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A Copa de Trump

    Uma batalha após a outra: nem um roteirista delirante seria capaz de criar a sequência de eventos que levou o país-sede da Copa a entrar em guerra com uma das nações que vai jogar lá CRIS VECTOR_2026

questões ludopolíticas

A Copa de Trump

As contradições de um torneio mundial na era do America first

Marcos Caetano, de Windermere | Edição 235, Abril 2026

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O bordão famoso do presidente Lula – “Nunca antes na história deste país…” – encontrou seu destino verdadeiro, curiosamente, a quase 7 mil km de Brasília. Ele se aplica ao governo de Donald Trump como uma cobrança de falta de Lionel Messi no ângulo. Tudo o que acontece nos Estados Unidos desde a posse presidencial, em 20 de janeiro de 2025, parece ser inédito e assombroso, raramente no sentido positivo. Nunca na história daquele país um presidente chamou imigrantes somalis de “lixo”. Nunca um ocupante da Casa Branca ameaçou invadir militarmente um dos países coanfitriões da Copa do Mundo. Nunca um líder americano foi presenteado pela Fifa com um prêmio da paz feito às pressas para ele – e, semanas depois, resolve bombardear o Irã, um dos países participantes do torneio mundial.

O treinador italiano Arrigo Sacchi diz que o futebol não é a coisa mais importante do mundo, mas é a coisa mais importante entre as menos importantes. Essa constatação explica por que as copas do mundo são um acontecimento de impacto global, com implicações geopolíticas e culturais (80% dos países do mundo têm o futebol como esporte número 1). A Copa deste ano será a maior da história: a primeira com 48 seleções, que jogarão 104 partidas, algumas em estádios que comportam até 100 mil pessoas. Também pela primeira vez o torneio será disputado em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Por tudo isso, a edição que começa no próximo dia 11 de junho deveria ser a maior festa que o futebol já viu. Mas a Copa nasce assombrada por uma dúvida que nenhum outro torneio precisou responder: é possível dar uma festa para o mundo inteiro na casa de um anfitrião que já deixou claro que nem todos são bem-vindos?

Já relatei na piauí (Guerra cultural no meu quintal, piauí_169, outubro de 2020), algumas das minhas desventuras nos Estados Unidos, onde cheguei poucos dias antes de Donald Trump ser empossado como presidente pela primeira vez. Naquela época, a perspectiva de uma Copa do Mundo nos Estados Unidos parecia um sonho. Eu poderia viver o torneio dentro do país, como morador, como jornalista, como torcedor brasileiro numa terra que, apesar de suas muitas contradições, sempre soube acolher gente do mundo inteiro. Em 2018, quando os Estados Unidos, o Canadá e o México venceram a disputa pela sede da Copa (a candidatura incluía um compromisso formal com os direitos humanos), logo planejei levar meu filho Arthur, na época com apenas um ano, ao seu primeiro jogo da Seleção Brasileira. Eu estava perto da coroação deste sonho duplo: ver o Brasil na Copa e apresentar ao meu filho americano-brasileiro a experiência mais poderosa que o futebol é capaz de oferecer.

 

Hoje, a dois meses do pontapé inicial, o sonho não esmoreceu, pois futebol e Copa do Mundo não são coisas de que se abra mão facilmente, ainda mais quando se é brasileiro (nem o uso da camisa amarelinha pela extrema direita brasileira foi capaz de me fazer virar as costas para a Seleção). Mas, agora, o sonho tem outro sabor. A excitação inicial foi contaminada por uma ansiedade que não encontra abrigo no universo do futebol. E o motivo central dessa ansiedade é uma sigla ainda mais polêmica do que a tão merecidamente criticada Fifa. Estou falando do ICE (Immigration and Customs Enforcement), a agência federal responsável por deter e deportar imigrantes em território americano.

Leio no jornal The Guardian sobre avós britânicas com vistos válidos detidas nos Estados Unidos pelo serviço de imigração por seis semanas. Acompanho a história de um pai que foi preso no estacionamento de um estádio, diante dos filhos, quando tentava assistir a um jogo do Mundial de Clubes. Vejo meus vizinhos de Windermere – a cidade onde moro –, os mesmos que há quatro anos discutiam a guerra cultural em grupos de WhatsApp, agora divididos sobre se é seguro convidar parentes estrangeiros para uma partida de futebol. Se tudo isso já está ocorrendo antes de a Copa começar, o que acontecerá com os milhões de torcedores colombianos, senegaleses, marroquinos e brasileiros que pretendem cruzar as catracas dos estádios, mas que, antes disso, precisarão cruzar a fronteira americana?

