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    “Se mataram a Marielle, o que vai acontecer comigo?”, repetia Buba Aguiar poucas horas depois da morte da vereadora do PSOL. Àquela altura, a militante e outros dois parceiros do coletivo Fala Akari já haviam decidido fugir da comunidade VINCENT ROSENBLATT_2018

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A exilada

Por que a ativista Buba Aguiar teve de deixar a favela de Acari, no Rio

Tiago Coelho | Edição 146, Novembro 2018

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Assim que entrou por uma das principais vias do Complexo de Acari, Buba Aguiar correu os olhos miúdos pelas imediações. Parecia conferir se tudo continuava do mesmo jeito desde que partira, à revelia, na madrugada do dia 15 de março. A favela se alastra à margem da avenida Brasil, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e tem cerca de 27 mil habitantes. Naquela tarde de julho, a ativista negra de 26 anos, baixa e  com cabelos encaracolados, retornava à comunidade onde havia morado por mais de uma década. Integrante do coletivo Fala Akari, que luta pelos interesses da favela, a jovem estava ali para acompanhar o trabalho da Defensoria Pública do estado. Desde a intervenção federal no Rio, decretada pelo presidente Michel Temer em fevereiro, grupos de defensores percorrem as áreas pobres da cidade com o intuito de explicar quais são os direitos de seus moradores durante as abordagens das forças de segurança.

Os doze representantes da Defensoria que participavam da ação se dividiram em duas frentes. Cada uma adentrou o complexo por um ponto. Aguiar se juntou à equipe liderada pelo defensor Daniel Lozoya. O grupo se aproximava dos moradores e entregava panfletos com perguntas e respostas. Uma das indagações: “O que os agentes de segurança podem?” A resposta: revistar uma pessoa sem mandado judicial nos casos de prisão ou quando houver clara suspeita sobre seus atos; levá-la à delegacia para verificação se ela estiver sem documentos; revistar qualquer veículo sem mandado judicial desde que o dono acompanhe a operação; prender um indivíduo apenas se ele for pego em flagrante cometendo algum crime ou por mandado judicial; entrar na casa de alguém somente com mandado judicial.

O verso do panfleto trazia uma segunda pergunta: “O que os agentes de segurança não podem?” Desta vez, a resposta era mais sucinta: “Te obrigar a ser testemunha de uma situação; xingar e agredir; fotografar sem autorização; mexer em seu celular ou câmera; obrigar a depor; revistar crianças e adolescentes.”

 

A maioria dos moradores pegava o papel e seguia adiante sem dizer nada. “Aqui a gente fica em silêncio”, comentou uma mulher enquanto simulava cerrar a boca com um zíper. Os mais audaciosos arriscavam uns protestos-relâmpagos: “O 41º é o cão!” Ou: “Os caras de lá metem o terror.” Referiam-se ao 41º Batalhão de Polícia Militar, que patrulha a área e figura entre os que mais matam no estado. “Teve uma vez que os policiais nos revistaram quando voltávamos de uma festa. Pode isso?”, questionou uma moça, acompanhada da amiga. “Não pode”, esclareceu Lozoya. “Só policiais mulheres podem revistar outras mulheres.”

Buba Aguiar avançou com o grupo cada vez mais para dentro da favela. À medida que a equipe se embrenhava, a pobreza recrudescia. Em algumas ruelas, o esgoto corria a céu aberto. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Acari tem a menor renda per capita entre os bairros do Rio (em torno de 175 reais) e ocupa a penúltima posição no ranking de expectativa de vida (63 anos contra 80 anos na Gávea, por exemplo).

Assim que chegou à praça Roberto Carlos, a ativista mostrou para os defensores os muros de casas atingidas por enchentes no último verão. As marcas deixadas pelas águas alcançavam 1 metro e meio de altura. Ao se aproximar de uma creche, a militante apontou um rombo de 5 centímetros de diâmetro, aberto no muro por um projétil. Quando há tiroteio, a direção da creche manda mensagens pelo WhatsApp, pedindo que os pais não busquem seus filhos até a fuzilaria cessar. Foi numa escola pública de Acari que, em 2017, a adolescente Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, morreu baleada durante uma aula de educação física. Policiais que trocavam tiros com dois homens acabaram por alvejá-la. Também em 2017, Acari ganhou destaque como o bairro da cidade que mais perdeu dias letivos em razão da violência.

