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    Pesquisador do IBGE em Camburi, São Paulo: para o presidente Marcio Pochmann, o órgão é “super fechado”, com 940 cargos de confiança, mas só 19 que podem ser preenchidos por gente de fora CRÉDITO: RICKY JOSÉ NETTO_ACERVO IBGE_2023

arquivos estatísticos

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A crise do IBGE, o apagão de dados e a aflição de milhares de demógrafos e pesquisadores

Beatriz Bulla | Edição 230, Novembro 2025

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Parecia até um milagre: no dia 23 de setembro de 2024, finalmente, depois de um silêncio interminável, a direção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) convocou uma reunião com os especialistas da Comissão Consultiva do Censo Demográfico de 2022. A convocação, feita por e-mail, agitou o grupo de WhatsApp dos catorze especialistas. Afinal, seria a primeira reunião desde que o economista Marcio Pochmann assumira a presidência do órgão, mais de um ano antes. A equipe dos catorze até suspeitava que a Comissão Consultiva tivesse sido extinta, dada a falta de contato. Além disso, o mundo dos estatísticos, dos demógrafos, dos economistas, dos pesquisadores e dos consultores estava ansioso pela divulgação dos microdados do Censo, como são chamadas as informações mais minuciosas do levantamento. Coletados entre agosto de 2022 e março do ano seguinte, esses dados – uma massa de informações capazes de orientar uma montanha de pesquisas e análises – ainda continuavam na gaveta, provocando uma paralisia nos estudos país afora.

Às 14 horas do dia 3 de outubro, Pochmann abriu a reunião virtual com uma fala protocolar que durou cinco minutos – e deixou o encontro. A maioria dos especialistas, que discutem o Censo com grande profundidade, ficou decepcionada, mas a reunião prosseguiu sob o comando da estatística Elizabeth Hypólito, diretora de Pesquisas do IBGE havia sete meses. O assunto central logo entrou em pauta: era preciso definir um calendário para a divulgação dos microdados do Censo. O apelo foi ouvido, mas o calendário de divulgação só foi anunciado seis meses depois, em 28 de março passado. Não deixava de ser uma vitória. Os microdados, de acordo com o calendário, seriam publicados no terceiro trimestre deste ano. A vitória, no entanto, revelou-­se vã. O terceiro trimestre terminou no fim de setembro – e, até o fechamento desta reportagem no fim de outubro, os microdados não haviam sido divulgados.

Em julho, o demógrafo Bernardo Lanza Queiroz passava por uma temporada de pesquisas em Oslo, na Noruega, mas sua pesquisa sobre oferta de trabalho para pessoas de mais de 60 anos seguia parada à espera dos microdados do Censo de 2022. Os indícios colhidos inicialmente indicavam um aumento de oferta para alguns grupos de idosos, mas a prova só podia ser obtida se tivesse acesso à massa bruta dos dados. Na Universidade de Campinas, a doutora em demografia Glaucia Marcondes, que coordena o Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo), enfrentava a mesma dificuldade. Ela não conseguia responder a uma pergunta aparentemente simples: as pessoas têm, de fato, se casado menos nesta década? Os números de registros civis podem ser enviesados e passar uma ideia distorcida, pois nem toda união é oficializada. Para um retrato mais próximo da realidade, Marcondes ainda aguardava os microdados que continuam na gaveta. “Para o pesquisador, Censo é sinônimo de microdados”, afirma José Irineu Rigotti, professor de demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Temos alunos de doutorado e mestrado que tiveram que reformular pesquisas, porque o Censo não chegou a tempo.”

 

Não é só a comunidade acadêmica que fica sem respostas na ausência do Censo. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública precisa adaptar seu trabalho para fazer as publicações de referência nacional que costuma produzir, como o Atlas da Violência e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. “A ausência dos microdados atrasa uma agenda de análise intramunicipal que refina pesquisas”, afirma Renato Sérgio de Lima, diretor-­presidente da organização. Ele exemplifica: não dá para calcular, por exemplo, o tamanho da população negra em regiões dentro das cidades – e, portanto, estabelecer como a raça se relaciona com a segurança em um bairro ou localidade. “É um ponto de partida que dificulta um retrato mais detalhado sobre a realidade socioeconômica e afins”, diz Lima.