A resposta, como quase tudo que ocorre durante o governo Trump, é “ninguém sabe”. E essa incerteza, que em circunstâncias normais seria apenas uma inconveniência de ordem burocrática, tornou-se o traço definidor da próxima Copa. Porque não se trata apenas de obter vistos e enfrentar filas nos consulados. Trata-se de saber se este país que inventou a ideia de receber o mundo de braços abertos – a estátua, o poema, a promessa – ainda acredita nela. Ou se o espetáculo de boas-vindas que o governo Trump está preparando para a Copa será apenas isso: um espetáculo, com luzes e troféus dourados, por trás do qual se esconde uma muralha mais bem guardada do que a meta da Squadra Azzurra nos tempos do catenaccio, o estupendo esquema de defesa da seleção italiana de décadas atrás.

 

 

Para entender a ambiguidade que paira sobre esta Copa, é preciso se atentar à arquitetura montada pelo governo Trump para receber o torneio e perceber que foi projetada para significar duas coisas ao mesmo tempo. De um lado, há o discurso da hospitalidade: o presidente assinou uma ordem executiva criando uma força-tarefa da Casa Branca dedicada exclusivamente à Copa, liderada por Andrew Giuliani, filho de Rudy Giuliani, o ex-prefeito de Nova York. O Departamento de Estado enviou 450 funcionários extras a consulados para agilizar a emissão de vistos em todo o mundo. A Fifa e o governo americano lançaram o Fifa Pass, um sistema de agendamento prioritário de entrevistas consulares para quem comprou ingresso pelo site oficial. Andrew Giuliani declarou que o objetivo é garantir que torcedores de 80% do total de nações do planeta consigam marcar uma entrevista para o visto em menos de sessenta dias. “A América está entusiasmada em receber o mundo para a Copa de 2026”, anunciou o chefe da força-tarefa num vídeo oficial, com a desenvoltura de quem vende ingressos para um evento de angariação de fundos em Mar-a-Lago.

Do outro lado, porém, há o discurso da fortaleza, do fechamento das fronteiras, do build the wall! E ele vem das mesmas bocas. Quando repórteres perguntaram a Andrew Giuliani se o governo descartava operações do ICE dentro ou nas proximidades dos estádios durante os jogos, a resposta foi uma frase que deixou preocupados os torcedores que não têm o que muitos agentes da imigração consideram como sotaque ou traços típicos de americanos. “O presidente não descarta nada que torne os cidadãos americanos mais seguros”, respondeu Giuliani. Quando questionado sobre o travel ban – medida que restringiu a entrada de estrangeiros de vários países nos Estados Unidos –, ele repetiu, cheio de gravidade: “Cada visto é, antes de tudo, uma decisão de segurança nacional.” E, quando a retórica anti-imigrante de Trump foi confrontada com a promessa de uma Copa acolhedora, Giuliani ofereceu uma explicação que, junto com o prêmio da paz dado pela Fifa a Trump, já é parte da antologia da bajulação política: “O presidente tem um estilo único. Acho que é por isso que ele é um líder tão eficaz e, sinceramente, acho que é por isso que ele é o anfitrião perfeito para esta incrível Copa do Mundo.”

O vice-presidente J. D. Vance foi ainda mais explícito – e mais desajeitado. Durante uma reunião da força-tarefa na Casa Branca, em maio de 2025, declarou: “Claro, todo mundo é bem-vindo para este evento incrível. Teremos visitantes de quase cem países. Queremos que venham, queremos que celebrem, queremos que assistam aos jogos.” Um discurso perfeitamente protocolar, até que veio o arremate: “Porém, quando tudo terminar, eles precisarão voltar para casa. Caso contrário, terão que conversar com a secretária Noem.”

 

A menção a Kristi Noem, a então secretária de Segurança Interna, arrancou risadas na sala. Vance bateu na mesa, satisfeito com a própria piada. O secretário de Transportes, Sean Duffy, completou o recado sem rodeios: “Não ultrapassem seus vistos.” Não é necessário ser um especialista em comunicação política para perceber que uma piada sobre deportação, feita pelo vice-presidente, durante uma reunião oficial sobre um torneio esportivo, é tudo, menos uma piada. É um aviso.

Não muito tempo depois, Noem, que havia se tornado o rosto das operações de deportação em massa, foi demitida por Trump através de um post em sua rede social, Truth Social. A morte de dois cidadãos americanos pelas mãos de oficiais do ICE em Mineápolis já havia fragilizado sua posição. Mas, segundo pessoas próximas a Trump, o golpe fatal foi outro: durante uma audiência no Senado, pressionada pelo republicano John Kennedy, Noem afirmou sob juramento que Trump havia aprovado pessoalmente a polêmica campanha publicitária de 220 milhões de dólares da Segurança Interna, na qual ela era a estrela. O anúncio mais famoso da série a mostrava montada num cavalo, vestida de cowgirl, com um imenso chapéu e botas de cano alto, diante do Monte Rushmore — tudo filmado, vale dizer, durante uma paralisação do governo que levou milhares de funcionários federais a trabalhar sem receber. Trump negou ter aprovado a campanha e, horas depois da audiência, anunciou a demissão.