 

Um rapaz, com o nome do filho tatuado no braço, disse para os defensores: “Tem policial que trabalha direito. Mas tem aqueles que são só morte e esculacho. Mal entram na favela, já começam a atirar. A gente morre de medo por causa das crianças.” Outra moradora, que ganha a vida como faxineira, contou: “Um dia, cheguei do serviço e tinha três policiais dentro da minha casa. Eles arrombaram a porta. Fiquei revoltada porque nunca me meti com coisa errada. Protestei. Eles responderam em tom de deboche: ‘Vá reclamar no batalhão.’ Fui e ouvi de um policial: ‘A senhora tem certeza de que quer levar a denúncia adiante?’ Entendi o recado e saí fora.”

No fim da tarde, os doze defensores se encontraram num galpão da escola de samba local para avaliar a ação. Quase todos relataram que sentiram desconfiança e resistência por parte dos moradores. “É compreensível. A Justiça está sempre contra nós – bota o dedo na nossa cara, prende, ameaça”, explicou Aguiar, de maneira assertiva. “Em geral, o poder público não liga para a gente. Por isso é importante vocês estarem em Acari. A gente vive no cu da Zona Norte…” A voz da militante ficou trêmula. “Me dói ver alguns irmãos daqui normalizarem a rotina de violência. Me dói ter que mostrar para vocês as marcas de tiros nos nossos muros.” Indignada, ela agora já não conseguia segurar o choro.

 

Quatro meses antes, no dia 10 de março, um sábado, a favela amanheceu sob operação policial. Militantes do Fala Akari logo receberam denúncias contra a PM. Por mensagens de áudio ou texto, moradores relatavam que policiais haviam invadido residências sem necessidade, percorrido as ruas com gritos de “Não vamos matar só bandidos, não”, fotografado RGs dos trabalhadores e atirado a esmo. “Andei pela comunidade naquela manhã e realmente presenciei muito tiro, mas não vi conflito com traficantes. A polícia atirava para o alto”, relembrou Aguiar. O Terceiro Comando Puro (TCP) é a facção criminosa que domina a favela.

 

No Facebook, o Fala Akari publicou um resumo das denúncias. Horas depois, a vereadora Marielle Franco, do PSOL, compartilhou o post com um comentário: “Sábado de terror em Acari! O 41º Batalhão é conhecido como Batalhão da Morte. É assim que sempre operou a Polícia Militar do Rio de Janeiro […]. CHEGA de esculachar a população. CHEGA de matar nossos jovens.” Mais tarde, a parlamentar escreveu outra mensagem: “Precisamos gritar para que todos saibam o que está acontecendo em Acari […]. Nesta semana, dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior.”

No domingo, o jornal O Dia noticiou as denúncias do Fala Akari e reproduziu as afirmações de Marielle. Também publicou o comunicado oficial da PM, que confirmava a operação e apresentava uma lista das substâncias apreendidas na comunidade: 40 frascos de lança-perfume, 1 050 frascos de cheirinho da loló e 65 quilos de pó branco. De acordo com a corporação, os traficantes receberam os policiais a tiros. A nota não dizia nada sobre as mortes apontadas pela vereadora ou sobre a violação de direitos relatada pelos moradores.

Ainda no domingo, Aguiar reafirmou as denúncias para a Ponte, site jornalístico que cobre segurança pública e direitos humanos. Na segunda-feira, participou de um evento no teatro Vivo Rio, onde também mencionou a operação policial. Pouco depois, Marielle a chamou para uma roda de conversa com mulheres negras, que aconteceria na quarta-feira à noite, no bairro da Lapa. A ativista recusou o convite, pois já havia combinado de sair com o pai.

Eram 22 horas de quarta-feira quando a jovem começou a receber inúmeras notificações pelo WhatsApp. As mensagens, de início telegráficas, provinham de outros militantes. Marielle. Morta. Carro. Quatro tiros. Aos poucos, a moça compreendeu o que se passava: Marielle Franco fora assassinada com quatro tiros na cabeça quando deixava a roda de conversa. O motorista do carro em que ela estava, Anderson Pedro Gomes, morreu com três tiros. Já a assessora da parlamentar, sentada no banco traseiro do automóvel, escapou da execução.

