No exílio, na Argentina, depois de deixarem a embaixada no Chile: da esq. à dir., Carlinhos, Ernesto, um garoto desconhecido e Joca, irmão de Flávia Castro, sentada no centro, com Pedro CRÉDITO: ACERVO PESSOAL
Como fugi do golpe de Pinochet
A vida de uma menina em um refúgio de militantes na embaixada da Argentina em Santiago, depois do golpe no Chile, há cinquenta anos
Flavia Castro | Edição 204, Setembro 2023
Aqui em casa, “embaixada” é nome próprio. Para nós e para um círculo próximo de amigos, só existe uma: a Embaixada da Argentina em Santiago. A partir do dia 11 de setembro de 1973, ela serviu de refúgio para mais de setecentas pessoas que tentavam fugir da truculência do golpe de Augusto Pinochet. Entre essas pessoas havia muitos chilenos, mas também militantes de esquerda de várias nacionalidades que tinham se abrigado no país governado pelo socialista Salvador Allende, a fim de escapar dos golpes militares que pipocavam na América Latina. Uruguaios, bolivianos e, segundo documento produzido pelo extinto Serviço Nacional de Informações, pelo menos 115 brasileiros passaram por lá (e acho que podemos confiar nos dados do SNI, que sempre manteve seus arquivos sobre os passos dos exilados brasileiros minuciosamente em dia).
Em Santiago, a Vicuña Mackenna é uma avenida larga e tranquila, com casarões imponentes. Dois soldados chilenos guardam o portão de entrada do mais suntuoso deles. Minha mãe segura Joca, meu irmão de 4 anos, enquanto sigo de mãos dadas com Elaine. Quando chegamos bem em frente ao portão aberto, minha mãe dispara em direção ao jardim com o Joca no colo, Elaine vai atrás dela, me puxando pela mão. Atravessamos correndo o jardim até chegar ao hall de entrada do edifício. Tudo acontece tão rápido que os dois soldados não têm tempo de esboçar uma reação.
Conseguimos entrar, estamos a salvo. Um funcionário da embaixada nos recebe, minha mãe preenche algum formulário de chegada, mas eu só me lembro da escadaria de mármore imensa e brilhante. Escuto vozes de crianças, risos. O Sol que vem do jardim dos fundos me ofusca.
Eu tinha acabado de completar 8 anos, e a lembrança dos três meses que passamos na embaixada é a mais viva da minha infância.
Eu saí do Brasil com minha família aos 5 anos de idade e voltei aos 14. Durante esse período de nove anos de exílio, foram oito mudanças de um país para outro e quinze casas diferentes. Na maior parte das vezes, as casas eram “aparelhos”, refúgios para militantes onde a atividade política se misturava à vida cotidiana da nossa família. Na mesa da cozinha, o achocolatado respingava sobre as atas das intermináveis reuniões.
Minha mãe, Sandra Iglesias Macedo, e meu pai, Celso Afonso Gay de Castro, ambos filhos de comunistas, começaram a militar na adolescência. No início dos anos 1970, faziam parte do POC – Combate, uma pequena organização de tendência trotskista, oriunda do Partido Operário Comunista. Em 1971, meu pai foi preso em Porto Alegre. Por sorte, foi solto na semana seguinte, no dia 29 de maio, quando completava 28 anos. Naquela mesma noite, ele e minha mãe fugiram para o Chile. Acompanhados de nossos avós, Joca e eu fomos encontrá-los dois meses mais tarde.
Durante nosso primeiro ano em Santiago, moramos na Apollo 5, uma rua tranquila em Vitacura, bairro rico da cidade. Era uma casa pequena, de pé-direito tão baixo que meu pai tinha que tomar cuidado para não bater a cabeça. Em pouco tempo, Joca e eu já falávamos espanhol perfeitamente. Mas foi um período curto. Em 1972, fomos para Buenos Aires, onde parte dos militantes do POC – Combate se juntou ao Ejército Revolucionario del Pueblo para aprender técnicas de guerrilha urbana. O ERP era o braço armado do Partido Revolucionario de los Trabajadores (PRT), da esquerda revolucionária argentina.
Em Buenos Aires, moramos nove meses num quarto e sala escuro, e durante todo esse tempo nunca pisei numa escola. A ideia, depois desse “estágio”, era voltar para o Brasil. Mas a tensão no Chile, cada dia maior, fez com que o grupo revisse seus planos. Alguns militantes voltariam clandestinos para o Brasil e outros iriam para o Chile, com o objetivo de resistir ao já muito provável golpe militar. Entre estes, Celso e Sandra.