Diretores de institutos de pesquisa de opinião pública também reclamam que a falta de dados interfere na elaboração dos levantamentos, já que as amostras da população estão desatualizadas. Há, também, um impacto notável na elaboração de políticas públicas, pois os microdados são usados para nortear o destino de recursos públicos. Exemplo: o Censo ajuda o governo a elaborar uma política de saúde focada em crianças mais sujeitas a contrair dengue, pois os microdados vão informar onde essas crianças estão. Em outro exemplo, uma prefeitura, com base em microdados, pode projetar a demanda por vaga na rede municipal de creches. Sem esses dados, o gestor público é forçado a usar informação velha – do Censo de 2010 – ou informação de outras pesquisas amostrais, que são menos precisas.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), por exemplo, que acompanha as flutuações da força de trabalho e outros dados socioeconômicos, tem dados por estados e regiões metropolitanas, mas não por municípios. Só os microdados do Censo permitem fazer conexões mais amplas, juntando informações, digamos, sobre domicílio, família, educação, mercado de trabalho. “Já estamos preparando o Censo de 2030 e ainda não saíram os dados de 2022. O dado novo já nascerá velho”, lamenta José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE. Diniz Alves, que estuda religião, explica que, sem os microdados, não pode cruzar religião com emprego e renda, por exemplo. Nem fazer o recorte das diversas denominações dentro de uma mesma religião. Assim, não se sabe a fatia da população evangélica que se define como pentecostal.

 

O incômodo com a falta dos microdados era tal que os técnicos resolveram divulgar dados por temas. Enquanto o material geral não ficava disponível, pelo menos alguns setores seriam nutridos com as informações do Censo, ainda que limitadas. O fatiamento por temas já foi feito em Censos anteriores, mas, desta vez, precisou ser intensificado. A iniciativa começou ainda na gestão de Cimar Azeredo Pereira, presidente interino do IBGE nos primeiros seis meses do governo Lula. De lá para cá, já houve trinta divulgações temáticas. Saíram dados sobre os indígenas, composição racial, comunidades quilombolas. Entre as novidades, a população foi informada que o Centro-Oeste teve o maior crescimento populacional entre as regiões brasileiras, que o número de imigrantes voltou a crescer – o que não acontecia desde 1960 – e que, em 2022, pela primeira vez as mulheres passaram a chefiar quase metade dos domicílios. Também foi possível saber que mais de 75% das pessoas formadas em medicina são brancas e que a maior parte da população do Brasil se autodeclarou parda em 2022.

“Essas divulgações intermediárias causam muito alvoroço e muita mídia, mas são limitadas, porque trazem dados com poucas variáveis”, diz Cássio Turra, professor de demografia da UFMG e um dos integrantes da Comissão Consultiva do Censo. “É quando saem os microdados que temos liberdade para botar a mão na massa”, reitera a demógrafa Glaucia Marcondes, da Unicamp.

 

O Censo Demográfico 2022 tornou-­se uma crônica do descaso. Pelas boas práticas, o Censo deve ser feito a cada década, nos anos terminados em zero – uma convenção internacional que ajuda na comparação dos dados entre países. No Brasil, o levantamento foi devidamente realizado em 1940, 1950, 1960, 1970 e 1980. Em 1990, o governo Fernando Collor não liberou dinheiro a tempo e o IBGE foi forçado a adiar o censo para o ano seguinte, quebrando a série histórica. De lá para cá, nos anos 2000 e 2010, voltou-se à normalidade.

 

Os resultados iniciais do Censo de 2010, realizado sob o governo Lula, foram divulgados em novembro do mesmo ano. Os microdados saíram dezessete meses depois, em abril de 2012. Naquela ocasião, pela primeira vez os recenseadores usaram tablets nas entrevistas com a população, aposentando os registros em papel. A agilidade na divulgação dos dados foi comemorada e o avanço tecnológico parecia prenúncio de tempos melhores. Até que, em 2020, o governo Jair Bolsonaro adiou o levantamento em razão da pandemia, ainda que muitos outros países tenham realizado o levantamento sob a Covid. No ano seguinte, o Congresso aplicou um corte de mais de 97% nas verbas para o Censo. O então ministro da Economia, Paulo Guedes, não se empenhou em reverter o desastre, e Bolsonaro adiou o levantamento de novo. Assim, o Censo só começou em 2022 e, ainda por cima, apenas porque o Supremo Tribunal Federal obrigou o governo a fazê-lo.