A contradição entre os dois discursos – o dos salões de Mar-a-Lago e o da fortaleza murada – se manifesta de forma ainda mais concreta no travel ban. Em junho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva restringindo a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de dezenove países, a maioria do Oriente Médio e da África. Em dezembro, a lista foi ampliada para 39 nações. Dezenove delas têm proibição total (quando nenhum tipo de visto é concedido) e vinte têm restrições parciais, que incluem a proibição de vistos de turismo.

Quatro seleções classificadas para a Copa vêm de países atingidos pelo travel ban: Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim. Para pessoas desses países, o visto de turismo – exatamente o que um torcedor precisa para assistir a um jogo – está proibido. A medida não atinge os jogadores e as delegações oficiais, que estão isentos, como garante uma cláusula da própria ordem executiva de Trump. Ou seja: as seleções desses países podem jogar, mas seus compatriotas não podem vê-las atuando ao vivo. É o equivalente diplomático de um jogo com portões fechados, a punição mais humilhante do futebol, normalmente aplicada a torcidas flagradas em atos de racismo ou violência. Só que, nesse caso, os torcedores punidos não cometeram infração alguma.

Além do travel ban, há o congelamento do processo de vistos de imigração de 75 países, incluindo o Brasil. Aqui é preciso fazer uma distinção importante: o congelamento atinge vistos de imigração, ou seja, aqueles destinados a pessoas que pretendem morar nos Estados Unidos. Os vistos de turismo, os chamados B1/B2, que são os que a maioria dos torcedores usarão para vir à Copa, continuam em tese disponíveis. Giuliani chegou a dizer que o prazo de espera para brasileiros e argentinos cairia de um ano para menos de dois meses. Mas a expressão-chave é “em tese”. Porque o clima geral de intimidação criado pelo governo – as operações do ice, as piadas sobre deportação, as imagens de pessoas acorrentadas em centros de detenção – produz um efeito que nenhuma estatística consular é capaz de captar: o medo. Meu filho Arthur, cidadão americano de nascença, comentou outro dia com uns amiguinhos da escola que também era brasileiro. Um dos meninos ameaçou chamar o ice. Arthur chegou em casa querendo entender que diabo era aquilo.

 

Se houvesse qualquer dúvida sobre o que pode acontecer quando agentes de imigração e torcedores de futebol ocupam o mesmo espaço, a Copa do Mundo de Clubes da Fifa, disputada nos Estados Unidos entre junho e julho de 2025, tratou de eliminá-la. O torneio, que reuniu 32 clubes de todos os continentes em doze estádios americanos, foi concebido como um ensaio geral para a Copa do Mundo de 2026. E acabou sendo, de fato. Mas, sob muitos aspectos, foi também um ensaio daquilo que pode dar errado.

O primeiro sinal veio antes mesmo de a bola rolar. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês) publicou nas redes sociais que estaria suited and booted (pronta e equipada) para garantir a segurança nos jogos. O ICE, por sua vez, emitiu um alerta aconselhando todos os não americanos presentes nos estádios a carregar consigo prova de sua situação migratória. Após a Fifa expressar preocupação com a repercussão do post, a CBP o apagou sem explicação. Mas o estrago estava feito. Em Los Angeles, agentes do ICE foram vistos nos arredores do estádio Dodger e só deixaram o local depois que foram impedidos de acessar as dependências do clube. Em Miami, antes de uma festa num barco organizada pela Fifa, agentes do Departamento de Segurança Interna e da Guarda Costeira chegaram a pedir documentos de imigração a alguns dos convidados, entre eles, o prefeito de Miami, dirigentes da própria Fifa e funcionários da Telemundo, a emissora americana que transmite em espanhol.

As consequências foram imediatas. O evento acabou cancelado pela Telemundo e torcedores que haviam comprado ingressos para as partidas começaram a revendê-los por medo de serem detidos. Torcedores brasileiros do Flamengo que vivem nos Estados Unidos cancelaram suas festas durante os jogos do clube. Um torcedor mexicano residente no Sul da Califórnia que planejava ir ao estádio Rose Bowl com a mulher vendeu os ingressos às pressas. “Com tudo o que está acontecendo, não dá para confiar plenamente num agente federal neste momento. Parece uma armadilha”, disse ele ao site Yahoo Sports. Thomas Kennedy, da Coalizão de Imigrantes da Flórida, definiu o clima com precisão: “As pessoas ficam menos propensas a ir aos jogos por causa da pura intimidação.” Os estádios, que deveriam estar lotados para o que a Fifa vendia como o maior evento de clubes da história, exibiam seções inteiras de cadeiras vazias.