Foi um alívio voltar para Santiago, em outubro de 1972. Fomos viver num bairro de classe média baixa. As ruas tinham nome de cidades suíças. Nós morávamos na Rua Zurich Norte. Nossa casa, a mais moderna da rua, era espaçosa e tinha até um quintal com patos e galinhas. Eu voltei para a escola, onde não fiz nenhum amigo. Mas, quase em frente à nossa casa, tinha a Silvia. Ela era um pouco mais velha do que eu, não tínhamos muito em comum, mas eu gostava de andar ao lado dela pelo bairro.
Lá em casa, as reuniões intermináveis continuaram. Elaine Beraldo e Nelson de Souza Kohl, um jovem casal de militantes do POC – Combate, foram morar com a gente. Joca e eu nos divertíamos com Nelson, que gostava de nos ensinar cantigas de roda que não tínhamos tido tempo de aprender no Brasil. A vida retomou ares de normalidade, embora o clima no país estivesse tenso. O boicote que os caminhoneiros faziam ao governo Allende seguia firme.
Com isso, as prateleiras dos mercados e açougues foram ficando vazias, forçando o governo a adotar medidas de racionamento. Cada família tinha direito a tíquetes com os quais podia comprar uma quantidade mínima de alimentos. Na ida para a escola, eu passava pelas filas gigantes em frente às lojas do bairro, onde as pessoas esperavam com seus tíquetes por mercadorias que, às vezes, nem conseguiam comprar. Por outro lado, era contagiante a animação dentro dos ônibus lotados em direção às manifestações de apoio ao governo de Allende. Eu adorava ir nessas passeatas. Gostava das palavras de ordem, da sensação de invencibilidade em meio à multidão. El pueblo unido jamás será vencido, gritávamos a plenos pulmões.
Mas veio o golpe militar. Meu pai tirou a barba. Só mais tarde descobri que todos os jovens que cultuavam suas barbas, inspirados pelo Che Guevara e outros líderes revolucionários, fizeram o mesmo naquele 11 de setembro: para resistir, era importante passar despercebido. Os nove meses de “treinamento militar” que minha mãe e meu pai fizeram na Argentina poderiam finalmente ser colocados em prática na resistência ao golpe, embora não estivesse claro como.
Em um de seus primeiros pronunciamentos, a junta militar que tomou o poder instigou os cidadãos chilenos a denunciar seus vizinhos estrangeiros. O efeito foi rápido. Nós morávamos num bairro onde também viviam muitos militares, e na Rua Zurich Norte, quase em frente a nossa casa, vivia ao menos um caminhoneiro, o pai da minha amiga Silvia.
Em poucas horas, nossa casa se tornou um incinerador. Minha mãe e Elaine queimaram pilhas e mais pilhas de papel dentro do banheiro. Eram os “documentos” internos do partido, alguns com manchas de achocolatado. Eu joguei no fogo meus desenhos nos quais seria possível reconhecer certos barbudos, como o Fidel Castro e o Che. Eu me lembro da fumaça e dos gestos calmos da minha mãe.
Foi para o mesmo banheiro e com a mesma aparente tranquilidade que minha mãe nos levou quando os militares invadiram nossa casa. Joca e um amiguinho estavam brincando na sala. A casa era toda envidraçada e os soldados começaram a entrar por todos os lados. Cinquenta homens, talvez mais. Acho que o Nelson e a Elaine estavam na cozinha. Minha mãe, o Joca, seu amigo e eu fomos para o banheiro. Era bem apertado. Os meninos continuaram a brincar, só que agora entre o bidê e a privada. Olhei para eles e me lembrei de uma cena que aconteceu no ano anterior, na nossa casa da Rua Apollo 5. No meio da noite, meus pais nos tiraram às pressas da cama. Com Joca no colo de um, e eu, no de outro, eles correram para a frente da casa. Os vizinhos estavam de pijama, na porta de suas casas, e conversavam animadamente. Diante do meu espanto, meu pai disse: “Vamos ver neve!” Na verdade, não tinha neve, era um terremoto. O primeiro tremor tinha sido tão forte que a televisão despencou no chão. Foram os vizinhos que explicaram para meus pais o que todo chileno sabe desde criancinha: o lugar mais seguro em caso de terremoto é debaixo do batente da porta de entrada. E foi para lá que eles nos levaram, com essa promessa linda de ver neve, na qual eu adorei acreditar.