E foi uma sucessão de trapalhadas. A verba era curta e a coleta dos dados demorou mais do que o projetado. Com salários baixos, houve casos de recenseadores abandonando os postos no meio do trabalho. Além disso, Bolsonaro estava em guerra com o IBGE. Quando o instituto divulgou dados mostrando que a taxa de desemprego havia subido e a população subutilizada estava batendo recordes, Bolsonaro não gostou dos números e colocou em dúvida a credibilidade do instituto. “É uma coisa que não mede a realidade, parece que são índices feitos para enganar a população”, disse. Não foi a primeira e nem seria a última vez que Bolsonaro criticou a metodologia do IBGE. (O recurso de culpar o mensageiro é clássico. Em agosto passado, Donald Trump, irritado com os maus números sobre desemprego, disse que os dados haviam sido “manipulados” para prejudicá-lo e demitiu a responsável pelo levantamento. Erika McEntarfer estava no cargo havia quase dois anos.)

Com o objetivo de promover a destruição de instituições que não atendiam aos seus interesses, Bolsonaro tentou jogar os seus apoiadores contra o IBGE. Assim, os recenseadores do Censo de 2022 tiveram dificuldades adicionais para entrevistar os cidadãos, que se recusavam a recebê-los. A demora na coleta dos dados gera problemas nos resultados porque os entrevistadores usam uma data de referência nas perguntas. É preciso perguntar, por exemplo, qual era a renda daquela família numa data estabelecida – e não no momento da entrevista. Quanto mais longe do início da coleta e da data de referência, menos precisa é a resposta do entrevistado, que frequentemente não se lembra das informações com exatidão.

Além disso, há especialistas que criticam o desenho do Censo de 2022. Os dois questionários usados – o básico, aplicado para toda a população, e o ampliado, feito apenas com uma amostra dos brasileiros – são diferentes dos utilizados no Censo anterior, de 2010. Há uma lista menor de perguntas e, em alguns casos, a formulação delas foi alterada, o que pode dificultar a comparação. Entre os especialistas, a leitura comum é de que em 2022 se fez o “censo possível” – não o melhor, mas aquele que estava ao alcance da mão.

Para coroar as trapalhadas, o principal dado do Censo foi questionado. Em dezembro de 2022, o IBGE divulgou que a prévia do Censo indicava um número bem inferior à projeção feita no ano anterior. Em vez de 213,3 milhões de habitantes, o país agora tinha 207 milhões. As prefeituras, que dependem do dado populacional para definir sua fatia dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios, questionaram a queda. Então, o Tribunal de Contas da União teve que definir os critérios de distribuição do dinheiro. Em junho de 2023, veio outra surpresa quando o IBGE divulgou os primeiros resultados oficiais do Censo. Descobriu-se que, em 2022, a população não somava nem 207 milhões, nem 213,3 milhões, mas 203 milhões. (O IBGE projeta que a população brasileira neste ano é de 213,4 milhões.)

Apesar dos ataques de Bolsonaro, os ibgeanos, como os servidores do instituto se autodenominam com orgulho, conseguiram resistir às tentativas de desmonte. “É fantástico que tenhamos conseguido fazer o Censo, com todas as limitações que aconteceram”, celebra Laura Wong, demógrafa da UFMG. Com a posse do presidente Lula em 2023, os ibgeanos se empolgaram. Em campanha, Lula prometera recuperar as instituições fragilizadas e retomar os concursos públicos, cuja ausência vinha desidratando o quadro de servidores de vários órgãos. O IBGE era um caso simbólico. Do impeachment de Dilma Rousseff em 2016 até que Lula nomeasse um presidente efetivo, em agosto de 2023, o instituto teve cinco presidentes.

Mas a esperança dos ibgeanos com a ascensão de Lula não durou muito. “Aí, temos o Censo, mas não temos os dados”, lamenta Laura Wong. Já se passaram 27 meses sem que os microdados sejam publicados. “As duas grandes razões para esse atraso são uma equipe pequena e um Censo que precisa muito passar pelo processo técnico da crítica para extrair dados razoáveis”, diz o engenheiro Roberto Olinto, que presidiu o IBGE entre junho de 2017 (no governo Temer) e fevereiro de 2019 (no início do governo Bolsonaro). A avaliação crítica do Censo não é um processo trivial: tem etapas técnicas bem definidas para eliminar inconsistências e qualificar os dados.

