Vila da Barca: obras de saneamento e macrodrenagem, um grande problema em Belém, foram realizadas para a COP, mas “vários dos projetos são de qualidade ruim”, diz o urbanista Lucas Nassar CRÉDITO: DANIEL KONDO_2025
A versão dos afogados
A distribuição desigual de ônus e bônus nas intervenções da COP
Roberto Andrés, de Belém | Edição 230, Novembro 2025
A vista da janela das casas à entrada da Vila da Barca, em Belém, amanheceu diferente. Da noite para o dia, brotaram tapumes em volta do terreno do antigo Curtume Americano, um edifício histórico abandonado ao lado da praça principal. Isso foi em março deste ano, quando faltavam oito meses para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a COP30, na cidade. A Vila da Barca é uma ocupação popular no bairro do Telégrafo que remonta ao início do século XX, quando a migração vinda do campo se intensificou com a crise da borracha. Sobre palafitas, as casas avançaram pelo terreno pantanoso às margens da Baía do Guajará.
A maior parte do bairro nunca tivera tratamento de esgoto. Para um olhar apressado, a sinalização sobre os tapumes poderia significar uma notícia boa. Afinal, a placa indicava que seria construída uma estação elevatória – um sistema que bombeia o esgoto interceptado para a estação de tratamento a um nível altimétrico superior. Seria o tão sonhado saneamento básico chegando sem aviso prévio? Um detalhe indicava que não: nas plotagens que envelopavam os tapumes estava escrito “Sistema de Esgotamento Sanitário da Doca”.
A Doca é um igarapé que divide os bairros Reduto e Umarizal, onde os preços dos imóveis estão entre os mais altos da cidade. O Canal da Doca foi revitalizado pelo governo do estado no contexto da preparação para a COP. No artigo Vai ter COP, publicado na piauí_211, abril, relatei que a obra foi apresentada em nível de estudo preliminar, mas já com o orçamento de 316 milhões de reais – algo incomum em intervenções do tipo, que necessitam de projeto executivo para produzir o orçamento. Tocada em ritmo acelerado, a intervenção estava praticamente concluída quando retornei à cidade em setembro passado. As imagens de jardins, ciclovias e espaços públicos às margens do canal tornaram-se corriqueiras nas propagandas da COP. A maior polêmica do projeto foi a instalação de árvores artificiais (estruturas de ferro em formato cônico para sustentar trepadeiras). Pegou mal em uma cidade entranhada na Floresta Amazônica.
Mas isso acabaria sendo folclore perto da contradição que viria à tona naquele início de março. O que se descobria é que o sistema de esgoto do Canal da Doca não incorporava a estação elevatória na própria região, mas a transferia para a entrada da Vila da Barca, a 1,5 km de distância. Em resumo, o cocô dos ricos faria um pit stop no coração do bairro dos pobres antes de ser enviado à estação de tratamento. Ou, como disse uma moradora numa postagem que viralizou nas redes, a Vila da Barca estava sendo usada como vaso sanitário da Doca. A situação se agravava pelo fato de que a obra se iniciou sem os trâmites de consulta e informações, pegando a população de surpresa.
“Entre a Doca e a Vila da Barca há outros locais em que a estação elevatória poderia ter sido implantada. Por que foi justo aqui?”, pergunta Suane Barreirinhas, uma líder da comunidade. Ela é uma mulher negra de estatura média, tem cabelos curtos, um sorriso largo e um jeito animado de falar de coisas difíceis. Circula pelo bairro com desenvoltura, conversando com moradores enquanto caminha sobre as ruas suspensas em palafitas. Junto com Kelvyn Gomes e Inêz Medeiros, ela me recebeu na Vila da Barca numa manhã ensolarada. Fomos à Padaria & Lanchonete Deus Proverá, onde tomamos um café antes de subir no terraço de uma casa para ver a comunidade do alto.
Uma parte da vila recebeu uma intervenção nos anos 2000, a partir de um projeto realizado em parceria com o governo federal. Foram construídas 136 casas de alvenaria e uma estação de tratamento de esgoto, que atendia somente às novas unidades. Depois disso, não houve manutenção adequada, e a estação de tratamento acabou desativada. Hoje todo o esgoto do bairro, onde vivem 7 mil pessoas, é jogado no rio que está sob as casas. A falta de manutenção também cobrou seu preço para o sistema de fornecimento de água, implantado nos anos 1980 – as tubulações, que passavam sob as palafitas, sofreram avarias, de modo que, quando o rio enche, a sujeira contamina a água encanada.