Quando os militares invadiram nossa casa, eu não perguntei para minha mãe se fazia parte de alguma regra de segurança se esconder no banheiro. Foi tudo muito rápido. Logo saímos do banheiro e nos deparamos com os militares revirando a casa toda.
Na sala, uma mesa separava minha mãe e eu do “chefe”. Ele perguntou onde estava o “dono da casa”. Meu pai tinha saído cedo, minha mãe respondeu que não sabia quando ele voltaria. O chefe disse que, sendo assim, eles iriam ter que “levá-la” no lugar do meu pai. Ao ouvir isso, eu caí no choro. O chefe pediu para minha mãe me dar um calmante. Ela me levou para o quarto, onde havia papéis jogados para tudo que é lado. Um soldado, muito jovem, fez sinal para minha mãe e, discretamente, lhe entregou dólares e os nossos passaportes falsos que ele tinha achado numa gaveta. “A senhora vai precisar”, disse.
Enquanto isso, o chefe havia desistido de levar minha mãe e dava ordens para a retirada. Nós fomos atrás deles, para a frente da casa. Foi aí que eu vi Nelson deitado de bruços no chão, as mãos sobre a cabeça, uma metralhadora apontada na sua direção. Atrás dele, alguns vizinhos mexiam nos documentos queimados que os militares acharam e jogaram na calçada.
Minha mãe e Elaine tentaram convencer o chefe a não levar o Nelson. Em vão. Ele foi escoltado até o ônibus militar. Eu o vi pela última vez na janela desse ônibus. Em 1993, tivemos a confirmação de sua morte. Nelson foi assassinado aos 33 anos, no dia 16 de setembro de 1973. Ou seja, no dia seguinte a sua prisão em nossa casa.
Em 2007, quando eu estava filmando o documentário Diário de uma Busca, voltei a essa casa da Rua Zurich Norte com a minha mãe. Não nos deixaram entrar, mas alguns vizinhos se aproximaram. Muitos se lembravam desse dia. Um deles repetia, indignado: “Nesta calçada, queimaram Dostoiévski! O grande Dostoiévski!” Não deu para entender se ele queria dizer que nós queimamos ou que os militares fizeram isso. E não havia nenhum livro de Dostoiévski naquela fogueira, mas a forma como a lembrança se cristalizou para esse sujeito, me deixou perplexa. Provavelmente porque, para mim, na imagem que me acompanha desde então, vejo o Nelson deitado no chão com a metralhadora sobre a cabeça e, muito perto, os vizinhos tentando ler os documentos queimados, numa indiferença fria, difícil de imaginar num leitor apaixonado de Dostoiévski.
Depois que os militares deixaram nossa casa, fomos nos encontrar com meu pai. Ele e minha mãe decidiram que seria melhor meu pai se juntar à resistência – que se imaginava que haveria – ao golpe, enquanto ela e Elaine iriam se refugiar, com Joca e eu, na Embaixada da Argentina.
Eu nunca vi uma casa como essa. Tudo é imenso e brilhante numa escala não humana. Uma versão de castelo do Walt Disney em que os personagens parecem minúsculos. Do alto da escadaria de mármore, a primeira coisa que vejo é o jardim. O dia ensolarado, a grama verde. Muitas crianças por todo lado. Mulheres tomam sol, alguém toca violão. Um casal se beija. Por um instante, eu me esqueço do meu pai correndo perigo lá fora, do Nelson preso, da Silvia, da nossa casa invadida. Naquele jardim não existe o golpe. E, de alguma forma difícil de explicar, entre os muros da embaixada, esse instante fora do tempo se dilata.
Aos 8 anos, eu era uma criança tímida e a Silvia era minha única amiga. Na embaixada, pela primeira vez, convivi com outros filhos de militantes. Alguns, assim como eu, tinham fugido às pressas de alguma casa deixando tudo para trás, sabiam que quando seus pais falavam que alguém tinha “caído”, isso não significava que tivesse tropeçado. Algumas crianças tinham nome de guerra e passaporte falso e, principalmente, sabiam que não podiam falar com os outros sobre tudo isso. Não podiam propor aos colegas da escola: “Vamos brincar de reunião?” Ou contar com orgulho que o trabalho de seus pais era “fazer a revolução”.