Olinto acrescenta o que acredita ser outra razão para a demora: um presidente com ideias e estilo de gestão que ampliam a crise pela qual passa o IBGE. O estatístico Antônio Tadeu Oliveira, que trabalhou no IBGE por 43 anos até sua aposentadoria em 2023, avalia que, desta vez, o problema do instituto não está em Brasília, mas dentro de casa. “A direção do IBGE lavou as mãos para o Censo”, diz ele, em referência ao presidente Marcio Pochmann. “A sensação que eu tenho é que ele [Pochmann] não quer colocar as mãos num paciente que está sangrando. Ele cria ideias mirabolantes quando não dá conta do principal, do básico.”

 

Joia da burocracia brasileira, o IBGE, em seus quase 90 anos de existência, montou uma competente série histórica radiografando o país, avançou em suas técnicas, reuniu um corpo técnico altamente qualificado e alinhou-se entre as melhores agências estatísticas do mundo. Na sua história, sofreu várias tentativas de interferências políticas, mas conseguiu resistir. “Isso porque o IBGE tem uma burocracia que não só é muito qualificada e tem autonomia, mas também porque tem laços muito fortes com a sociedade, com o mercado, com os organismos internacionais, com a academia, com a imprensa”, diz Gabriela Lotta, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e referência nos estudos sobre governo e burocracia. “É uma organização que cria uma identidade funcional de maneira impressionante.”

No entanto, o IBGE encontra-se em um estado de penúria e descaso faz anos. A lenta desidratação – de funcionários, de orçamento – é especialmente grave numa era em que informação é um ativo essencial e o próprio tempo estatístico, com as novas tecnologias, se acelerou brutalmente. Com isso, o IBGE está começando a ser superado por seus similares em outros países da América Latina, como o México e a Colômbia.

Desde a posse de Pochmann em agosto de 2023, o instituto virou um caldeirão em ebulição. O corpo técnico se sente alijado das decisões estratégicas e define a gestão atual como “autoritária e desestruturante”. A piauí ouviu trinta pessoas, entre servidores, integrantes da Comissão Consultiva do Censo, demógrafos, usuários de dados do IBGE, especialistas em administração pública, ex-presidentes do IBGE e integrantes do governo Lula. A maioria, sobretudo servidores da ativa, pediu para não ser identificada com receio de sofrer represálias internas, mas há um diagnóstico mais ou menos comum: o IBGE atravessa uma crise aguda e o atual comando não vem contribuindo para as soluções. “Eu vejo o IBGE, na parte de recursos humanos, dentro de um abismo”, diz a demógrafa Suzana Cavenaghi, que integra a Comissão Consultiva do Censo.

A escassez de servidores continua grave. Em 2010, o IBGE contava com 7 mil funcionários efetivos para fazer a operação censitária daquele ano. Agora, tem metade disso, de acordo com o Assibge, o sindicato nacional da categoria. Entre 2016 e 2024, deu-se um notável esvaziamento em razão da ausência de concurso público para preencher as vagas abertas por pedidos de aposentadoria e transferências de servidores para outros órgãos. No ano que vem, haverá concurso para preencher 9 580 vagas, mas são todas temporárias. “O IBGE tem contratado mão de obra temporária para atividades permanentes. É um problema que pode afetar a qualidade porque são trabalhadores que têm rotatividade. Além disso, gera uma espécie de fratura dentro do órgão. Tem servidores que têm direitos e outros que não têm”, diz Elvis Vitoriano da Silva, diretor do Assibge. “O que temos visto nos últimos anos, e a atual gestão não tem sido diferente, é uma espécie de naturalização desse processo.”