O caso mais perturbador aconteceu no estacionamento do estádio MetLife, em Nova Jersey, o mesmo que sediará a final da Copa do Mundo de 2026. Um homem com pedido de asilo em andamento levou seus dois filhos, de 10 e 14 anos, para assistir à final do torneio – a disputa entre Chelsea e Paris Saint-Germain. Enquanto aguardava o início da partida no estacionamento do shopping American Dream, ao lado do estádio, o homem fez decolar um pequeno drone para tirar uma foto da sua família. Foi detido pela polícia, entregue ao ICE, encarcerado em um centro de detenção da agência e, posteriormente, deportado. “Um pai que ama futebol planejou um dia especial com seus filhos num torneio da Fifa, acabou detido por três meses e depois foi enviado a um país onde diz que sua vida está em perigo”, disse Minky Worden, diretora de iniciativas globais da Human Rights Watch. Nem o nome, nem a nacionalidade do homem foram reveladas, por medida de segurança.

Ao todo, a Fifa foi alertada sobre 145 incidentes relacionados a direitos humanos durante a Copa do Mundo de Clubes, incluindo denúncias de avistamento de agentes do ICE e da CBP nos estádios e suas imediações. Quando soou o apito final do torneio, o saldo era inequívoco: o ensaio geral havia demonstrado que a promessa de uma Copa acolhedora e o aparato de repressão migratória do governo Trump terão grandes dificuldades de jogar no mesmo time.

 

Em 5 de dezembro de 2025, o Kennedy Center, em Washington, recebeu a cerimônia do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. O edifício, um memorial ao presidente John F. Kennedy inaugurado em 1971, é também um dos templos das artes cênicas nos Estados Unidos. Ou era. Antes do sorteio, o conselho administrativo do Kennedy Center, cujos membros haviam sido substituídos por aliados de Trump, elegeu o próprio presidente americano como seu novo diretor. Mais ainda: votou pela renomeação do espaço, que passou a se chamar Trump Kennedy Center. O nome de Trump foi afixado à fachada – às pressas e numa tipografia diferente – na frente do de Kennedy. A Fifa havia obtido o uso do edifício por quase três semanas, de 24 de novembro a 12 de dezembro, pelo custo de zero dólar.

A cerimônia do sorteio foi, em si mesma, um espetáculo revelador. O tenor italiano Andrea Bocelli abriu o evento cantando Nessun dorma, da ópera Turandot, de Puccini, uma das árias favoritas de Trump, sempre apresentada em seus comícios. Os encarregados do sorteio técnico foram Tom Brady, Shaquille O’Neal, Aaron Judge e Wayne Gretzky, lendas do esporte americano e canadense, nenhum deles ligado ao futebol. O encerramento ficou por conta do Village People, que cantou YMCA, a canção que se tornou hino dos eventos trumpistas e embala a constrangedora dancinha do presidente americano, imitada de maneira ainda mais constrangedora por Javier Milei. Os líderes dos três países-sede – Trump, a mexicana Claudia Sheinbaum e o canadense Mark Carney – posaram para uma selfie com Gianni Infantino, o presidente da Fifa. Mas não havia dúvida sobre quem era o protagonista do evento.

Antes que as bolinhas do sorteio – a única coisa que o mundo realmente queria ver – fossem retiradas dos potes, Infantino subiu ao palco para entregar a Trump o Prêmio Fifa da Paz. O troféu, um esdrúxulo globo dourado sustentado por mãos em riste, havia sido anunciado poucas semanas antes, logo depois de Trump ter sido preterido pelo comitê que escolhe o Prêmio Nobel da Paz. A coincidência foi notada por todos. A Fifa, por sua vez, nunca divulgou os critérios de eleição para o prêmio, nem os juízes, nem a lista de candidatos.

Além do troféu, Infantino entregou a Trump um certificado que reconhece o seu esforço para “promover a paz e a unidade ao redor do mundo” e uma medalha – que o presidente americano arrancou rapidamente da bandeja e pendurou no próprio pescoço, sem esperar que alguém o fizesse para ele. “Você definitivamente merece o primeiro Prêmio Fifa da Paz pelas suas ações, pelo que obteve, à sua maneira”, disse Infantino. Trump segurou o troféu e declarou: “[Essa é] uma das maiores honras da minha vida.” Depois, parabenizou a si mesmo: os Estados Unidos, disse, “não estavam indo muito bem” antes dele, mas agora tudo mudou: “Somos o país mais desejado do mundo.”

Todo aquele teatro gerou indignação imediata. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch condenaram a premiação. A FairSquare, uma organização de direitos humanos focada no esporte, apresentou queixa formal ao Comitê de Ética da Fifa, acusando Infantino de violar o dever de neutralidade política da entidade. Nada disso, como era de se esperar, produziu efeito. Own the libs, ou seja, provocar a raiva da esquerda, é um dos objetivos do atual governo. Esse tipo de reação indignada por parte de instituições progressistas é puro combustível para as hostes do movimento Maga.

