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A formiga e o formigueiro

    Rick Azevedo na Câmara Municipal do Rio: para ele, o principal desafio no primeiro mês de mandato foi lidar com o fato de que ninguém na política o conhecia. “Eu cheguei do nada”, diz CRÉDITO: ANDRÉ VALENTIM_2025

vultos da política

A formiga e o formigueiro

Como um caixa de farmácia criou o vigoroso movimento pela redução da jornada de trabalho

Pedro Tavares | Edição 223, Abril 2025

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Era terça-feira, seu dia de folga no trabalho, mas Ricardo Cardoso Azevedo acordou na mesma hora de sempre, por volta das cinco da manhã. Aos 29 anos, ele trabalhava como caixa da Droga Raia, no bairro Itaipu, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Nos momentos livres, buscava uma renda extra, ora vendendo sacolé na praia, ora fazendo vídeos para seu perfil do TikTok. Falava sobre música pop e assuntos gerais, inclusive alguma coisa de política, esperando alcançar um número monetizável de visualizações na plataforma. Às vezes, dava certo. Não era muito dinheiro, mas ajudava no orçamento. “Cheguei a ganhar 500 reais. Para quem recebia salário mínimo, era uma mão na roda”, conta.

Naquela manhã de 12 de setembro de 2023, ainda na cama, Azevedo pegou o celular para ler as notícias do dia. Como estava de folga, procurou algum assunto para comentar no TikTok. Depois do café, gravou cinco vídeos, quatro sobre a cantora Beyoncé, tema recorrente nas suas publicações. Em seguida, teve a ideia de falar sobre seu ritmo de trabalho na farmácia, que ele considerava extenuante. O caixa seguia a jornada 6 por 1, ou seja, trabalhava seis dias por semana e folgava apenas um.

Às nove da manhã, de boné preto com a aba virada para trás, camiseta branca com a estampa de um coqueiro e uma garrafa de água na mão direita, Azevedo, um homem negro, de 1,83 metro e bastante extrovertido, fixou bem o olhar na câmera e falou durante 1 minuto e 7 segundos. Azevedo não gostou do resultado e achou melhor arquivar o vídeo, sem postá-lo no TikTok.

 

Para relaxar no dia de folga, foi à praia. Enquanto tomava uma água de coco, recebeu uma ligação que azedou sua tarde: era a chefe, dizendo que ele precisaria bater o cartão mais cedo no dia seguinte. “Meu horário era das 14 às 23 horas, e ela me pediu para entrar de manhã.”

No dia seguinte, quarta-feira, ele chegou à farmácia às 7 horas. Como estava de mau humor, decidiu logo de manhã publicar no TikTok o vídeo sobre a jornada 6 por 1, aquele que ficara arquivado. “Eu disse que precisava ir ao banheiro, chamei uma amiga para assumir meu lugar no caixa, e postei.” O vídeo dizia o seguinte:

Gente, eu estou aqui revoltado com essa escala 6 por 1. Eu tô querendo saber quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução neste país relacionada à escala 6 por 1. É uma escravidão moderna. Moderna não, ultrapassada. Eu fico pensando: eu, que não tenho filho e sou sozinho, não dá para fazer as coisas. Imagina quem tem filho, tem marido e tem casa para cuidar. A pessoa tem que se doar para a empresa seis dias na semana e ter só um dia para folgar? Para ganhar salário mínimo? Gente, não dá. E, se a gente não se revoltar, se a gente não colocar a boca no mundo, se a gente não meter o pé na porta, as coisas não vão mudar. Eu quero saber quando que nós da classe trabalhadora iremos nos revoltar contra essa escravidão ultrapassada chamada escala 6 por 1.

 

Azevedo acabara de dar o passo decisivo para uma mudança radical na sua vida, no debate político da esquerda e, quem sabe, até mesmo no conteúdo das leis trabalhistas do Brasil.

 

Desde 2012, quando se iniciou a contagem sobre a taxa de desemprego, o Brasil não tinha um nível de desocupação tão baixo. Em 2024, foi de apenas 6,6%. No trimestre de outubro a dezembro passado, ficou ainda menor: 6,2%. Nesse contexto, parte significativa da população trabalhadora parece mais preocupada com o excesso de horas trabalhadas do que com a perda do emprego.