No ano passado, o governo Lula abriu o Concurso Público Nacional Unificado para preencher 6 640 vagas em 21 órgãos públicos. No caso do IBGE, o concurso contemplou apenas 895 postos de trabalho. Mais tarde, abriram outras 88 vagas. Somando-se tudo, dá 983 novos postos permanentes, o que é apenas pouco mais do que o número de servidores do instituto que podem se aposentar neste ano – 903. Para piorar, os servidores reclamam que a atual gestão planeja alocar parte dos novos servidores para a própria presidência, e não para as áreas técnicas. (A direção do IBGE diz que esses servidores serão encarregados de desenvolver o novo Sistema Nacional de Geociências, Estatística e Dados, o Singed, ambicioso projeto que pretende reunir as bases de dados oficiais de diferentes órgãos.)

A maior crise da gestão de Pochmann começou em julho de 2024, com a ideia de criar a IBGE+, uma fundação que passaria a captar dinheiro junto à iniciativa privada para financiar as pesquisas do instituto. Era uma forma de contornar as limitações orçamentárias, mas os servidores dizem que só ficaram sabendo da novidade em setembro daquele ano – e a crise então ganhou uma dimensão pública. De início, os servidores se colocaram contra a ideia, com receio de que o financiamento privado da IBGE+ comprometesse a independência dos levantamentos estatísticos. Achavam que o Conselho Diretor da fundação não tinha uma composição equitativa e não queriam que o novo órgão usasse a sigla IBGE em seu nome, de modo a imunizar o instituto de eventuais escândalos e parcerias duvidosas.

Mais tarde, já no início deste ano, dezenas de chefes e servidores do IBGE assinaram uma carta aberta na qual acusaram a gestão de Pochmann de ter um “viés autoritário, midiático e político”. Em outra carta, divulgada dias depois, os funcionários denunciaram que o presidente usava os canais de comunicação oficial do instituto para se autopromover. A proposta de captar recursos privados para ajudar a financiar o IBGE não era nova. Quando presidiu o instituto entre 1994 e 1998, no governo de Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo Simon Schwartzman cogitou uma solução na mesma linha, mas não conseguiu tirá-la do papel. “Não tive apoio do governo, nem dos funcionários. Então, eu desisti”, relembra Schwartzman.

Pochmann também fracassou no mesmo ponto. Entre o fim de 2024 e o início de 2025, o governo Lula estava acuado por pressões da oposição, sua taxa de popularidade caía, o preço dos alimentos subia e os bolsonaristas emplacavam a narrativa de que o governo queria taxar o Pix. Os bolsonaristas Rogério Marinho (RN) e Gustavo Gayer (GO) entraram com representação no Tribunal de Contas da União para barrar a criação da Fundação IBGE+, e a direita começou a chamar o novo órgão de “IBGE paralelo”, de modo a sugerir algum tipo de manipulação oculta. O governo sentiu cheiro de fumaça e preferiu evitar um incêndio maior.

Com aval do Palácio do Planalto, o Ministério do Planejamento, comandado por Simone Tebet, foi encarregado de avisar Pochmann que a criação da Fundação IBGE+ precisava ser suspensa. “Mas se a ideia é boa, por que suspender, companheiro?”, insistiu Pochmann, numa reunião em que tentaram demovê-lo da ideia. Não adiantou. No dia 29 de janeiro, depois de uma reunião com a ministra Simone Tebet e João Villaverde, secretário de Articulação Institucional do Planejamento, Pochmann cedeu e uma nota oficial foi divulgada anunciando a “suspensão temporária” da Fundação IBGE+.

À piauí, Pochmann falou sobre o aspecto positivo da crise. Disse que o IBGE está passando por uma “transformação profunda” e que as críticas fazem parte do ambiente democrático. Mudanças deste porte no sistema estatístico nacional, segundo ele, só ocorreram antes em períodos autoritários, nunca na vigência do regime democrático. “As pessoas podem falar mal, não tem problema. Se estão falando é porque alguma coisa está ocorrendo na casa”, disse. “Isso é ótimo, estamos vivendo um momento estratégico, precisamos repensar a casa.”

Em meio à crise da fundação que nunca saiu do papel, surgiu outra confusão que ajudou a agitar o funcionalismo: a mudança da sede da instituição do Centro para o Horto Florestal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, outra decisão, segundo os servidores, tomada às pressas, sem diálogo e sem levar em conta as dificuldades de acesso, em especial para servidores que moram na Baixada Fluminense. A mudança, de acordo com Pochmann, representará uma economia de 15 milhões de reais anuais em aluguel no prédio atual. Como tudo o que diz respeito ao IBGE nos últimos tempos vira polêmica, a mudança incendiou o ambiente depois de um encontro público de Pochmann com o então ministro da Previdência Social, Carlos Lupi.