Entre os muros altos da embaixada, pela primeira vez, me senti livre. Livre para brincar. Livre para ser criança sem ter que tentar me encaixar num molde de infância no qual eu não cabia. Ali dentro nem me interessava ouvir as conversas dos adultos, ou espiar seus movimentos para tentar entender qual seria nosso rumo. Eu sei que os adultos não estavam no controle, não podiam decidir nada ali dentro. Estávamos todos à espera de um visto para ir embora, e isso não dependia deles, mas do governo argentino.
O jardim mais lindo do mundo me esperava lá fora, e construir cabanas, roubar batatas e tentar fazer fogo para cozinhá-las era muito mais interessante do que assistir às discussões acaloradas com um monte de “ismos”, ver casais se separando e outros se formando, ou acompanhar a complexa logística de divisão de tarefas domésticas.
Quando cheguei à embaixada, Carlinhos já estava lá – e se tornou meu melhor amigo. Ele era apenas um ano mais velho que eu. O irmão dele, Ernesto, tinha a mesma idade do Joca. O pai, Devanir José de Carvalho, havia sido assassinado no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), em abril de 1971. Pouco depois disso, Carlinhos se mudou para o Chile com a mãe e o irmão.
Juntos, Carlinhos e eu criamos o CAE – Comité Antiequatoriano para lutar contra uma família imensa originária do Equador que sistematicamente furava a fila da comida. O que mais nos indignava era a atitude da mãe, que ajudava os filhos a burlar a regra. Carlinhos e eu convocamos nossos irmãos de 4 anos e todos os seus amiguinhos para fazer uma passeata pelo jardim. Desfilaram umas vinte crianças animadas em mimetizar os pais. Alguns adultos ficaram constrangidos com a xenofobia das nossas palavras de ordem, mas eu estava muito orgulhosa de “lutar contra a injustiça”.
Na embaixada, a comida era pouca e essa questão mobilizava todo mundo. Uma vez, um grupo dividiu um ovo frito – iguaria inestimável – em oito pedaços. Quando ouvíamos o grito Niños a comer!, imediatamente corríamos para formar uma fila em frente ao refeitório. Havia certa tensão, medo que acabasse, que os últimos da fila fossem prejudicados. Ou que alguma criança fosse privilegiada por ter algum familiar no grupo responsável pela comida. Cada um tinha direito a um prato de sopa rala de legumes e a um único pedaço de pão farinhento. Talvez variasse um pouco, mas eu só me lembro da sopa. As caretas que a Mafalda fazia para a sopa da mãe dela, nas tirinhas do Quino, me pareciam um exagero. A nossa certamente era muito pior.
As semanas passavam e o castelo já não parecia tão grande para as mais de setecentas pessoas. Os recém-chegados traziam notícias de fora e elas não eram boas. A logística para dormir, comer, tomar banho e todo o trabalho doméstico era organizada e executada pelos próprios asilados. Os grupos de trabalho (acho que na época chamavam de “comitê”) se revezavam entre as tarefas e, como não poderia deixar de ser, o GT mais disputado era o que controlava a cozinha.
Poucos funcionários da embaixada transitavam entre nós e eu nunca vi o embaixador. Mas havia uma figura-chave que parecia ter fugido de um filme inglês, direto para nos amedrontar pelos corredores do casarão: o Mordomo, com sua voz grave e seus olhos arregalados. Era provavelmente o adulto lá dentro que mais se interessava pelas nossas vidas. Ele nos vigiava, implicava com bobagens. Certa vez arrancou de nossas mãos uma almofada de veludo com a qual estávamos jogando vôlei. Mas demorou para perceber os brincos que eu tinha feito com os cristais que roubava dos lustres. Até que, por fim, reparou que muitas meninas pareciam princesas de tão brilhantes e se deu conta de que tínhamos depenado todas as arandelas de cristal do salão onde dormíamos.
O pé-direito desse salão era muito alto e lá no teto, inatingível para nossas mãozinhas criativas, tinha um lustre de cristal gigantesco e hipnótico. Na hora de dormir, olhar para ele era muito melhor do que contar ovelhas. Exceto no dia em que um terremoto fez o lustre balançar tanto, que parecia que seus cristais iriam voar nos nossos olhos.
Os colchonetes eram quadrados, feitos para crianças pequenas, mas todos dormíamos neles. Eram instalados à noite no salão principal, apenas para as mães e seus filhos. Os homens e as demais mulheres se espalhavam pelos outros cômodos do casarão. Eles disputavam as poltronas e almofadas disponíveis, mas não tinha o suficiente para todos. Muitos homens acabavam dormindo no chão, pelos corredores.