Tanto assim que, em poucas horas, o vídeo de Rick Azevedo – como ele ficou conhecido – teve milhares de visualizações e centenas de comentários, registrando uma audiência muito incomum para os seus padrões. “Quando cheguei em casa, por volta das onze e meia da noite, ainda tinha muita gente falando sobre o primeiro post.” Ele se lembra de que, àquela altura, a publicação havia ultrapassado 100 mil visualizações. “Foi então que comecei a perceber a proporção do que estava acontecendo.” Azevedo havia tocado num nervo exposto.

 

Na quinta-feira, dia 14, com a ajuda de seu melhor amigo, o advogado João Victor Félix, ele iniciou a gravação de outros vídeos sobre o mesmo assunto, com transmissões ao vivo em que respondia aos seus seguidores, cujo número já havia crescido a essa altura (hoje são 362,8 mil no TikTok). Em seguida, Azevedo expandiu a conversa para o Instagram (onde tem 354 mil seguidores).

Como a repercussão só aumentava, alguns dias depois ele criou comunidades no WhatsApp para discutir a jornada 6 por 1. Outra explosão de audiência. A demanda por participação cresceu tanto que Azevedo precisou dividir as comunidades por estado. (existe agora pelo menos uma em cada unidade da federação.)

Atualmente, sua primeira publicação no TikTok sobre a jornada 6 por 1 contabiliza mais de 1 milhão de visualizações e cerca de 8 mil comentários. Mas o vídeo foi assistido muitas vezes mais, em reproduções feitas por diferentes perfis em várias redes sociais. Em paralelo, dezenas de usuários e influenciadores fizeram publicações discutindo a fala de Azevedo – e assim começou a bola de neve.

Um dos influenciadores que contribuíram com o engajamento na postagem foi a advogada Patrícia Ikuno, de 39 anos, conhecida como Doutora Shimano, seu outro sobrenome, no TikTok (onde tem 2,9 milhões de seguidores) e no Instagram (539 mil). Em 15 de setembro de 2023, reagindo à fala de Azevedo que viralizou, ela postou um vídeo nas duas redes sociais no qual explicava a “6 por 1” do ponto de vista legal, sem se posicionar a favor ou contra. “Apenas analisei a questão, explicando que aquela era uma realidade do dia a dia do trabalhador brasileiro, que fazia parte das leis trabalhistas”, conta Ikuno, que se formou pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e mora em São Paulo. O vídeo feito por ela atingiu 580 mil visualizações.

Azevedo respondeu à advogada com outro post no TikTok, dizendo que era justamente a regulamentação que o indignava: ter que trabalhar seis dias para ter apenas uma folga. “Ele me deu um chacoalhão”, diz Ikuno. “Fiquei pensando sobre isso e, então, fui na dm [chat de mensagens privadas em redes sociais] dele perguntar qual era a sua intenção com essa pauta.” Azevedo explicou, sem delongas, que estava em campanha contra a jornada 6 por 1.

O debate foi ganhando força nas redes sociais, enquanto Azevedo seguia com os vídeos. Em uma conversa com apoiadores numa das comunidades do WhatsApp, ele escreveu que a mensagem que queria passar é que existe “vida além do trabalho”. Ao ler essa mensagem, um integrante a resumiu numa sigla – VAT. “Esse nome pegou”, diz Azevedo. No dia 23 de setembro de 2023, menos de duas semanas depois do primeiro vídeo sobre o tema, um movimento emergiu, com nome e sigla: Vida Além do Trabalho (VAT).

Quatro dias depois da criação do VAT, Azevedo elaborou com o amigo João Félix uma petição pública na internet. Era dirigida à “Excelentíssima Casa Legislativa-Congresso Nacional Brasileiro” e pedia o fim da jornada de trabalho de seis dias por semana. O texto dizia:

Não podemos ignorar que, em um mundo cada vez mais conectado e com avanços tecnológicos, devemos reavaliar as práticas de trabalho que afetam a saúde e o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Trabalhadores saudáveis e satisfeitos são mais produtivos e contribuem para o desenvolvimento sustentável do país.

Em três dias, a petição foi assinada por 20 mil pessoas (hoje tem quase 3 milhões de assinaturas). O texto, intitulado Por um Brasil que Vai Além do Trabalho: VAT e Ricardo Azevedo na vanguarda da mudança, foi redigido por Félix. O site onde a petição foi publicada disponibiliza um espaço para comentários, que funciona também como um canal de denúncia e desabafo de trabalhadores. Mais de novecentas pessoas já comentaram na página.

