista levaram Donna a criar e manter de 2015 a 2020 o periódico Eidolon, publicação online que buscou, com certa repercussão, analisar conceitos da Antiguidade em contraposição crítica a temas atuais. Se não é novidade que o período é em grande parte dominado por homens brancos mortos, ou ideais machistas, racistas e violentos, coube à revista a tarefa de colocar esses temas em perspectiva, debatendo-os a partir de matérias como gênero e raça. Não demorou para Donna perceber que parte do tráfego de um dos artigos publicados vinha de uma discussão no Reddit sobre o então recente interesse da alt-right – a nova direita americana – pelo estoicismo, a filosofia grega conhecida, grosso modo, por pregar o comedimento e a contenção das emoções. Fuçando cada vez mais fundo no Reddit, rede social composta por fóruns de discussão, Donna tomou conhecimento de toda uma subcultura de argumentos, imagens, memes e frases em latim que usava sua área de pesquisa para justificar, dentre outros, a misoginia e a supremacia branca. O ano era 2015 e os sinais culturais para a primeira eleição de Trump, a acontecer no ano seguinte, começavam a furar a bolha da internet.
A apropriação online desses referenciais históricos, quase sempre rasa ou objetivamente errada, tornou-se assunto recorrente nos artigos da classicista para Eidolon e outros veículos em que contribuiu, como The Washington Post e bbc. O interesse crescente levou-a a enxergar no assunto um tema apropriado para motivar um livro dedicado só a ele, o que fez logo em seguida. Nas quase trezentas páginas de Not all dead white men, a autora não está preocupada em indicar os erros práticos na interpretação online e conservadora da Antiguidade – uma tarefa inútil, afirma –, mas sim expor com diversos exemplos o funcionamento dessa cooptação, seu pretendido verniz de intelectualidade e o uso propositalmente indiscriminado e ignorante de contexto histórico. Mais ainda, interessa à autora apontar como essa captura está fundamentada numa frágil ideia de masculinidade viril acostumada a conquistar pela força e pela impostura, a materialização de “Ou César, ou nada”.
Não que o uso enviesado de passados míticos pela direita fosse novidade. Nas primeiras páginas, a autora já indica que o problema atual é apenas a “última versão” na prática já milenar de usar a Antiguidade para basear ideias reacionárias. Ela escreve: “Movimentos políticos e sociais há muito se apropriam da história, literatura e mitologia do mundo antigo para seu proveito. Tomar os símbolos dessas culturas, como fez o Partido Nazista nos anos 1940, pode ser uma forma de afirmar-se como herdeiro da cultura e civilização ocidental.” A inspiração mais óbvia está na própria palavra “fascismo”, que se utilizou de uma nova versão do fascio, o símbolo do feixe de varas usado como marca de poder no Império Romano, para batizar o movimento italiano no início do século XX.
A grande e clara diferença, escreve Donna Zuckerberg, está na potência que as atuais tecnologias de comunicação, sobretudo a internet das redes sociais, têm para agregar o ódio. Se as chamadas big techs construíram seus impérios em favor de “conexões humanas”, fórmula que o dono da Meta repete há anos, é porque essas ligações também foram motivadas pela hostilidade em escala inédita. O resultado da equação, afirma Donna, é que “as redes sociais elevaram a misoginia a níveis completamente novos de violência e virulência”, o que logo começou a beber em fontes clássicas. A combinação dos dois mundos, ou o encontro de gladiadores mortos e jovens online ressentidos, por si só, não é difícil de ser feita: “Muito da literatura que sobrou do antigo mundo mediterrâneo pode ser adaptada a suas ideologias e há um profundo poço de misoginia antiga para mergulharem”, aponta ela. Esses homens e suas redes de influência que promovem explícito ódio a minorias – a chamada machosfera –, veem em teóricos da Antiguidade “sua própria misoginia refletida, teorizada e celebrada”. Sobretudo nas discussões de gênero, a apropriação clássica “apaga grande parte do progresso social alcançado nos últimos dois milênios” a partir da sacralização, mediocrização e perversão de conteúdos antigos. Daí para a ideia de que recuperar a tradição significa salvar o Ocidente de um progressismo ditador, que censura o presente e deseja apagar um glorioso passado, a distância não é grande. Essa mesma salvação, é claro, também tem contornos raciais bastante definidos. “Quando olham para homens brancos mortos do mundo antigo como fonte de conhecimento definitivo, a conclusão é de que homens brancos são superiores”, escreve Donna, referindo-se às apropriações da ultradireita. “Eles nos legaram os primórdios da nossa filosofia, cultura e arte. Eles – ou seja, seus descendentes homens e brancos – merecem estar no comando.”