A relação entre Infantino e Trump não nasceu naquela noite. Os dois se aproximaram durante o primeiro mandato do americano, quando Estados Unidos, Canadá e México – em candidatura conjunta – foram escolhidos para sediar a Copa de 2026. Infantino esteve na posse de Trump em janeiro de 2025 e visitou Mar-a-Lago, onde Trump tem uma casa de férias, mais de uma vez. Em julho, a Fifa abriu um escritório na Trump Tower, em Nova York. Ivanka Trump foi nomeada para o conselho de um projeto educacional da entidade esportiva, financiado com parte da receita dos ingressos da Copa. Infantino disse a repórteres que considera Trump “um amigo próximo” e admira a “energia incrível” do presidente. “Ele faz o que diz. Ele diz o que pensa. Ele diz, na verdade, o que muita gente pensa, mas talvez não ouse dizer”, declarou o presidente da Fifa. A frase poderia ter saído da boca de qualquer um dos integrantes do grupo de WhatsApp que reúne meus vizinhos em Windermere.

A lógica por trás da subserviência é, acima de tudo, financeira. A próxima Copa deve gerar cerca de 11 bilhões de dólares (cerca de 57 bilhões de reais) em receita para a Fifa, mais de 50% de aumento em relação à edição anterior e mais que o dobro da Copa da Rússia em 2018. Só em ingressos e hospedagens, a previsão é que se alcance 3 bilhões de dólares. O preço médio do estacionamento para as partidas da fase de grupos está na casa dos 225 dólares (cerca de 1,2 mil reais). O poder de Infantino dentro da Fifa depende da sua capacidade de distribuir dinheiro às 211 federações que compõem a entidade, cada uma com direito a um voto nas eleições internas. A Copa nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor do planeta, pode vir a ser o gol de placa de Infantino para a reeleição. E Trump, ao contrário do que talvez faria um presidente democrata, oferece a Infantino algo valioso: carta branca para operar a Copa como bem entender, sem escrutínio, sem exigências incômodas sobre direitos humanos, sem pressão sobre transparência financeira e outras questões tidas por ele como woke.

Há, é claro, um histórico. A Fifa, atualmente comandada por Infantino, é a mesma que entregou a Copa de 2018 à Rússia de Putin e a de 2022 ao Catar, na qual morreram centenas de imigrantes que trabalhavam na construção dos estádios. A diferença, dessa vez, é que o autocrata em questão não é o anfitrião de um país distante, cujos abusos, depois de denunciados, são esquecidos. Ele é o líder do país-sede, o homem que controla as fronteiras, os vistos e o ICE.

E aqui cabe uma nota triste sobre o Kennedy Center, onde toda essa ópera-bufa foi celebrada: em fevereiro de 2026, depois de uma debandada de artistas, que se recusavam a se apresentar num espaço com o nome de Trump, o presidente anunciou que o edifício seria fechado por dois anos para “reforma e revitalização”. A jornalista Maria Shriver, sobrinha de John Kennedy, resumiu a situação: “Ninguém mais quer se apresentar lá.”

 

Das muitas histórias que a próxima Copa carrega antes mesmo de começar, a do Haiti talvez seja a mais cruel – e a que mais de perto diz respeito ao Brasil. As seleções dos dois países estão no mesmo grupo. Jogarão uma contra a outra. Mas, enquanto milhões de brasileiros fazem planos, compram ingressos e sonham com a festa, os haitianos vivem um pesadelo que tem várias camadas. Para entendê-lo, é preciso recuar alguns meses.

No debate presidencial de setembro de 2024, diante de 67 milhões de telespectadores, Donald Trump proferiu uma das frases mais ultrajantes da história eleitoral americana. Referindo-se a imigrantes haitianos na cidade de Springfield, no estado de Ohio, disse: “Eles estão comendo os cachorros, as pessoas que vieram de lá [do Haiti]. Estão comendo os gatos. Estão comendo os bichos de estimação das pessoas que moram lá [em Springfield].” A acusação absurda – desmentida pela prefeitura, pela polícia local e pelo próprio governador republicano de Ohio – havia sido propagada dias antes por J. D. Vance nas redes sociais. O fato de ser inteiramente falsa não a impediu de viralizar, gerar ameaças de bomba em Springfield e, claro, produzir uma avalanche de memes. Para muitos, foi mais um episódio grotesco na saga do trumpismo. Para os haitianos, foi a confirmação de que ocupavam um lugar especial na hierarquia do desprezo.