A implantação abrupta dos tapumes trouxe alvoroço e muitas dúvidas. A estação elevatória produziria mau cheiro? Traria doenças? E o esgoto da comunidade, quando seria tratado? Por que um espaço central do bairro estava sendo usado para bombear esgoto? O incômodo e o sentimento de injustiça se espalharam, e iniciou-se uma mobilização contra a obra. Entre as lideranças, estavam Barreirinhas, Gomes e Medeiros. Já no início de abril, o movimento conseguiu que fosse realizada uma audiência pública para tratar do assunto. Na ocasião, relatou-se que a água das torneiras estava com coloração amarela e mau cheiro. Um diretor da companhia de saneamento refutou. Provocado por moradores a beber a água, ele cometeu a imprudência de blefar, dizendo que não teria problema em beber. Logo apareceram uma garrafa PET cheia de um líquido turvo e um copo plástico, colocados sobre a mesa. Em coro, o público gritava animado: “Bebe, bebe, bebe!” A turma do deixa-disso mudou de assunto.
Durante a audiência, moradores solicitaram a apresentação dos estudos de impacto ambiental da estação elevatória. Os representantes do governo afirmaram que a obra tinha todos os documentos necessários. “Eles mostraram os estudos da obra da Doca, que fica a quilômetros daqui, e não da estação elevatória”, diz Medeiros. Três dias depois, o Ministério Público Federal pediu ao governo estadual cópia das licenças ambientais, estudos de viabilidade técnica, informações sobre a mitigação e compensação ambiental, além de documentos que comprovassem a participação popular no projeto da estação elevatória. O governo respondeu com planilhas orçamentárias e contratos de licitação.
A realização da audiência um mês depois do início das obras era uma evidência do atropelo do processo e do caráter protocolar da participação social. “Os moradores disseram ‘não’ à estação elevatória, mas ainda assim ela está sendo construída”, diz Barreirinhas, enquanto caminha pelas ruas do bairro e acena para vizinhos que a procuram pelos motivos mais diversos. “O cachorro está preso?”, ela pergunta a uma moradora antes de entrar em sua casa para tomar um café e conversar sobre um projeto.
Os meus três anfitriões atuam juntos em iniciativas sociais na Vila da Barca. Durante a pandemia, fizeram um censo dos moradores para apresentar à Unicef, que forneceu cesta básica às famílias. Os três estiveram na linha de frente do mapeamento e distribuição dos alimentos. “Eu peguei Covid já em março de 2020 porque estava na rua contando os moradores da vila”, relembra Medeiros, que é educadora e já foi presidente da Associação dos Moradores da Vila da Barca. Recentemente, o grupo iniciou um projeto sobre empreendedorismo gastronômico dirigido às mulheres da comunidade, com o objetivo de gerar renda e oportunidades de trabalho. O próximo projeto é bastante ousado: a construção da Barca, um centro de atividades culturais e sociais sobre palafitas, com uma arquitetura que se assemelha à de uma embarcação. “Este aqui é o terreno da Barca”, mostra Barreirinhas, apontando para um espaço vazio sobre o rio.
A grita dos moradores contra a estação elevatória acabou surtindo efeito. Constrangido pela crítica que ganhou a mídia, sob os holofotes da COP, o governo do estado passou a investir na região. A companhia de saneamento, privatizada recentemente, iniciou um projeto de renovação da infraestrutura de fornecimento de água. Enquanto caminhávamos pelo bairro, a menos de dois meses da abertura da COP, topávamos com trabalhadores instalando tubulações e registros de água nas casas. A promessa é de que toda a comunidade terá água tratada até este mês de novembro e que o tratamento do esgoto será implantado no ano que vem.