Aguiar entrou em desespero e chorou copiosamente. “Marielle era uma pessoa com quem podíamos contar. Ela nos ajudava sem cobrar absolutamente nada – nem voto, nem favor político, nada”, me disse alguns meses depois. A notícia do atentado, cometido pelos ocupantes de um Cobalt que perseguiu o carro da vereadora, ganhou rapidamente o país e o mundo. Muitas vezes, a informação vinha acompanhada da mensagem em que Marielle reproduzia os posts do Fala Akari e acusava o 41º Batalhão. Uma onda de terror se apossou dos cinco militantes que integram o coletivo. Não bastasse o luto pela morte da parlamentar, eles começaram a sentir que corriam perigo se permanecessem na comunidade. Temiam represálias do 41º BPM.  Amigos e instituições de defesa dos direitos humanos também os alertaram dos riscos. No ativismo de favela, nem todo mundo se expõe publicamente, seja por razões estratégicas, seja por segurança. Entre os membros do Fala Akari, apenas Aguiar e Deley de Acari – um militante veterano – costumam se pronunciar nos comunicados digitais produzidos pelo coletivo ou dar entrevistas.

Às duas da manhã de quinta-feira, 15 de março, o vídeo da Ponte sobre a operação policial de sábado já havia viralizado. “Tenho a impressão de que, com a intervenção, os policiais se sentem muito mais à vontade para fazer o que estão fazendo”, afirmava a ativista. “A situação em Acari ficou insuportável. A gente não aguenta mais a atuação desse batalhão”, completava, com os olhos marejados. Na versão escrita da matéria, Aguiar contava que, na semana anterior, bebia cerveja num bar da Zona Norte quando um PM a abordou pelo nome e disse: “Cuidado, hein? Aqui em Vista Alegre é bem perigoso, às vezes saem uns tiroteios…”

Saber que o vídeo se propagara deixou a militante ainda mais tensa. “Se mataram a Marielle, agora fodeu real. O que vai acontecer comigo?”, não parava de repetir. Àquela altura, a decisão já tinha sido tomada. Ela, Deley de Acari e outro parceiro do coletivo abandonariam a favela o quanto antes.

Na mesma madrugada, a jovem enfiou algumas mudas de roupa na bolsa e esperou o carro que a levaria para longe dali. Seu pai se manteve próximo por um longo tempo até resolver sair de casa. Não queria ver a caçula ir embora. Ao se despedir, recomendou à filha que se cuidasse e mandasse notícias assim que pudesse.

Na noite em que a vereadora morreu, o Rio sediava o evento 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo. Em Salvador, ocorria o Fórum Social Mundial. Nas duas iniciativas, havia militantes de favelas cariocas. Conversei com diversos deles. Todos afirmaram que, naquela noite, se sentiram tão desamparados e aterrorizados quanto Aguiar. Ninguém conseguiu dormir.

O automóvel que transportaria a ativista chegou no finzinho da madrugada. Uma companheira de militância se acomodava no banco traseiro. Quando o carro partiu, acabava de amanhecer. O veículo tomou o rumo da avenida Brasil. “Será que um dia eu volto?”, perguntou-se Aguiar enquanto a favela ficava para trás.

 

Não foi a primeira vez que a moça se exilou de Acari. Ela conta que, em 2016, quando saía para trabalhar, três policiais a pegaram e a puseram dentro de uma viatura, que seguiu até um ponto mais ermo nos arredores da comunidade. “Permaneci quase uma hora em poder dos caras. Eles me xingaram e fizeram com que eu tentasse engolir uma bola de papel. Um dos policiais ainda me mandou limpar o cano de seu fuzil com o dedo. Foi tudo muito sádico. Depois disso, fiquei onze meses fora de casa.”

Como não conseguiu levar alguns objetos pessoais na madrugada da fuga mais recente, Aguiar retornou para buscá-los no final de março. Tentou se disfarçar usando boné e um blusão largo. Quando reviu o pai, notou que ele ainda estava muito triste. Foi um encontro breve. O pai a abraçou desanimado e voltou a pedir que tomasse cuidado.