Os exemplos de captura discutidos em Not all dead white men são variados e muitas vezes repugnantes. No primeiro dos quatros capítulos, Donna Zuckerberg faz um panorama das fontes misóginas da Antiguidade como é visto, por exemplo, na teoria aristotélica de escravidão natural e inferioridade feminina, ou no Econômico de Xenofonte e sua defesa da serventia unicamente doméstica das mulheres. No segundo, detalha como o estoicismo de Zenão e Epíteto serviu à nova direita para justificar um modo frio e por isso “equilibrado” de tratar os próprios sentimentos, atitude pretensamente masculina em oposição ao desequilíbrio emocional que caracterizaria o gênio feminino. No terceiro, a autora descreve como a Arte de amar, obra do escritor romano Ovídio sobre sedução, é usada pela machosfera como inspiração para o “flerte” – ainda que o livro também possa ser hoje considerado um “guia do estupro” se levado ao pé da letra como fazem, escreve ela. No quarto capítulo, é a tragédia grega Hipólito, de Eurípedes, que é usada para alardear a existência de falsas acusações de estupro, motivo da desgraça do herói que dá título à peça. Essas operações de apropriação, sublinha ela, são quase sempre levadas a cabo da mesma maneira: sem nuances, em interpretações seletivas que tomam o texto da forma mais rasteira possível. Para a obra satírica de Juvenal contra diversos aspectos de Roma – sobretudo seus integrantes masculinos –, a machosfera prefere focar no seu manifesto contra o casamento, por exemplo. Citado no livro, um autor num blog alt-right conclui, apoiando-se na crítica às mulheres feita pelo escritor romano no texto, que “mesmo numa era em que o maldito patriarcado supostamente reinou com mão de ferro […] mulheres ainda eram vagabundas”.
Se comparado aos conceitos e expressões mais discutidos pelo livro da irmã, mesmo o Mark Zuckerberg de hoje, encorpado e usando correntes de ouro, não parece exatamente o maior representante do ódio explícito que define a machosfera. O bilionário nunca deu sinal de acreditar que mulheres são intrinsecamente “vagabundas”, que a sociedade as privilegia via leis e seu “monopólio do sexo”, nem que, por causa delas, homens são sistematicamente prejudicados. Sua fixação pela Antiguidade também nunca serviu para embasar opiniões favoráveis à supremacia branca ou se apresentar como herdeiro eleito de uma tradição superior. Mas, ao reivindicar e defender padrões antigos de masculinidade, alinhar-se a demandas da ultradireita e se servir constantemente da iconografia clássica como fonte de poder, a ressonância com o estudo da irmã não só se torna possível, como bastante direta. Em seu livro, ela escreve que, na alt-right, a lógica entre poder político e masculinidade é clara: “Fraqueza política é igualada a emasculação figurativa. A linha entre impotência sexual e política é borrada.” Ou, para citar Marco Aurélio nas Meditações, um dos autores estoicos preferidos do irmão, o adjetivo “feminino” pode ser usado como insulto para supostos homens de verdade.
As atitudes “sem desculpas” do dono da Meta vão desde a demissão em massa de 4 mil funcionários de “pior desempenho” na empresa, até o encerramento dos programas de diversidade e remoção de absorventes nos banheiros masculinos, antes disponíveis para atender pessoas trans e não binárias. Também contratou para o conselho da big tech célebres executivos do Partido Republicano, além de Dana White, presidente do campeonato de artes marciais UFC e notório trumpista. Antes disso, em novembro de 2024, Mark Zuckerberg tinha visitado Trump para um jantar, além de ter doado 1 milhão de dólares para sua posse e dado uma festa depois do evento em Washington. Mas nenhum desses movimentos destacou tanto seu novo jeito de pensar quanto a conversa de quase três horas gravada para o podcast conservador de Joe Rogan, uma das figuras mais populares da machosfera online, a quem o próprio Trump, numa tentativa de angariar o voto de homens jovens antes da última eleição americana, deu uma entrevista em 2024.
No encontro com Rogan, Zuckerberg não se conteve: chamou de “brutal” a atitude do governo Joe Biden em pedir que a Meta retirasse do ar informações infundadas sobre a Covid; comparou a “censura” praticada por seus ex-checadores à realidade totalitária de 1984, o romance clássico de George Orwell; afirmou que “olhando para trás, abaixei muito a cabeça” e disse estar confiante de que o governo Trump vá “defender” os interesses das big techs contra países que praticam maior regulação a elas. Durante quarenta minutos dedicados apenas a elogiar os benefícios das artes marciais e da caça ao lado do apresentador, também entusiasta de ambos, Zuckerberg nunca se aproximou tanto da machosfera: “Realmente acredito que muito da nossa sociedade se tornou neutra ou emasculada. […] Acho que esse tipo de energia masculina é bom e o mundo corporativo tentou se afastar dela.” O remédio que seria “realmente positivo em seus próprios méritos”, segundo ele, envolve “ter uma cultura que celebre a agressão um pouco mais”. Foi praticando artes marciais junto de executivos da Meta e se sentindo bem ao “bater e apanhar um pouco” entre amigos, afirma, que começou a pensar assim. Sentiu, ainda, que era essa masculinidade a “peça de quebra-cabeça” que faltava na sua trajetória. “Onde isso esteve durante toda a minha vida?”, se pergunta diante de um apresentador que elogia seu novo “pescoço mais grosso” – elemento essencial para dirigir bem uma empresa, diz também o convidado.