Essas melhorias são relevantes. São direitos elementares, que muitos bairros de moradores abastados possuem desde sempre. Na Vila da Barca, ter água encanada e, possivelmente, esgoto tratado, terá como contrapartida perder um espaço na entrada do bairro para bombeamento do esgoto de outro bairro, com impactos que ainda não estão claros. “Além de tudo, a obra do Canal da Doca custou mais de 300 milhões de reais, enquanto as obras de água e esgoto na Vila da Barca não chegam a 10% disso”, diz Kelvyn Gomes.
A 18 km da Vila da Barca, rumo ao Leste, está o Quilombo do Abacatal, no município vizinho de Ananindeua. A viagem de carro leva mais de uma hora e termina em uma estrada de terra recém-alargada que chega a um portão azul. À direita, está um galpão com uma construção ao fundo, em cuja fachada se veem pinturas de duas mulheres negras e uma árvore. Sobre a copa da árvore está a sigla Ampqua (Associação de Moradores e Produtores Quilombolas do Abacatal e Aurá), grafada em uma tipografia que mescla o alfabeto latino com símbolos adinkras, do povo Ashanti, oriundo de vários países mas sobretudo de Gana. Aguardando sentadas à frente, estão Vanuza e Emanuela Cardoso, irmãs e figuras de referência da comunidade.
Vanuza tem o jeito despachado de quem já é liderança comunitária há bastante tempo. Graduada em ciências sociais pela Universidade Federal do Pará, atualmente cursa o mestrado em antropologia cultural na mesma universidade. Atua como conselheira do Observatório de Protocolos Comunitários de Consulta, e, como ela mesma diz, “está” coordenadora de Igualdade Racial de Ananindeua. “Pegue uma cadeira e se sente aí”, ela me diz, apontando para uma das quatro pilhas de cadeiras de plástico encostadas ao fundo. Pergunto se posso ligar o gravador, e ela faz um gesto de despreocupação: “A gente está acostumada a dar entrevista.”
O Quilombo do Abacatal remonta ao século XVIII, quando o entorno de Belém era ocupado por fazendas de cana-de-açúcar. Há um mito de origem de que ali seria o engenho do conde Coma Mello, que teria tido três filhas com uma mulher escravizada chamada Olímpia. O território do quilombo teria sido deixado a essas filhas como herança. A história aparece nos relatos orais de moradores há muito tempo, como apontam as sociólogas Rosa Acevedo e Edna Castro no livro No caminho de pedras de Abacatal, publicado em 1999.
Nos séculos XVIII e XIX, a comunidade ficava isolada no meio da floresta, “onde mesmo os padres não iam”, como escrevem as autoras. A única forma de acesso era pelo Igarapé Uriboquinha, afluente do Rio Guamá, que desemboca na Baía do Guajará. Por ser bem protegido e com terras boas para plantio, o quilombo atraiu pessoas escravizadas que conseguiam fugir das fazendas. O acesso por terra só foi aberto às vésperas da abolição da escravatura, com a construção da Estrada de Ferro de Bragança. A chegada da ferrovia marcou um momento novo para o quilombo, que perdia o isolamento territorial e passava a se ver ameaçado pelo contato com um entorno que lhe era hostil. Pouco mais de cem anos depois, a instalação de uma rodovia seria o estopim de uma nova fase de ameaças aos modos de vida da comunidade.
O projeto da Avenida Liberdade surgiu em 2012 e tinha o objetivo de criar uma nova conexão viária entre Belém e Marituba, na Região Metropolitana. “A estrada passaria aqui em cima da nossa sede”, conta Vanuza, apontando o dedo para o chão de cimento. Quando tomaram conhecimento do projeto, os moradores começaram a buscar informações e a se mobilizar contra a obra. Naquele momento a proposta não avançou, mas a ameaça deixou nítido que a comunidade precisaria se organizar para resistir às investidas do progresso.
Todos os anos, o quilombo comemorava no dia 13 de maio o aniversário da titulação da terra, conquistada nessa data em 1999. Em 2017, as lideranças resolveram comemorar a maioridade estabelecendo um Protocolo de Consulta, previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. O instrumento estabelece como a comunidade deve ser ouvida quando empreendimentos com impactos ambientais e sociais são licenciados. Em outubro daquele ano, concluíram o protocolo, acreditando que isso os protegeria de empreitadas abruptas.