Pela primeira vez em mais de meio século, o Haiti se classificou para uma Copa do Mundo. A última vez, e até então única participação do país, havia sido no torneio disputado em 1974 na Alemanha, quando enfrentou a Itália, Argentina e Polônia. Para um país devastado por terremotos, furacões, gangues violentas e pela instabilidade política que parece não ter fim, a nova classificação foi um daqueles raros momentos em que o futebol cumpre sua promessa de oferecer alegria aos que mais precisam dela. Acontece que o Haiti está na lista de países sujeitos à proibição total de viagem aos Estados Unidos. Nenhum tipo de visto é concedido a cidadãos haitianos, a menos que eles estejam na lista dos jogadores convocados para a seleção do país, sejam membros da comissão técnica, dirigentes ou diplomatas

A crueldade não para aí. Cerca de 350 mil haitianos viviam legalmente nos Estados Unidos sob o chamado Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês), um programa que concede proteção temporária a cidadãos de países em crise humanitária. Em fevereiro de 2026, o governo Trump encerrou o TPS para haitianos. De um dia para o outro, pessoas que moravam, trabalhavam e pagavam impostos nos Estados Unidos perderam a proteção legal e passaram a viver sob ameaça de deportação. Isso significa que um torcedor haitiano que mora na Flórida – uma das maiores concentrações dessa colônia – e que sonhava em assistir ao jogo da sua seleção contra o Brasil, sabe que agora corre o risco de ser preso pelo ICE se for ao estádio Hard Rock. Lembremos a resposta de Andrew Giuliani quando foi indagado sobre a possibilidade de operações de imigração nos jogos: “O presidente não descarta nada.” Para um haitiano recém-destituído de seu status legal, essa frase tem o peso de um decreto fatal.

A ironia se adensa quando lembramos que o treinador da seleção haitiana, o francês Sébastien Migné, admitiu nunca ter estado no Haiti. Esse fato foi citado pelo próprio Giuliani para minimizar o impacto do travel ban sobre os haitianos, como se provasse que os próprios torcedores não precisam estar presentes aos jogos nos Estados Unidos. A lógica revela algo importante sobre a maneira como o governo Trump enxerga esta Copa: como um evento de países e seleções, não de povos. Os times podem vir. As pessoas não necessariamente.

Para o Brasil, o jogo contra o Haiti nesta Copa carrega um significado que vai além do futebol. Os dois países compartilham uma história complexa. A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil entre 2004 e 2017, foi marcada por abusos contra civis cometidos pelas forças militares brasileiras. Há, portanto, uma responsabilidade histórica em jogo. E há também algo mais imediato: quando o Brasil entrar em campo contra o Haiti, na Filadélfia, diante de torcedores brasileiros, americanos, mexicanos e de dezenas de outras nacionalidades, haverá na arquibancada uma ausência insuportável: a da torcida haitiana. Essa ausência, assim como a dos iranianos, dirá mais sobre o estado do mundo do que qualquer discurso de Infantino sobre a capacidade do futebol de unir as pessoas.

Vale lembrar que Brasil e Haiti já se enfrentaram em circunstâncias igualmente carregadas de simbolismo. Em agosto de 2004, a Seleção campeã do mundo – com Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos – viajou a Porto Príncipe, a capital do país, para disputar o chamado Jogo da Paz, um amistoso organizado no contexto da recém-instalada Minustah. O time foi escoltado do aeroporto ao estádio em blindados das Nações Unidas. Ronaldo entrou no gramado de mãos dadas com duas crianças haitianas. O técnico Carlos Alberto Parreira, que viu o estádio transbordar de alegria apesar de tudo o que o país atravessava, disse depois que só havia testemunhado emoção comparável no desfile do título mundial pelo Brasil.

 

Diante do cenário que se desenhava, seria estranho se a sociedade civil americana permanecesse calada. Não permaneceu. Em dezembro de 2025, na antevéspera do sorteio no Kennedy Center, uma coalizão formada por algumas das mais influentes organizações de direitos humanos e direitos civis dos Estados Unidos publicou um comunicado conjunto pressionando a Fifa a agir. A lista de signatários, embora tida obviamente como woke pelos trumpistas, impressiona: a Aclu (a poderosa União Americana pelas Liberdades Civis), o braço americano da Anistia Internacional, a Human Rights Watch, a NAACP (a mais antiga e mais importante organização de defesa dos direitos da população negra americana), a AFL-CIO (a maior federação sindical do país), a Repórteres Sem Fronteiras e a Athlete Ally, entre outras. “A Copa do Mundo de 2026 é a primeira a começar com critérios de direitos humanos incorporados ao processo de candidatura”, disse Andrea Florence, diretora executiva da Sport & Rights Alliance. “Mas a deterioração da situação dos direitos humanos nos Estados Unidos colocou esses compromissos em risco.”

O comunicado era um catálogo de preocupações que espelhava, ponto por ponto, várias questões já mencionadas: a ameaça de operações do ICE nos estádios, o perfilamento racial de torcedores, a restrição à liberdade de imprensa e a falta de proteção a trabalhadores e comunidades nas cidades-sede. Jamil Dakwar, diretor de direitos humanos da Aclu, foi direto: “O governo Trump tem conduzido uma campanha sistemática antidireitos humanos para perseguir, deter e fazer desaparecer imigrantes em comunidades por todo o país, incluindo em cidades onde a Copa será disputada. Pedimos à Fifa que honre seus compromissos de direitos humanos, não capitule ao autoritarismo de Trump.” Daniel Noroña, da Anistia Internacional, acrescentou uma frase que deveria fazer parte do estatuto da Fifa: “Assistir a uma partida de futebol não deveria jamais resultar em detenção arbitrária ou deportação.”