Desde então, a ativista já morou em quatro lugares. Instituições de direitos humanos lhe recomendaram driblar rotinas fixas. “Evite sair de casa no mesmo horário”, aconselharam. “Não use transporte público sempre que possível e, nas redes sociais, só divulgue os eventos de que participar após terminarem.” Cada mudança de endereço a desnorteia. “É cansativo ter sempre que aprender novas rotas na cidade.”

Em razão do sequestro de 2016, a jovem desenvolveu um quadro grave de ansiedade, conhecido como transtorno de estresse pós-traumático. Também foi diagnosticada com síndrome do intestino irritável, distúrbio que lhe causa fortes dores no abdômen. Por isso, submete-se a sessões semanais de terapia com um psiquiatra e toma um coquetel de remédios: dois tipos de antidepressivos e um ansiolítico.

“Vivo estressada”, costuma dizer. Certa ocasião, o ônibus que a levaria à terapia estava demorando. Preocupada, a moça quis saber se a condução passava mesmo naquele ponto. “Passa, sim”, confirmou um rapaz que acabara de se aproximar. Ele aproveitou a deixa e puxou conversa: “Por acaso, você vai para a PUC?” A ativista se alarmou e começou a tremer. “Não vou, não!”, respondeu. Só se acalmou quando entrou no ônibus e se certificou de que o rapaz permanecia no ponto. “As coisas mais simples provocam em mim muita tensão.”

Não raro, a militante escuta tiros em favelas vizinhas à sua nova casa. O barulho também desencadeia nela as crises de ansiedade. “Pensar que está acontecendo algo violento em alguma favela do Rio não só me assusta, como entristece e revolta, porque meu ativismo não se limita à minha comunidade.” Além de continuar trabalhando no Fala Akari, Aguiar é captadora de recursos numa ONG cujo nome prefere omitir. Não quer associar sua atuação política à entidade.

O estresse constante faz com que a moça durma mal. Vira e mexe, ela tem um mesmo pesadelo: está numa favela desconhecida quando policiais aparecem, a encostam numa parede ao lado de outra ativista e atiram em volta das duas sem atingi-las. Elas correm, entram num salão de beleza e se escondem debaixo de uma pia enquanto ouvem os passos de um policial que se aproxima. Nesse momento, a jovem sempre acorda – suada, com palpitações e tremendo.

 

Bruna Aguiar nasceu e se criou em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Filha única de uma empregada doméstica negra e de um serralheiro com traços indígenas, ambos nordestinos, recebeu o apelido de Buba ainda menina. O avô paterno integrou as Ligas Camponesas, organizações criadas pelo então Partido Comunista do Brasil (PCB) na década de 40 e extintas após o golpe militar de 1964, que pleiteavam a reforma agrária.

Na infância, Aguiar exibia a pele mais alva e os cabelos mais lisos do que hoje. Não se parecia muito com a mãe, que se melindrava em sair de casa junto da criança, pois sempre perguntavam se a garota era mesmo sua filha.

A militante lembra que, em 2002, quando tinha 10 anos, seus pais festejaram a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. Pouco antes, a menina começou a acompanhar a mãe, que havia contraído lúpus, em frequentes visitas a hospitais públicos. Na roupa da filha, a doméstica pendurava um broche com a estrela vermelha do pt. “Só morro depois de ver o Lula eleito”, dizia à garota. O petista ganhou as eleições em outubro de 2002. A mãe da ativista morreu no mês seguinte.

Depois de perdê-la, Aguiar se habituou a dividir a casa apenas com o pai, a quem é bastante apegada. Ele – que tem mais duas filhas de um relacionamento anterior – não gostava de ver a caçula chorando pelos cantos com saudades da mãe. “Não adianta chorar. Ela não vai voltar”, explicava. “Precisamos seguir adiante.” Preocupada em não o magoar, a menina passou a evitar o choro na frente dele.

Pai e filha se mudaram para o Complexo de Acari em 2007. Tinham parentes na favela, que ficava mais perto da escola técnica onde a adolescente acabara de ser aprovada. Enquanto cursava enfermagem, Aguiar ingressou no movimento estudantil e levantou bandeiras como o passe livre para estudantes que pegavam ônibus intermunicipal ou o abono de faltas a alunos pobres que não conseguiam sair de casa em razão de tiroteios.