Desde os primeiros dias do golpe, os militares chilenos tentaram impedir as pessoas de se refugiarem na Embaixada da Argentina. À medida que os dias foram passando, parecia que também colocavam mais energia em impedir que as pessoas fossem embora do país. Cada dia ia ficando mais difícil entrar na embaixada. O portão principal já não permanecia aberto. E os militares chilenos não hesitavam em atirar.
Quando meu pai tentou entrar, uma semana depois da gente, uma bala passou a poucos centímetros de sua cabeça. Ele desistiu da Embaixada da Argentina e conseguiu se refugiar na do Panamá. Mas muita gente ainda conseguiu entrar pulando o muro que dava para o jardim dos fundos. Até que os militares descobriram, e também ficou perigoso tentar entrar por ali.
O jardim dos fundos era o território das crianças, mas nós não tínhamos o direito de nos aproximar do muro. Existia uma fronteira invisível que não podíamos ultrapassar. Um dia, um homem foi baleado e morto quando tentava pular. Não estávamos mais na embaixada quando isso aconteceu, mas fiquei muito impressionada quando soube.
Com o tempo, foram afrouxando os bons modos que o espaço da embaixada sugeria. Uma turma de brasileiros, com a cumplicidade de companheiros uruguaios do grupo Tupamaros, experientes em abrir cofres, expropriou a adega do embaixador.
Parece que, por trás do legítimo desejo de tomar um bom vinho, havia a ideia de tornar a vida do embaixador mais difícil, como uma forma de pressão que pudesse acelerar nossa saída. Os dias eram longos e, na falta do que fazer, o grupo seguiu imaginando formas de acelerar nossa partida.
Depois que se conseguia refúgio na embaixada, por razões de segurança era proibido ir ao jardim da entrada da casa. O portão que dava acesso a esse jardim ficava trancado. Mas um dia – talvez por obra de um especialista tupamaro – esse portão ficou aberto. E nós, as crianças, fomos sutilmente encorajadas por alguns adultos a brincar no espaço proibido. Não precisaram nos explicar que estavam nos envolvendo numa ação política – nós adoramos a ideia.
Em segundos, invadimos o gramado intocado. Eram mais de trinta crianças, pulando e gritando sob o olhar aturdido dos militares chilenos que guardavam a entrada principal. O Mordomo apareceu, mas dessa vez nem sua voz de trovão nos impressionou. Nossa alegria era selvagem e ninguém nos tiraria dali nunca mais. Os militares gritavam conosco, a situação começou a fugir ao controle, e os pais das crianças menores correram para buscar seus filhos. Essa “invasão do jardim” causou uma baita de uma discussão entre os pais das crianças envolvidas. Alguns taxavam de completamente irresponsável a atitude dos militantes que tinham incentivado tal loucura. E se algum milico descontrolado tivesse atirado?
A primeira impressão que tive ao chegar à embaixada – a de que o golpe não cabia ali dentro – se desfez em poucas horas. Havia angústia e tensão. A expectativa de todos era ter o seu nome na lista dos que partiriam no próximo avião.
Entre os brasileiros, a maioria não tinha sequer 30 anos. Muitos deles haviam sido presos e torturados no Brasil. O Chile de Allende foi generoso no acolhimento desses militantes e estar na embaixada tinha muitos significados. Simbolizava mais uma derrota política na América Latina. Provavelmente, reforçava ainda mais a urgência de seguir na luta contra as ditaduras. E, mesmo com as perdas e feridas recentes que carregavam, alguns asilados experimentaram esse confinamento em que estavam protegidos como um parêntese em suas vidas, no qual alguma leveza era possível. Eles riam, cantavam, namoravam muito.
Enquanto isso, eu seguia ensaiando estratégias para a revolução com os exércitos de formigas que invadiam o nosso jardim dos fundos. Jardim, que a essa altura, com a grama cada dia mais ressecada e espinhenta, lembrava mais um campo de batalha abandonado.
A biblioteca, toda de madeira e veludos pesados, era o lugar mais silencioso do casarão e o que menos sofreu interferência da nossa passagem por lá. E isso graças aos jogadores de xadrez que a protegiam com ferocidade, sobretudo das crianças. Os asilados enxadristas de diversas nacionalidades foram se reconhecendo e se tornaram em pouco tempo o grupo mais unido na embaixada. Funcionavam quase como um partido político e aos poucos se apropriaram da biblioteca para suas intermináveis partidas. Chegaram até a organizar um torneio, que foi um sucesso. Surgiram novos candidatos, mas Carlinhos foi uma das poucas crianças que rompeu o cerco e acabou aceito no seleto grupo.