Em julho de 2025, a pressão ganhou escala. Noventa organizações da sociedade civil americana – incluindo, além das já mencionadas, a RFK Human Rights, o Centro de los Derechos del Migrante e dezenas de sindicatos representando trabalhadores nas cidades-sede – enviaram uma carta formal a Infantino. A carta descrevia em detalhes como as políticas do governo Trump representavam uma ameaça a qualquer pessoa que viajasse aos Estados Unidos ou que já vivesse no país sem documentação completa. As organizações pediam à Fifa que usasse sua influência e seu poder econômico para obter garantias concretas de que o torneio seria um espaço seguro para todos, independentemente de status migratório, nacionalidade ou cor da pele. A resposta da Fifa foi – previsível e compreensivelmente – nenhuma.

A entidade publicou seus planos de ação de direitos humanos para as cidades-sede – documentos burocráticos, repletos de boas intenções e linguagem corporativa – e seguiu adiante. Em Miami, ativistas protestaram em frente ao escritório da Fifa em Coral Gables, pedindo que garantisse a ausência de agentes de imigração nos estádios e que o condado de Miami-Dade redirecionasse os 46 milhões de dólares em subsídios públicos destinados à Copa para as comunidades locais. A Fifa não recebeu os manifestantes.

É possível argumentar que cobrar da Fifa responsabilidade sobre políticas migratórias de um governo soberano é pedir demais a uma entidade esportiva. Mas a própria Fifa, em seus estatutos e em sua política de direitos humanos, aceita a responsabilidade de respeitar os direitos humanos alinhados aos Princípios Orientadores das Nações Unidas. O guia de candidatura para a Copa de 2026 exige explicitamente dos países-sede o compromisso de que o torneio não causará “impactos adversos sobre os direitos humanos internacionalmente reconhecidos”. A Fifa escolheu essas palavras. Agora, quando noventa organizações lhe pedem para honrá-las, a resposta é o silêncio. É a mesma Fifa que criou um Prêmio da Paz, instituiu um Conselho da Paz, abriu um escritório na Trump Tower e cedeu o palco do Kennedy Center para que um presidente acusado de fazer desaparecer imigrantes recebesse um troféu dourado por promover a unidade entre os povos. Essa lista de contradições não é acidental. É o modelo de negócios da entidade.

 

Se o caso do Haiti é o mais cruel desta Copa, o do Irã é o mais paradoxal. Nem um roteirista delirante seria capaz de inventar a sequência de eventos que conduziu a esta situação: o país-sede de uma Copa do Mundo está em guerra com o país de uma das seleções classificadas para o torneio. O mesmo presidente que recebeu o Prêmio Fifa da Paz em dezembro ordenou que bombardeassem o Irã em fevereiro. Aqui há uma gritante contradição, que a Fifa prefere não enfrentar. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, a entidade suspendeu a seleção russa de todas as competições, invocando justamente uma jurisprudência da instituição, que proíbe a participação de países envolvidos em conflitos armados.

Os Estados Unidos, junto com Israel, lançaram ataques aéreos contra o Irã a partir de 28 de fevereiro deste ano, matando o líder supremo Ali Khamenei e, segundo fontes iranianas, mais de mil pessoas nas primeiras semanas. Em que pese o caráter hediondo do regime iraniano, é inevitável o questionamento: se a regra da Fifa de punir com exclusão a nação agressora fosse aplicada com coerência, o país que deveria ser suspenso – ou, no mínimo, questionado – seria o Irã ou os Estados Unidos? Mas ninguém na Fifa sequer mencionou a hipótese, pela razão óbvia de que a entidade jamais se atreveria a cogitar a suspensão do país que sedia o torneio mais lucrativo da sua história.

O Irã, por sua vez, reagiu com indignação. Em 11 de março, o ministro dos Esportes e Juventude, Ahmad Donyamali, declarou à tevê estatal que a participação na Copa era impossível. “Devido aos atos perversos que cometeram contra o Irã – nos impuseram duas guerras em apenas oito ou nove meses e mataram e martirizaram milhares de nossos compatriotas –, definitivamente não é possível participarmos da Copa do Mundo”, disse. As palavras do ministro chegaram horas depois de Infantino ter anunciado, com a habitual satisfação, que Trump lhe garantira pessoalmente que o time iraniano seria “bem-vindo” nos Estados Unidos. Mas, dias antes, o presidente americano havia dito que “não se importava” se o Irã jogasse ou não. A dissonância entre o “bem-vindo” de Infantino e o não me importo de Trump já seria digna de nota em tempos estáveis. Num contexto de guerra, causa ainda mais estranheza.