Tão logo se formou, conseguiu emprego num laboratório clínico. Ganhou independência financeira e pôde comprar produtos que sempre almejara: roupas mais caras, tênis mais sofisticados e celular. Como era moda entre as jovens negras da época, alisou o cabelo.

Em 2013, engajou-se nas manifestações de rua que eclodiram a partir de junho. Protestava contra a Copa do Mundo no Brasil e a política de remoções de moradores nas favelas cariocas. Também se aprofundou em estudos e discussões sobre o feminismo e a negritude. Parou de alisar os cabelos e assumiu os cachos. Aos 21 anos, se reconheceu plenamente como uma mulher negra.

De tudo o que presenciou em 2013, o episódio mais inesquecível aconteceu na avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio. Durante uma das passeatas, um grupo de jovens de favela escalou um carro blindado da PM que tentava dispersar os manifestantes. “Para nós, favelados, o Caveirão simboliza a morte. Ver aqueles moleques em cima do carro não tinha preço. Foi uma cena extraordinária: a brancaiada do asfalto fugindo, e os negros da favela tentando barrar o Caveirão.”

Aguiar considera os protestos de 2013 decisivos para o reflorescimento de movimentos sociais nas periferias e de uma cultura de ocupação das ruas. Mesmo assim, evita olhar o período com saudosismo. “Será que aquilo vai acontecer de novo? Não sei… E pouco importa, na verdade. Quando perceberam que os protestos não alcançariam o resultado esperado, muitas pessoas desistiram. Mas, para mim, as manifestações deram certo. O trabalhador que hoje pega o trem lotado e taca pedra nos vagões porque não se conforma com o serviço péssimo mantém a revolta popular viva. Até o pessoal da direita passou a ocupar as ruas em nome de seus interesses. Os atos de 2013 possibilitaram que surgissem várias lideranças políticas femininas e negras, como a própria Marielle. Mudou tudo.”

Naquele ano, Aguiar e outros ativistas de Acari levaram as demandas da favela para as manifestações. Achavam que toda a cidade deveria saber o que se passava nas periferias. Diante do enfraquecimento dos protestos, repensaram a tática e decidiram discutir os problemas da favela com a própria favela. Foi assim que em 2015 nasceu o Fala Akari.

O grupo não se dedica apenas às denúncias contra os abusos da polícia. Também organiza aulas de reforço escolar e cursos pré-vestibulares dentro do complexo. Periodicamente, exibe filmes sobre questões sociais e os debate com a plateia. Há pouco tempo, levou crianças da comunidade para verem Pantera Negra num cinema da Zona Sul. O longa tem como protagonista um super-herói de Wakanda, reino fictício que remete a diferentes nações africanas. Todo 27 de setembro, Dia de São Cosme e São Damião, o coletivo mantém a tradição dos subúrbios cariocas e distribui doces pela favela.

Quando há violação de direitos por parte da polícia, o Fala Akari se coloca à disposição para amparar as vítimas e seus familiares. Explica a importância de denunciar o abuso, mas respeita caso os moradores prefiram não protestar. Se resolvem agir, o grupo os acompanha à Defensoria ou ao Ministério Público. “Ganhamos a confiança da comunidade porque fazemos um trabalho de base. A gente vai a todo canto e circula por um monte de eventos, inclusive pagodes. Queremos mostrar para o pessoal que estamos presentes no cotidiano de Acari e não somos apenas uma página na internet”, explica Aguiar.

Pelo Brasil afora, o ativismo de favela – que, no Rio, é praticado também por grupos como Coletivo Papo Reto, Redes da Maré e Voz das Comunidades – se liga intrinsecamente às novas tecnologias de comunicação. Usa as mídias sociais para publicar informações exclusivas e questionar ou confirmar notas oficiais da polícia e notícias divulgadas pela imprensa. A câmera de celular desempenha um papel central nesse tipo de militância. Os moradores costumam utilizá-la para registrar os excessos que presenciam. Quando repassam as imagens aos coletivos, os ativistas checam se são verdadeiras e as disseminam, tomando o cuidado de preservar a identidade de quem as produziu.