Qual o quê. Alguns meses depois a comunidade foi surpreendida com a construção de uma subestação de energia da Equatorial, a concessionária de energia do Pará, a 1 km do quilombo. A obra foi iniciada sem consulta e sem aviso prévio. “Perguntamos para a Aneel [a Agência Nacional de Energia Elétrica] por que o empreendimento era tão próximo da comunidade. Eles falaram que não tinham conhecimento de comunidades no entorno, que eles tiram a foto pelo GPS”, disse Vanuza, na época. A subestação vinha se somar a outras estruturas na vizinhança, como dois aterros sanitários, que têm em comum o fato de atenderem a outras regiões, mas produzirem impactos para a comunidade local.
Por tudo isso, ambientalistas e lideranças locais apontam que o quilombo é hoje uma zona de sacrifício – um território que arca com os ônus de empreendimentos que beneficiam a população de outros lugares. A maior parte do lixo que vai para os aterros sanitários da vizinhança é produzida pela população de Belém e adjacências. Moradores denunciam a poluição dos igarapés pelo aterro sanitário de Marituba, que, nas palavras de Vanuza, é um “lixão a céu aberto”. A situação é um exemplo típico de zona de sacrifício como descrita em um relatório recente da ONU, que elenca casos similares mundo afora e mostra como o impedimento de acesso a um ambiente saudável produz uma série de doenças que afetam sobremaneira essas comunidades.
“Depois dos lixões e da subestação, veio a avenida – que não é para nós e não vai resolver o problema do trânsito”, resume Vanuza. Em 2020, o projeto da Avenida Liberdade foi reapresentado pelo governo do estado, dessa vez com um traçado que passa a cerca de 1 km do Quilombo do Abacatal, que atualmente abriga cerca de 520 moradores. Com 13,4 km de extensão, a via permitiria, diz a propaganda, ir de Belém a Marituba em 12 minutos. A realização da COP na capital paraense foi o impulso necessário para que a obra saísse do papel. Mas, como a estrada atravessa uma área de preservação ambiental ocupada por comunidades tradicionais e sofreu muitas críticas por isso, o governo achou por bem tirá-la do rol de obras da COP – uma burla de comunicação, já que o calendário da obra está alinhado ao evento internacional. Perguntei sobre o assunto ao governo. A resposta foi de que a avenida “não faz parte dos projetos para a conferência”.
A construção da Avenida Liberdade começou a ser divulgada antes da obtenção do licenciamento ambiental. E a execução correu a todo vapor no último ano. Quando visitei a obra, poucos meses antes da COP, tive uma sensação de déjà-vu, como se o imaginário de “conquista” da Amazônia do regime militar visto em fotografias e filmes tomasse corpo na minha frente – tratores dedicados às funções de derrubar e arrastar, a nova via se formando em um plano enlameado, o corte reto da linha que separa a floresta, a lama que marca os pés das árvores.
Segundo a Defensoria Pública do Estado do Pará, a avenida desmatará 72 hectares de floresta e produzirá uma série de impactos para as comunidades da região. Por isso, o órgão apresentou, em julho passado, uma ação civil pública pedindo a interrupção da obra até que o governo realizasse consultas prévias, cadastrasse as famílias e produzisse estudos de impacto ambiental. A ação pediu também que a população afetada fosse indenizada e que fosse feita a regularização fundiária da comunidade Nossa Senhora dos Navegantes, vizinha do quilombo. Ambientalistas apontam que a supressão vegetal tem provocado assoreamento de igarapés e prejuízos à qualidade da água, o que também aparece em relatos de moradores.
Quando a licença ambiental foi finalmente concedida, as comunidades tradicionais não haviam sido consultadas. Mais uma vez, o protocolo elaborado pelo Quilombo do Abacatal foi ignorado, descumprindo a Convenção nº 169 da OIT. Além dos impactos ambientais, o quilombo sofre com a alteração da estrada que acessa Ananindeua, usada cotidianamente pelos moradores. A via está em sentido perpendicular à nova avenida, que não prevê travessias em nível. A passagem dos moradores do quilombo será por um túnel, sem calçada, sem ciclovia e sem iluminação, o que prejudica aqueles que fazem o trajeto a pé ou de bicicleta.