No encontro, transmitido online, Lupi disse que havia oferecido um prédio para o IBGE ocupar no Centro do Rio. “O teu pessoal não foi ver o que eu te ofereci, tem um prédio inteiro ali na Pedro Lessa, nº 36. Você me disse que tinha interesse em ir para lá, ocupar uma parte do espaço físico, lembra? Ninguém se movimentou, não, viu? Queixa pública”, disse Lupi. O prédio da Rua Pedro Lessa fica a uma caminhada de dez minutos da atual sede do IBGE. Pochmann ouviu a queixa de cabeça baixa. Quando tomou a palavra, já perto do final do evento, disse que o prédio não servia porque demandava reformas de 100 milhões de reais. Lupi rebateu. Disse que não estavam falando do mesmo imóvel. A reunião acabou.

Além da mudança de endereço e do caso da Fundação IBGE+, Pochmann aposta suas fichas no Singed, a unificação das bases de dados oficiais. Ele já disse que o Singed dará ao país “soberania de dados” e permitirá ao governo criar “políticas públicas preditivas”. Para viabilizar o projeto, Pochmann assinou um contrato de 76 milhões de reais para dispor dos serviços do Serpro, a empresa de processamento de dados do governo – um negócio que, para os servidores, foi pouco transparente. Diz Alexandre Amorim, presidente do Serpro: “Conseguimos possibilitar que as duas organizações, com duas bases de dados, com duas formas de trabalhar, produzam um pensamento crítico, informações críticas, para elaborar políticas públicas. É um processo de modernização da máquina pública, do IBGE e do papel do Serpro, que vem sendo esse guardião das informações, mas também desenvolve uma infinidade de soluções para o governo federal e para o cidadão.”

Se os projetos derem certo, Pochmann pode emplacar a maior mudança feita no IBGE nas últimas décadas. Terá impacto no que o instituto faz, para que serve, como se financia e como se organiza internamente. Em seu discurso de posse, numa cerimônia que contou com a presença de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin, Pochmann já fez menção ao projeto do Singed. “Estamos diante de um novo mundo, um novo Brasil, um novo IBGE”, disse.

A comunidade dos ibgeanos – técnicos, especialistas, sindicalistas – se divide entre os que defendem e os que criticam as propostas de Pochmann, mas são unânimes em reclamar da falta de debate interno. “Todos os novos projetos do IBGE foram sempre discutidos e debatidos não só com especialistas, mas com os ministérios, as universidades, os centros de pesquisa, o mercado, os usuários dos dados. E isso não está acontecendo. Não tem debate para fora e não tem debate para dentro”, diz Wasmália Bivar, que presidiu o instituto de 2011 a 2016. “Você tem que ir convencendo as pessoas, trazendo elas junto. Não adianta brigar. Resistência à mudança sempre vai existir, mas as pessoas precisam ser convencidas.”

 

Quando a estatística Elizabeth Hypólito comandou a reunião com os catorze especialistas da Comissão Consultiva, em outubro passado, a relação entre os servidores e Pochmann já havia desandado. Meses depois do encontro virtual, começou uma dança das cadeiras que mais parece uma sangria de cérebros. Hypólito, a diretora de Pesquisas, pediu demissão da sua função e foi acompanhada pelo seu diretor-adjunto, João Hallak. A geógrafa Ivone Batista também deixou a diretoria de Geociência junto com sua diretora-adjunta, Patricia do Amorim Vida Costa. Desde a posse de Pochmann, foi a segunda mudança em duas diretorias fundamentais para o IBGE.