O DefeZap – serviço desenvolvido pela ONG Nossas, que recebe via WhatsApp relatos de violência cometida por agentes do Estado – somou 205 denúncias desde sua criação, em 2016. Dessas, 101 ocorreram em favelas fluminenses. Os vídeos que acompanhavam muitas queixas retratavam casos de invasão de domicílio sem mandado judicial, agressões verbais, desmonte de cenas de homicídio antes da perícia chegar e até chacinas promovidas por policiais como vingança pela morte de colegas. O celular alcançou tamanho protagonismo entre os ativistas que são cada vez mais frequentes os testemunhos de moradores que tiveram os telefones vasculhados durante operações da PM ou do Exército.

Alguns partidos já sondaram Aguiar, mas ela se recusa a integrá-los. Considera o espaço da política institucional bastante limitado, “um lugar de dominação sobre o indivíduo”. Faz um bom tempo que a jovem deixou de admirar o pt. Reconhece as conquistas sociais dos governos petistas, mas não perdoa que Lula e Dilma Rousseff tenham autorizado a ocupação de favelas cariocas por tropas do Exército. Na conta de Dilma, a militante também põe a Lei Antiterrorismo, proposta pela Câmara e sancionada pela presidente no início de 2016. Segundo Aguiar, a lei serviu para criminalizar ainda mais as ações dos movimentos sociais.

A ativista não vota há algumas eleições. Tampouco acredita que qualquer transformação significativa no país possa resultar desse sistema. Estudante de ciências sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem apreço por autores anarquistas e comunistas, mas não gosta de se definir como adepta de nenhuma dessas correntes. Crê que revoltas populares possam conduzir a sociedade a mudanças estruturais. “Ideologicamente, me defino mesmo é como favelada.”

Ela acompanhou os recentes debates presidenciais e se preocupou, sobretudo, com as propostas de Jair Bolsonaro na seara da segurança. “O fuzil do Estado sempre esteve apontado para os nossos territórios. Isso tende a piorar muito com o Bolsonaro na Presidência. Dá medo, claro, mas a gente não pode se entregar à histeria.”

 

O 41º Batalhão de Polícia Militar patrulha quinze bairros cariocas. Enquanto trabalhavam, seus integrantes mataram 567 pessoas nos últimos sete anos. De 2013 a 2016, o batalhão foi o mais letal do estado. Em 2017, ocupou o segundo lugar no ranking de mortandade e, durante o primeiro semestre de 2018, caiu para a terceira posição.

O promotor Paulo Roberto Mello Cunha Júnior suspeita que a queda se deva aos esforços do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública. Dois anos atrás, o Gaesp começou a investigar batalhões fluminenses com altos índices de letalidade. Analisou as condições de trabalho dentro deles, estudou 200 casos de homicídios cometidos por oficiais, se aproximou dos comandantes de cada unidade e ministrou palestras para os policiais sobre as melhores condutas a serem adotadas em incursões nas favelas.

Como faz parte do Gaesp – que, por sua vez, está ligado ao Ministério Público do Rio –, Cunha Júnior tirou algumas conclusões acerca do 41º BPM. “O batalhão vigia uma área particularmente conflituosa da cidade, onde atuam três facções criminosas: Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos. É quase impossível, portanto, que as operações policiais aconteçam sem confrontos.” Para diminuir sensivelmente a letalidade dessas ações, avalia o promotor, não basta agir sobre o 41º. Também é preciso combater a entrada de drogas e armas clandestinas no estado.

Outro aspecto que, segundo Cunha Júnior, conduz à alta mortandade é o desconhecimento das leis por uma parcela considerável dos militares e a persistência de uma “cultura da violência” no batalhão. Alguns casos de homicídio que o promotor estudou incluíam práticas policiais inaceitáveis, como tiros disparados por armas coladas à nuca das vítimas ou execuções de pessoas algemadas.

Durante uma das palestras que Cunha Júnior proferiu no 41º BPM, um oficial perguntou o que estava autorizado a fazer numa incursão à favela. O palestrante respondeu: “Se você ficar na dúvida, pense no que faria caso estivesse num bairro rico, como o Leblon.” O policial rebateu dizendo que, no Leblon, não seria recebido a bala. “Ele tinha razão”, admite o promotor. “Mas argumentei que o Estado democrático de direito não é um bibelô, um brinquedinho que se oferece apenas às regiões mais abastadas da cidade. Tentei mostrar que, mesmo num espaço conflagrado, é necessário agir dentro da lei.”