Na prática, a mesma energia masculina que defende Zuckerberg ao se apoiar na estética da Antiguidade agora permite que usuários da Meta chamem pessoas gays e transgênero de doentes mentais. Como escrito em suas novas diretivas, a empresa agora permite “alegações de doença mental ou anomalia quando baseadas em gênero ou orientação sexual, dado o discurso político e religioso sobre transgeneridade e homossexualidade”. Entre as novas orientações em nome da liberdade de expressão, também é possível relacionar a propagação do coronavírus a raças e nacionalidades específicas, ou ainda afirmar que postos em escolas ou nas Forças Armadas devem ser ocupados apenas por certos gêneros. Além disso, a empresa retirou do texto das diretivas a afirmação de que discursos de ódio podem resultar em violência offline, como diziam seus documentos desde 2019. Não ainda em diretrizes oficiais, mas no vídeo de 7 de janeiro do ano passado, o bilionário também faz menção a “tribunais secretos” na América Latina que estariam censurando suas redes, no que foi visto como recado indireto para o Brasil e o combate à desinformação empreendido sobretudo nas eleições de 2022. Na mesma postagem, Zuckerberg diz querer trabalhar com o governo Trump para restaurar a liberdade de expressão e evitar que censuras aconteçam ao redor do mundo.
Tal como feito nos artigos de Eidolon e nos capítulos de Not all dead white men, Donna Zuckerberg continua escrevendo sobre a Antiguidade – com um tom progressista – na newsletter que mantém atualmente, a Myth Takes, ainda que tenha postado menos desde agosto de 2025, alegando “ambivalência crescente” com a plataforma Substack. Apesar de sua abordagem pouco erudita dos clássicos ter lhe valido críticas (alguns viram em seu livro uma preocupação excessiva com grupos online e um estilo pouco apurado), ela continua a discutir a apropriação que encontrou em 2015. Se é verdade que Not all dead white men dá importância a um nicho online que clama por atenção, também é certo que o faz numa época em que o ódio fermentado nesses grupos cresce para além de fóruns obscuros, povoa a internet cotidiana e anima figuras como Elon Musk, que ocupou cargo no governo Trump por cinco meses. O livro é cuidadoso ao fazer essa aproximação e não tem maiores pruridos em questionar os aspectos mais ultrapassados dos estudos clássicos no processo – afinal, o interesse motivado pelos ideais escusos da machosfera parece ser o maior que essa área da história atraiu em vários anos. Com diversos exemplos atuais de misoginia e supremacia branca, a leitura pode ser bastante indigesta (a própria autora limitou sua pesquisa a uma hora diária enquanto escrevia o livro), mas nunca é reducionista. O trabalho não deve ser lido como estudo historiográfico tradicional, mas como uma obra de não ficção em que história, política e comportamento se juntam em análise apurada da cultura online atual.
Na newsletter que Donna Zuckerberg ainda mantém, há também textos mais pessoais, como o publicado no dia 29 de janeiro do ano passado. Em tom emocionado, Donna – que é mãe de uma criança trans e foi casada com uma pessoa que se assumiu transexual depois do divórcio – falava sobre novas leis que miravam direitos trans. “Não tenho palavras para expressar o tamanho do meu medo, raiva e náusea neste momento”, afirma, completando que o assunto a toca especialmente “como mãe de uma criança trans”. Sem citar as novas diretrizes da Meta ou de seu irmão, algo que claramente evita, ela diz: “Conservadores querem nos fazer acreditar que pessoas trans são mentalmente instáveis, mas ser trans não é exatamente o que faz as pessoas se suicidarem. Transfobia mata.”
Enquanto isso, no perfil de Mark Zuckerberg no Instagram, é possível vê-lo presenteando uma das filhas, Maxima, com um capacete espartano feito em impressora 3D, outro de seus hobbies. Por mais intensa que seja, sua repaginação masculinista não o tem poupado de piadas feitas pela mesma machosfera com que deseja se enturmar – numa das preferidas, o termo cuck (corno) é usado para substituir as primeiras quatro letras de seu sobrenome. Se o passado criado pela apropriação conservadora é “pura fantasia” e a Antiguidade é “diversa, multicultural, gay à beça e claramente não tem só caras brincando de encenar 300”, como diz Donna em outro texto de Myth Takes, seu irmão parece não estar ciente disso. Ele se mostra convicto de que não precisa mais se explicar e está cada vez menos propenso a prestar contas aos outros – algo que ficou claro num encontro de funcionários da Meta no início de 2025. Antes, Zuckerberg seguia um sistema de votação, em que as perguntas mais votadas pelos colaboradores lhe eram feitas durante sua fala. No ano passado, o sistema democrático desapareceu. Uma questão – “Como mulheres podem trazer energia masculina ao ambiente de trabalho?” – foi feita e fomentada por participantes do encontro, mas foi ignorada pelo bilionário – que por essa atitude tampouco pediu desculpa.