No mesmo mês, houve novas trocas. O administrador e servidor aposentado Marco Cicero Maciel, que chegou a ocupar o cargo de diretor executivo da Fundação IBGE+ durante a breve existência dela, e o estatístico e demógrafo Tadeu Oliveira, que também estava no conselho da fundação, pediram exoneração. Todos os seis haviam sido indicados para aquelas funções relevantes pelo próprio Pochmann e eram, no princípio, seus aliados. “Há uma frustração gigantesca da burocracia federal que resistiu no governo Bolsonaro quanto à falta de apoio que essa gestão tem dado, não só ao IBGE”, diz Gabriela Lotta. “Se esperava que a volta de um governo petista fosse retomar algumas práticas anteriores, como nomear um quadro interno para presidir o órgão e reconhecer que a burocracia tem autonomia, é capaz, segurou a onda, protegeu o órgão.” (Em todos os mandatos anteriores, Lula e Dilma escolheram um servidor de carreira para comandar o IBGE. Pochmann é a exceção.)

No Conselho Diretor do instituto, o órgão mais alto na hierarquia, Pochmann também nomeou pessoas de fora do IBGE. Das seis cadeiras, três vieram de fora na configuração atual: Marcos Mazoni, diretor de Tecnologia da Informação, presidiu o Serpro; José Daniel Castro da Silva, coordenador-geral do Centro de Documentação e Disseminação de Informações, trabalhou no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com Pochmann; e Jorge Abrahão de Castro, coordenador-geral da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, também foi colega de Pochmann no Ipea e, como ele, é doutor em economia pela Universidade de Campinas. (A piauí tentou ouvi-los, mas eles não responderam ao contato.) Pochmann é um defensor da entrada de quadros externos. Para ele, o IBGE é um órgão “super fechado” e que, de 940 cargos de confiança, só dezenove podem ser preenchidos com gente de fora. Destes, de acordo com ele, só seis, incluindo ele próprio, não são servidores de carreira do instituto.

 

No dia 14 de outubro, Marcio Pochmann recebeu a piauí na sala da presidência do IBGE, um escritório com mobiliário de madeira escura e vista para o Pão de Açúcar, no décimo andar de um prédio antigo no Centro do Rio de Janeiro. “Eu cheguei aqui e não tinha ninguém nesse prédio”, começou ele. “Tinha uma anomia na casa. Não tinha com quem conversar, não tinha plano de trabalho.” Ele reconhece que a demora na divulgação dos microdados do Censo está indo longe demais, mas tem suas explicações.

Segundo ele, há quatro fatores que contribuem para o estado atual: a instabilidade na gestão do IBGE, com as trocas sucessivas no comando do órgão; o esvaziamento do instituto em razão da falta de concursos públicos e ausência de recomposição salarial; o atraso tecnológico do órgão imposto pela austeridade econômica. “O quarto fator é que quando chegamos aqui, nos deparamos com um questionamento ao Censo”, diz ele, fazendo referência à contagem populacional que gerou protestos por parte das prefeituras.

“O Censo é válido, foi feito com o que havia de possibilidades naquele momento, mas a produção das suas informações tem a ver com a forma com que os dados chegaram. E, da forma como eles chegaram, é preciso ver a melhor consistência possível, para divulgar o que é possível ser divulgado”, diz. “Esperamos comprometer um certo tempo para divulgarmos uma informação precisa.” Na conversa com a piauí, ele não previu uma data de divulgação, mas ponderou que talvez possa avançar até 2026.

Pochmann afirma que tem trabalhado para melhorar a estrutura do IBGE e comemora um incremento orçamentário, a recomposição salarial a servidores e o concurso já realizado. Reconhece, no entanto, que são ganhos pequenos dado o contexto ainda precário em que o instituto opera. Segundo ele, o orçamento do IBGE correspondia a 0,32% do orçamento federal em 1986. Em 2023, a fatia caiu para 0,04% do orçamento e, recentemente, subiu para 0,05%. Mesmo admitindo essas dificuldades, Pochmann rejeita a ideia de que há uma crise no instituto e diz que hoje preside um IBGE melhor do que aquele que encontrou.

Para ele, a transformação do instituto está apoiada em três pilares: aumentar a escala da capacidade de processamento de dados (onde entra a parceria com o Serpro); o uso de uma inteligência artificial nacional para trabalhar os dados; e o uso de “estatísticas experimentais”.

Ele defende que o Censo de 2030 não seja realizado “da maneira tradicional” e diz que o censo agropecuário, por exemplo, poderá usar uma espécie de formulário “pré-preenchido” a partir de registros administrativos. “Temos que estar cada vez mais adequados às exigências contemporâneas para as políticas públicas”, afirma.