O promotor afirma que, para investigar crimes da PM ou da Polícia Civil em favelas, o Gaesp precisa contar com a ajuda dos ativistas. “Como vou chegar onde não há redes de militantes? Não vou… O Ministério Público ainda causa estranheza nas comunidades pobres. Em geral, os moradores só se sentem encorajados a se posicionar quando estão sob as asas de um coletivo.”

 

Após a operação policial denunciada por Marielle, o Complexo de Acari presenciou outro momento crítico em 12 de junho. Na ocasião, o inspetor Ellery de Ramos Lemos, chefe de investigações da Delegacia de Combate às Drogas, morreu baleado durante uma ação contra o tráfico. Três dias depois, o delegado Marcus Amim, comentarista de segurança pública do telejornal SBT Rio e amigo do policial assassinado, disse no ar que a Polícia Civil iria entrar na favela para “caçar” os responsáveis pelo crime. “Se vocês resistirem à nossa ação, nós vamos manchar o ambiente com o sangue sujo de vocês”, prometeu.

Em nota divulgada na internet, o Fala Akari repudiou com veemência as declarações de Amim. “Não vão nos calar! Acari é resistência!”, proclamou o coletivo. Na semana seguinte, a polícia invadiu o Complexo da Maré – outra favela da Zona Norte – para capturar possíveis envolvidos no homicídio do inspetor. Um helicóptero participou da operação. Enquanto a busca pelos suspeitos se desenrolava, um tiro acertou a barriga de Marcus Vinícius da Silva. O adolescente de 14 anos ia para o colégio e acabou morrendo. Ferido, contou à mãe que a bala partira “de um blindado”. “Ele não viu que eu estava com roupa de escola?”, indagou, atônito. Mais uma vez, o Fala Akari se indignou. Organizou um protesto em frente à Câmara Municipal, no Centro, e batizou o ato de “Vidas nas Favelas Importam – Parem de nos Matar”.

Presente à manifestação, Aguiar tinha o olhar cansado e fumava um cigarro atrás do outro. Moradores de diversas comunidades discursaram ao microfone de um carro de som. Bruna da Silva, mãe do adolescente morto, chegou ao protesto segurando a camiseta escolar ensanguentada do filho. Aguiar a recebeu com um abraço apertado. “O helicóptero alvejou a favela”, disse a empregada doméstica de 36 anos assim que pegou o microfone. “Ando por lá e vejo as marcas de tiros no chão, o rastro de violência que levou meu filho. Estou emocionalmente mal. Mas a dor vai me deixar calejada. Vou aprender a cobrar o Rio de Janeiro todos os dias. Eu criei meu filho por catorze anos na comunidade sem tomar um tiro. Nossa comunidade é calma. É o Estado que entra ali com violência e terror.” Muito alta e magra, Bruna da Silva ergueu a peça manchada de sangue: “Vou fazer deste uniforme um símbolo. Perdi o brilho dos meus olhos, que agora parecem duas lagoas negras, mas ainda estou de pé. Preciso estar.”

Aguiar também discursou. Apontou para a Câmara Municipal e esbravejou: “Esta casa tem que pegar fogo! Não vamos parar por aqui. A gente vai tomar esta Babilônia e tacar fogo em tudo se for preciso.”

 

A sala do Cineclube Ricamar, em Copacabana, estava quase às moscas na noite de 6 de agosto. Apenas doze pessoas se espalhavam pela plateia. A ativista chegou justo na hora em que o filme À Queima Roupa começava e se sentou sozinha numa fileira vazia.

Lançado em 2014, o documentário de Theresa Jessouroun investiga a corrupção e a violência policiais no Rio ao longo das últimas décadas. Tem como ponto de partida a chacina de Vigário Geral. Em agosto de 1993, um grupo de extermínio entrou na favela de madrugada e executou 21 pessoas. Nenhuma mantinha qualquer ligação com o tráfico de drogas.