A seleção iraniana está no Grupo G, com jogos marcados contra a Nova Zelândia e a Bélgica no estádio SoFi, em Inglewood, na Califórnia, e contra o Egito em Seattle, no estado de Washington. Se a desistência se confirmar, será a primeira vez na história que uma seleção classificada abandona uma Copa do Mundo por causa de uma guerra envolvendo o país-sede. As regras da Fifa sobre o que acontece nesse caso são vagas, provavelmente porque ninguém jamais imaginou que fosse necessário prevê-lo. Iraque ou Emirados Árabes Unidos, países que vêm sendo bombardeados pelo Irã em retaliação aos ataques americanos, poderiam ocupar a vaga. Mas, até agora, tudo ainda é bastante incerto. Até o fechamento desta edição, o Irã sinalizava que poderia continuar na competição, caso suas partidas fossem transferidas para o México. E nada impede, claro, que até o pontapé inicial do jogo de abertura Trump tenha se tornado tão próximo do novo aiatolá iraniano quanto é de Kim Jong Um, o ditador da Coreia do Norte.

Mais uma vez, uma dimensão humana desta história, que transcende a geopolítica e o futebol, acaba quase esquecida. Durante a Copa Asiática Feminina na Austrália, de 1ª a 21 de março deste ano, seis jogadoras e um membro da equipe técnica da seleção iraniana pediram asilo humanitário. As jogadoras haviam se recusado a cantar o hino nacional antes do primeiro jogo contra a Coreia do Sul, o que provocou ataques de apoiadores do regime. Trump chegou a dizer que os Estados Unidos concederiam asilo a toda a seleção iraniana se a Austrália não o fizesse – uma declaração que, na sua expectativa, funcionaria como um aceno para a resistência civil do Irã se levantar contra o regime. Ao final, a Austrália ofereceu visto humanitário a todos, mas apenas duas jogadoras ficaram no país. Elas foram vistas treinando em equipes da Liga Australiana.

O caso do Irã expõe, talvez mais do que qualquer outro, o limite da velha promessa de que o futebol é uma linguagem universal capaz de transcender conflitos. Copas do Mundo já foram disputadas durante guerras: as de 1942 e 1946 foram canceladas por causa da Segunda Guerra Mundial, mas desde então nenhuma edição deixou de acontecer. O futebol sobreviveu à Guerra Fria, à Guerra do Golfo, ao Onze de Setembro. Mas jamais o país anfitrião esteve em guerra aberta com um dos participantes enquanto se preparava para recebê-lo. Essa é mais uma das situações inéditas que o governo Trump produz com exaustiva regularidade – e que fazem o bordão “nunca antes na história deste país” soar mais adequado à sua Presidência do que à de Lula.

 

Meu filho Arthur, que agora tem 8 anos e já entende do mundo mais do que eu gostaria que ele entendesse, me perguntou outro dia se o Brasil vai ganhar a Copa. Eu disse que sim, com a convicção irracional que todo pai brasileiro transmite aos filhos como quem passa adiante uma doença hereditária. Arthur então me contou que queria assistir ao jogo do Brasil contra o Haiti com Mickelson, um coleguinha haitiano da escola. Os dois haviam combinado de torcer cada um por seu país e ver quem ganhava. Acontece que, há algumas semanas, Mickelson sumiu. De um dia para o outro, deixou de aparecer na escola. Arthur quer saber para onde o amigo foi. Eu não sei o que responder, mas posso imaginar perfeitamente o que aconteceu.

Meu pai, como escrevi no texto de despedida de Pelé publicado na piauí (O rei que o Brasil não soube venerar, piauí_197, fevereiro de 2023), tinha um afiado sentimento histórico. Foi ele quem me acordou, quando eu estava com 4 anos de idade, para assistir ao homem pisar na Lua. Infelizmente, não me levou ao Maracanã para ver o milésimo gol de Pelé nem a despedida do Rei da Seleção Brasileira. Cresci com a sensação de ter perdido algo imenso. Agora, às vésperas de uma Copa do Mundo em que o entorno é tão ou mais importante que o jogo, me pergunto se a atitude correta é levar meu filho ao estádio – para que ele tenha uma memória que eu não pude ter – ou mantê-lo em casa, para que não carregue outras memórias, possivelmente ruins. Meu pai errou ao me deixar em casa? Eu erraria ao levar Arthur?

Não tenho resposta. Mas sei que, se formos ao jogo, o assento ao lado do Arthur estará vazio. Mickelson não estará lá. Grande parte da torcida do Haiti também não. E esse vazio, num estádio que deveria estar forrado de gente celebrando a coisa mais importante entre as menos importantes, será, como diria Belchior, o quadro que dói mais. Será um retrato fiel da Copa do Mundo da Fifa e de Trump. Mas não de nós, os torcedores, como deveria ser.

Marcos Caetano

Cronista, é especialista em comunicação e comentarista esportivo

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