“O desmatamento gerado para a construção da Avenida Liberdade talvez seja pequeno perto do que pode vir por aí”, aponta Lucas Nassar, arquiteto e urbanista diretor do Laboratório da Cidade, uma ONG que atua com projetos urbanos em Belém. A razão para isso é que a avenida, como costuma acontecer em empreendimentos rodoviários, é mais do que a conexão entre dois pontos: ela viabiliza o avanço do mercado imobiliário. Moradores do quilombo já relatam o surgimento de novos condomínios residenciais no entorno. É bastante possível que isso marque o início de um novo vetor de expansão urbana na região.
Embora o protocolo de consulta tenha sido descumprido, o Quilombo do Abacatal conseguiu algumas contrapartidas do estado, como o asfaltamento da estrada de acesso, além da construção de uma escola, de um centro de assistência social e de uma praça na comunidade. Perguntei a Vanuza e Emanuela se estavam satisfeitas com as contrapartidas. “É o mínimo”, respondeu a primeira. Sua irmã, que estava calada até então, completou: “São políticas públicas que o estado tem que fazer mesmo. Não tem nada demais aí.”
Aversão dos afogados é uma crônica curta de Luis Fernando Verissimo, publicada em 1995, que depois foi usada como título de uma coletânea do autor. Escrevendo no auge do consenso neoliberal, o escritor gaúcho recorre ao boto cor-de-rosa como metáfora para a situação política mundial. A provocação é que a fama do boto de ser um animal de boa índole que salva pessoas que estão se afogando adviria de “uma deformação estatística”. Na realidade, o boto empurraria tanto para a praia quanto para o alto-mar, “só que a versão dos afogados ninguém fica sabendo”. De maneira similar, argumenta o autor, os que estavam ficando para trás em meio à globalização e ao desmonte dos Estados de bem-estar social não teriam espaço para contar suas histórias.
De forma geral, a metáfora do boto pode ser aplicada à própria ideia de progresso, que sempre tem seus beneficiados e seus prejudicados. As zonas de sacrifício são a consolidação territorial da distribuição desigual de ônus e bônus, como se vê nos casos da Vila da Barca e das comunidades do Abacatal. Por isso, é importante registrar a versão dos afogados, mas seria incorreto reduzir as intervenções da COP em Belém a esses casos. Há também investimentos em obras que tendem a ser majoritariamente benéficas para a população – espaços públicos, restauração de patrimônio, saneamento e transporte.
“Fiquei algumas semanas fora de Belém e, quando voltei, o Parque da Cidade estava aberto ao público. Fiquei emocionado de ver a quantidade de gente celebrando aquele espaço, as pessoas em roupa de banho indo para o parque aquático”, conta Lucas Nassar, do Laboratório da Cidade. Ocupando uma área de 50 hectares onde funcionou um aeroclube, o Parque da Cidade é a principal obra da COP. Será a sede do evento internacional e depois seguirá aberto como um parque público, em uma cidade com poucas áreas verdes de uso coletivo. A grande adesão da população no período experimental de abertura mostra que o projeto supre uma carência importante. Além dos espaços abertos, o parque contará com edifícios para atividades culturais, esportivas e de eventos.
Outra obra com avaliação positiva é o Porto Futuro II – a restauração de cinco galpões na Região Portuária para abrigar empreendimentos de cultura, gastronomia e bioeconomia. Um dos projetos é o Museu das Amazônias, inaugurado no início de outubro com uma exposição do fotógrafo Sebastião Salgado. Outro galpão abrigará a Caixa Cultural, um centro cultural da Caixa Econômica Federal hoje presente em outras sete capitais (Belém é a primeira da Região Norte). Nos dois casos, a cidade passa a ter equipamentos culturais bem estruturados, e o público ganhará exposições que possivelmente não passariam pela cidade.
No Porto Futuro II, talvez a parte mais interessante – e mais desafiadora – seja o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia. Ocupando dois galpões, o centro terá espaços para o desenvolvimento de negócios ligados à atividade econômica fundadora da região: o extrativismo. “É preciso diferenciar entre o extrativismo de aniquilamento, como a mineração, e o extrativismo da coleta, que sabe respeitar os ciclos da natureza”, diz Raul Ventura Neto, professor de Planejamento Urbano e de Economia da Universidade Federal do Pará. Em sua visão, a extração e o processamento de produtos da floresta, prática que os jesuítas aprenderam com os indígenas da região e que se desenvolveu ao longo dos séculos, estrutura um tipo de economia sustentável – afinal a floresta precisa ser mantida para a continuidade das atividades – que deveria estar no centro do debate da questão ambiental hoje.