Em 1990, a capital fluminense já havia testemunhado outra matança, agora envolvendo onze moradores de Acari. O filme não a retrata, mas Aguiar escuta relatos sobre o episódio desde pequena. Na manhã de 26 de julho daquele ano, as vítimas, incluindo oito adolescentes, saíram para se divertir num sítio da avó de uma delas, em Magé, na Baixada. À tarde, homens encapuzados invadiram a propriedade. Dizendo-se policiais, pediram joias e dinheiro. Após quase uma hora sob domínio dos invasores, os onze foram levados para fora do sítio dentro de uma Kombi e sumiram. Encontrado dias depois, o veículo estava queimado e com marcas de sangue. O inquérito acabou arquivado por falta de provas. Nenhum dos sequestrados apareceu, e sete de suas mães se uniram para cobrar justiça. Quatro delas já morreram – uma foi assassinada enquanto buscava informações sobre o filho.

Quando o documentário terminou, Aguiar recebeu o convite para se sentar num banco em frente à tela, junto da diretora e do crítico Marcelo Janot. Os três iriam conversar a respeito do longa-metragem. “É difícil ver esse tipo de filme. Ouvir as rajadas…”, declarou a militante. “Alguns de vocês só escutam esse barulho no cinema. Já nós, da favela…” A moça se impressionou especialmente com um personagem que começou a tomar remédios contra a pressão alta depois que a polícia matou um de seus familiares. “Certa vez, perguntei à minha médica por que tenho tanta doença”, contou Aguiar. “Ela respondeu que eu sempre vou sofrer de alguma coisa, porque essa rotina de violência acaba com a saúde de qualquer um.”

 

Encontrei Buba Aguiar pela primeira vez em meados de maio, à noite, no Centro do Rio. Caminhamos por uma rua estreita e escura até um boteco. Fazia apenas dois meses que Marielle Franco havia sido assassinada a poucos quilômetros de onde estávamos. Temeroso de que algo nos acontecesse, eu olhava para todo lado e desconfiava de cada sombra projetada pela luz alaranjada dos postes. Aguiar, ao contrário, parecia tranquila.

No bar, quando indaguei se poderia acompanhá-la ao longo das próximas semanas, a jovem explicou que só responderia após consultar o pessoal do Fala Akari. A militante não costuma facilitar a vida da “mídia hegemônica”. Primeiro, por julgá-la conservadora e insensível às causas pelas quais o coletivo luta. Depois, porque se irritou muitíssimo com a insistência dos jornalistas em entrevistá-la logo que Marielle morreu.

O sinal verde para que eu fizesse a reportagem só veio em julho. No dia 10 de agosto, uma sexta-feira, marquei nova conversa com a jovem, desta vez num restaurante do Centro. Falei dos receios que me afligiram na noite em que caminhamos juntos por aquela rua escura. Ela riu: “Você não é o único a se sentir assim na minha presença, e eu não devia estar tão tranquila quanto você imaginou.” Perguntei o que a amedrontava. “Não tenho medo de morrer”, afirmou, enquanto tomava uma cerveja. “Tenho medo é de como isso possa acontecer. Vão me torturar? Vão me estuprar? Meu pai vai achar o meu corpo?”

A tevê do restaurante exibia um telejornal em que o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, discorria sobre Marielle. “Claro que, inicialmente, a morte dela assustou a militância. Mas depois nos deu mais combustível, sabe?”, prosseguiu Aguiar. “Quem matou Marielle atirou no próprio pé, porque o assassinato não calou a gente.”

Assim que a matéria com Freixo terminou, a ativista mudou de assunto. Lembrou animada que, na semana anterior, participara de uma festa familiar em Acari. Reencontrou os parentes depois de vários meses. Bebeu cerveja, comeu churrasco, dançou pagode e não falou em militância. “Que bom que você veio! Engordou! E está viva…”, ouviu de uma tia.

Um vulto de mulher apareceu de relance na janela do restaurante. Aguiar a avistou e acenou. “É uma companheira de ativismo. Fez sinal de que estava de olho em mim. Tem sempre alguém por perto.” Saímos dali às 21 horas. Algumas amigas e primas da militante enviavam mensagens para o celular dela, convidando-a para se divertir. A jovem respondeu que se sentia indisposta e que iria dormir. Depois de nos despedirmos, perdeu-se entre a multidão e seguiu para algum lugar que não ficava em Acari.

Tiago Coelho
Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista de cinema

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A audiência na Justiça dos suspeitos da morte de Marielle Franco

30 out 2019_12h33
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