Pochmann minimiza as críticas ao seu modo de gerir o instituto e até questiona a legitimidade de seus críticos – o que, até agora, só tem gerado mais animosidade contra a sua figura. Ele diz que os servidores que reclamam são um grupo pequeno, mas barulhento. Diz que “a imprensa gosta de ouvir ex-presidentes que nem conseguiram ficar um ano na casa”. E não esconde a mágoa pelo tratamento que a imprensa lhe dá. “Desde o anúncio da minha nomeação, como é que a imprensa se comportou? Recupera lá. Que eu vou manipular preços, vou alterar estatísticas, você vai ver, só tem avaliação negativa, eu já cheguei assim.”

Sentado à mesa de reuniões de sua sala, Pochmann então se virou para trás e alcançou uma estante de livros, de onde tirou duas brochuras com registro dos encontros com servidores realizados desde que chegou à presidência do IBGE. “É uma gestão democrática, transparente, participativa”, afirma. A piauí voltou aos funcionários críticos para ouvi-los sobre esses encontros. Eles concordam que existiram os encontros, mas dizem que foram pró-forma.

Em outubro, aconteceu a reação mais recente de servidores contra Pochmann. Gerentes e diretores assinaram uma carta contra alterações no estatuto do órgão, propostas pela direção. A minuta do novo estatuto, segundo os funcionários, “concentra o fluxo decisório no topo da hierarquia, na figura do presidente ou de seu substituto, o diretor-geral, reduz a autonomia técnica ao transformar suas atividades em um bloco monolítico e extingue a gestão colegiada ao rebaixar o Conselho Diretor a um órgão meramente consultivo”. Para Pochmann, a discussão do estatuto com a casa é uma prova de que sua gestão é democrática.

 

Na ausência dos microdados tão esperados, a divulgação setorial do Censo de 2022, iniciada na gestão anterior à de Pochmann, continuou em frente. Era uma forma de aliviar a falta da massa bruta dos dados. A divulgação passou a ser feita em diferentes cidades, e não mais apenas no Rio de Janeiro, sede do órgão, como sempre acontecia. A ideia de regionalizar a divulgação era também um meio de tentar neutralizar o efeito da campanha anti-IBGE de Bolsonaro, que levou muitos brasileiros a se recusarem a responder às pesquisas do instituto. O censo dos quilombolas foi divulgado em Brasília. O censo indígena, em Belém. O racial, já com Pochmann recém-empossado, no Pelourinho, em Salvador.

Em seguida, Pochmann passou a privilegiar aliados políticos na escolha dos locais de divulgação, e o evento começou a se estender por duas horas. Na primeira metade, os dados eram apresentados por diretores do IBGE. Na segunda, davam-se os discursos políticos das autoridades regionais convidadas para a cerimônia. A aparente politização dos encontros começou a gerar incômodo entre os servidores. Na região do Grande ABC, berço do sindicalismo que projetou Lula nacionalmente nos anos 1970, Pochmann divulgou um recorte do Censo sobre as características dos domicílios brasileiros, com detalhes sobre o acesso à rede geral de água e esgoto. Nesta divulgação, o país soube que a fatia de brasileiros que moravam em apartamentos passou de 8,5% em 2010 para 12,5% em 2022. Das 55 autoridades anunciadas pela cerimonialista no evento, 27 tinham cargos na administração do prefeito de Diadema, o petista José de Filippi Júnior, que disputava a reeleição (e acabou perdendo).

Em uma sociedade democrática, diz a pesquisadora Ana Lídia Santana Schroe­der, mestre em direito pela FGV e autora de uma dissertação sobre a autonomia do IBGE, o acesso irrestrito aos dados sobre quem somos, quantos somos e como estamos não é apenas uma demanda técnica de demógrafos, é também um direito social dos cidadãos. “Isso garante reprodutibilidade, auditoria independente e escrutínio público, reduzindo os riscos de manipulação política ou de seleção conveniente de indicadores”, diz. Neste campo, como em tantos outros, quanto mais informação e mais transparência, melhor para o país.

Beatriz Bulla
Beatriz Bulla

É jornalista, apresentadora do programa É Notícia, na RedeTV!, e do canal Amado Mundo. Foi correspondente do Estadão nos Estados Unidos.

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