Em uma caminhada pela Cidade Velha, bairro do Centro de Belém, o economista foi apontando como a economia do açaí resulta em uma série de pequenos negócios na cidade. Aquilo que para um olhar externo não passaria de uma pequena serralheria, é uma minifábrica de um componente necessário para o processamento da fruta. Um levantamento do seu grupo de pesquisa, apresentado em um artigo ainda sob avaliação para publicação, identificou 1 147 CNPJs ativos ligados a processamento e revenda de açaí na capital. “O potencial dessa cadeia econômica é enorme. Aqui estamos falando somente de um produto, o açaí, dentre centenas que a floresta oferece”, defende o pesquisador.
O Parque da Bioeconomia promete fomentar negócios em torno do processamento de folhas, tubérculos, frutas e sementes extraídos na região. Um dos seus dois galpões é voltado para a incubação de novas empresas, com espaço de trabalho compartilhado e com atividades formativas, para auxiliar na estruturação de novos negócios. No segundo galpão, está um parque industrial que poderá ser usado para a fabricação de produtos. A ideia é que empreendedores possam alugar maquinários que dificilmente teriam condições de comprar. “O propósito é ótimo, mas, como tudo na COP, o resultado vai depender de como esse centro será estruturado como política pública após o evento”, diz Ventura Neto, que esteve na inauguração do local.
Outro vetor importante foram as obras de restauração no Centro Histórico, como a reforma do Mercado de São Brás e do complexo do Mercado Ver-o-Peso. Com quase 400 anos de existência, o Ver-o-Peso é uma das maiores feiras abertas do continente e conta com edifícios históricos ao lado da estrutura de lona projetada por arquitetos vencedores de um concurso nos anos 1990. Cerca de 2,4 mil trabalhadores atuam no local, vendendo produtos dos mais variados para moradores da cidade e para turistas. Melhor seria se não fosse necessária a realização de um evento internacional para que uma estrutura dessa importância fosse restaurada de tempos em tempos.
Há também obras de saneamento e macrodrenagem, um grande problema na cidade (no ranking do saneamento do Instituto Trata Brasil, Belém ocupa a 95ª posição entre 100 municípios). “Essas obras já vinham sendo planejadas antes da COP, mas a realização do evento aumentou o ímpeto dos governos para realizá-las”, diz Lucas Nassar. De outro lado, o urbanista relembra que “vários desses projetos são de qualidade ruim, com excesso de infraestrutura cinza e pouca infraestrutura verde”. Em resumo, é a velha canalização e concretagem de cursos d’água, uma abordagem que degrada a qualidade ambiental dos bairros. O projeto de maior qualidade nesse tópico, o Igarapé São Joaquim, que prevê espaços públicos e áreas verdes em torno do rio, avançou lentamente e somente a primeira de quatro etapas ficará pronta para a COP.
Em relação ao transporte urbano, a COP contribuiu para a conclusão dos novos corredores de BRTs, que vinham se arrastando há anos. Também foram comprados novos ônibus, com tecnologia menos poluente e ar-condicionado, que a população apelidou de “geladões”. Mas há dúvida se os novos veículos terão manutenção adequada e se o transporte terá outros avanços depois da COP, já que ainda não houve uma nova licitação, com cláusulas capazes de garantir a qualidade e o melhor uso dos recursos.
Ainda falta um balanço detalhado dessas obras, sobretudo no que diz respeito à adequação do gasto público aos escopos. O certo é que muitas intervenções foram realizadas de forma acelerada. O governo do Pará estabeleceu uma forma de trabalho com a mineradora Vale, que retirou projetos do processo burocrático de gestão pública. Os impostos da empresa foram alocados em obras, mas coube à própria mineradora executá-las. O mecanismo gerou maior celeridade, mas, por outro lado, alterou os processos convencionais de licitação, fiscalização e controle.