Mas os dias eram longos, ritmados pela expectativa do visto que nos permitiria sair dali. Todos nós, adultos e crianças, esperávamos ansiosos pela lista com os nomes dos que sairiam. Uma vez por semana, uma multidão se formava para ouvir a relação dos felizardos. Era um momento de alegria, mas também de revolta e decepção. A lógica utilizada na escolha de quem fora selecionado para sair era sempre questionada e gerava hipóteses paranoicas entre alguns asilados. Era difícil mesmo de entender por que uma família recém-chegada recebia um visto logo na sua primeira semana de confinamento, enquanto outras estavam esperando havia mais de dois meses.
Depois de quase noventa dias, chegou a nossa vez. Eu sabia exatamente como era o ritual de saída. Na véspera, começavam as despedidas. Os que ficavam na embaixada entregavam cartas para suas famílias no Brasil, que os emissários iriam postar em algum correio na Argentina. Casais que tinham se formado ali dentro e seriam separados pelo acaso da lista tentavam achar um canto para namorar em paz. Era triste e alegre ao mesmo tempo.
No dia da partida, colocamos nossas melhores roupas, escolhendo com esmero entre as duas pobres mudas de roupa que tínhamos. Minha mãe até passou uma escova no meu cabelo, gesto raro naquele tempo.
O ônibus chegou bem cedo pela manhã, e pela segunda vez descemos a escada de mármore e atravessamos o hall de entrada, dessa vez no sentido oposto ao do primeiro dia. Uma fila se formou para entrar no ônibus. No jardim da frente, a grama continuava verde e sedosa. Achei um desperdício as crianças que ficaram não poderem aproveitar. Olhei para trás e vi o Carlinhos na fila do ônibus, vestindo uma jaqueta que eu nunca tinha visto. Achei bonito. Muitos brasileiros saíram nesse mesmo dia. O que eu não podia imaginar naquele instante é que grande parte daqueles adultos que aprofundaram seus laços na embaixada seguiriam amigos pela vida toda. E continuariam a fazer parte da minha vida pelas décadas seguintes – até hoje.
O portão da embaixada foi fechado assim que o ônibus saiu do território argentino. Avançamos pela Avenida Vicuña Mackenna, mas eu não queria olhar pela janela. O Chile que havia nos acolhido não existia mais. Meus pensamentos se atropelavam. Lembrei da Silvia e de sua tristeza quando me contou que achava que tinha sido o pai dela quem nos denunciou para os militares. Pensei que o Natal estava chegando e que seria incrível se a gente fosse passá-lo com o meu pai. Naquele ônibus, eu não sabia ainda que teríamos um longo périplo pela frente, antes do reencontro com ele. E que isso só aconteceria na Bélgica, no início do ano seguinte.
Durante as filmagens do Diário de uma Busca, em 2007, eu voltei também à embaixada. O Mordomo, mais corcunda e menos soturno do que eu lembrava, continuava ali. Fui recebida por um embaixador simpático, interessado em saber mais sobre o tempo em que seus salões abrigaram os sonhos de tantas crianças. Ele ficou surpreso com a alegria e a intimidade com que eu ia redescobrindo aquele espaço: “A sala de xadrez!… Aqui, dormíamos em colchonetes minúsculos…” Afinal, não se tratavam de lembranças de uma antiga casa da família ou de uma colônia de férias. E foram apenas três meses.
Voltei a muitos lugares onde vivi. As duas casas em que moramos no Chile, o apartamento escuro em Buenos Aires, os prédios em Paris… Na maior parte das vezes, precisava fazer certo esforço para que a lembrança que eu tinha se encaixasse com o que eu estava vendo. Talvez porque o espaço em si não tivesse tanta importância. Mas na embaixada foi diferente. Ela continua imensa e brilhante, como o centro da minha infância. Tanto que acabo de voltar a ela.
Passei os meses de junho e julho de 2023 dentro da Embaixada da Argentina em Santiago. Só que… no Morumbi. Foi numa mansão desse bairro de São Paulo que recriamos a embaixada para as filmagens de As Vitrines, filme que escrevi e dirigi e que se inspira nessa minha infância. Neste ano, o golpe do Chile completa cinco décadas. Inscrever essa história no presente, com a liberdade que só a ficção permite, talvez seja uma forma de compartilhar um fragmento do que foi o exílio invisível de tantas crianças.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_204 com o título “A embaixada”.
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