E não faltaram os escândalos. Em agosto, o ministro Flávio Dino autorizou a abertura de um inquérito para investigar supostas fraudes em licitações de obras para a COP. No centro da investigação, está uma empresa registrada em nome da mulher do deputado federal Antônio Doido, do MDB, o mesmo partido do governador Helder Barbalho, que recebeu mais de 900 milhões de reais em contratos do estado entre 2020 e 2024. O caso envolve saques em dinheiro de 5 milhões de reais e prisão em flagrante de um funcionário da fazenda do deputado.
Helder Barbalho estava à vontade no palco. De calça jeans e camisa de manga curta com estampa de grafismos indígenas, discursava para uma centena de pessoas na abertura do Amazônia Live. Dentro de algumas horas, Dona Onete, Gaby Amarantos, Joelma e Zaynara cantariam em um palco flutuante em formato de vitória régia no Rio Guamá, seguidas pela cantora americana Mariah Carey. O espetáculo seria assistido por quinhentos convidados, público formado por ricos, artistas, influenciadores e ex-BBBs. A abertura do evento acontecia em terra, em um hotel da cidade, com presença de políticos e jornalistas. Dividindo o palco com o governador estava Roberta Medina, empresária realizadora do evento, filha de Roberto Medina, o criador do Rock in Rio.
Barbalho agradeceu pela realização do evento, que teria a “causa nobre, única, de salvar a floresta, preservar a Amazônia”. Evocou o orgulho paraense com a realização da COP e criticou “aqueles que estão torcendo para dar errado”. Comparou o que está sendo construído no estado com uma árvore de raízes fortes. Saudou a participação das “divas” (as cantoras paraenses) no Rock in Rio e no The Town, eventos realizados pelos Medina. Antes de terminar, agradeceu à Vale, que, além de realizar obras da COP, patrocinou o Amazônia Live. Vieram então os aplausos, as fotografias no palco e as selfies com convidados.
Na saída do auditório, perguntei ao governador sobre a estação elevatória instalada na Vila da Barca. “Está 92% pronta”, ele respondeu, e apertou o passo. Insisti, ele desconversou, dizendo não se tratar de uma estação de tratamento, mas somente uma estação elevatória. Relembrei que, ainda assim, trata-se do esgoto do bairro dos ricos com uma estação elevatória no bairro dos pobres. Com rispidez, ele disse que eu estava desinformado. Perguntei se não haveria outro local para instalá-la. “Os engenheiros decidiram por esse local”, respondeu, antes de entrar no carro que o aguardava em frente ao hotel. Mais tarde, mandei perguntas por e-mail.
Em resposta, o governo do estado defendeu que “a localização da estação elevatória obedece exclusivamente a critérios técnicos de engenharia sanitária, hidráulica e geografia urbana” e que “a implantação segue rigorosamente as normas técnicas e ambientais vigentes”. Sobre a Avenida Liberdade que afetará o Quilombo do Abacatal, afirmou que “a obra está sendo executada conforme o planejamento aprovado e em total alinhamento com os termos definidos em audiência pública”. Em entrevista por videoconferência, o prefeito de Belém, Igor Normando, também do MDB, afirmou que a estação elevatória não produzirá nenhum malefício à Vila da Barca e que os investimentos em água e esgoto beneficiarão a comunidade. Para ele, que tem 38 anos e é primo do governador, o legado mais relevante da COP serão as obras de macrodrenagem e saneamento nas periferias.
Depois de uma edição do programa Profissão repórter que mostrou a precariedade de saneamento na Vila da Barca, as lideranças do bairro receberam críticas de que estariam disseminando uma visão pessimista de Belém. “Mas não se trata disso, não sou contra a COP. Eu só acho que não podemos ter nossos direitos anulados e que o evento é uma oportunidade de lutar por melhorias nas comunidades”, diz Suane Barreirinhas. Esse é um tema polêmico na cidade. Diante das matérias críticas à infraestrutura urbana na imprensa nacional e internacional, muitos moradores acusaram preconceito. De fato, isso ocorre em algumas situações, mas há outras em que a crítica fortalece a luta local por melhorias coletivas. “As contradições do progresso estão sempre aí”, disse Vanuza Cardoso. Antes de se despedir e partir para outra agenda no quilombo, ela completou: “O que muda é a nossa capacidade de falar delas.”
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