Félix e Azevedo se conheceram em uma festa no Rio de Janeiro, há quase nove anos. O advogado de 28 anos, especializado em direito da família, foi o aliado de primeira hora do movimento. “Quando o Rick chegou para mim e disse: ‘Eu tô construindo uma coisa que acho que vai ajudar muita gente e tá dando uma repercussão muito grande’, decidi embarcar nessa com ele”, conta. Filho único, Félix nasceu em Fortaleza, mas cresceu em Tauá, no sertão cearense. Em 2014, passou em direito na Universidade Estácio de Sá e foi estudar no Rio. Quando conseguiu se estabilizar economicamente, trouxe sua mãe para morar com ele, para que ela realizasse seu sonho de fazer faculdade de enfermagem, curso que concluiu em 2023. Seu pai, que seguiu carreira militar, ainda está no Ceará. “Nunca fui rico, mas nunca fui pobre. Sempre estudei muito”, diz.

Em 9 de outubro, Patrícia Ikuno resolveu se unir à iniciativa de Azevedo e Félix. Gravou um novo vídeo sobre o tema, dessa vez explicando o movimento e pedindo assinaturas para a petição.  “O meu objetivo na internet é levar informação. Mas às vezes só informação não é suficiente. Com o VAT, o trabalhador se sentiu protagonista”, ela afirma. Ao se engajar no movimento, a advogada revisitou a própria história. Natural de Maringá, no Paraná, Ikuno tinha 16 anos quando morreu sua mãe, funcionária de uma fábrica na província de Aichi, no Japão, onde as duas moravam. “Sempre lembro que, no único dia de folga de minha mãe, ela e eu limpávamos a casa juntas.”

Ao trio Azevedo-Félix-Ikuno, juntou-­se outra advogada, a manauense Fernanda Mourão, de 29 anos, que postava vídeos sobre direitos trabalhistas nas redes sociais. “Eu assisti ao vídeo do Rick no TikTok e senti que aquele grito de revolta era também o grito de muitos dos meus seguidores”, diz Mourão. Ela decidiu fazer um vídeo falando do VAT e se colocou à disposição para ajudar no movimento.

Menos de dois meses depois do primeiro post contra a jornada 6 por 1, Azevedo pediu as contas na farmácia para se dedicar integralmente ao VAT. Passou a viver da remuneração que conseguia com as postagens nas redes sociais e da ajuda de Félix, que somadas lhe rendiam cerca de 700 reais. O VAT contava, sobretudo, com a doação dos apoiadores, mas às vezes os líderes tinham que tirar dinheiro do próprio bolso para pagar as despesas com impressão de panfletos e confecção de banners e cartazes.

Em 15 de novembro de 2023, dia do aniversário de 30 anos de Azevedo, o movimento foi para as ruas pela primeira vez, no Centro de São Paulo. O ato foi convocado, naturalmente, pelas redes sociais. Quinze dias depois, o VAT fez uma manifestação na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.

 

Na última semana de setembro, quando tinha cerca de 80 mil assinaturas, a petição do Vida Além do Trabalho começou a ser enviada para vários políticos, via rede social. Mas o movimento tinha interesse em se aliar principalmente com a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), que reúne um grande número de seguidores nas redes (só no Instagram são 3,6 milhões). “Para ela, caprichamos mais na mensagem. Já pensávamos que seria estratégico”, conta Félix.

Azevedo enviou um texto privado para a conta da parlamentar no TikTok. Passaram-se algumas semanas sem resposta, até que Giovanna Oliveira, servidora do gabinete de Hilton que cuidava das redes sociais da parlamentar, leu a mensagem. “Na época, muitas pessoas estavam marcando a deputada sobre esse tema. Aí, no meio disso, eu achei a mensagem do Rick”, lembra Oliveira. Ela aproveitou um trajeto de carro, na volta de um evento estudantil na USP, para mostrar o recado a Hilton. “A Erika disse: ‘Temos que acompanhar e chamá-lo para entender melhor.’ Aí, nesse mesmo dia, eu respondi ao Rick e falei para a gente marcar uma reunião.”

O primeiro encontro – online – de Azevedo com Hilton aconteceu em novembro de 2023. “Foi nesse momento que conhecemos o VAT também”, recorda a assessora. “Desde a primeira conversa, vi nele muita energia, muita vontade de querer construir e de que as coisas dessem certo.” A ideia inicial discutida na reunião foi a criação de um projeto de lei com mudanças na jornada de trabalho no país. O grupo, porém, resolveu ser mais ambicioso: achou melhor que Hilton propusesse de cara uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). A deputada assumiu o compromisso de levar adiante a proposta e começou a articular o texto da PEC.

Quase seis meses depois, em 1º de maio de 2024, Dia Internacional do Trabalhador, Hilton anunciou a proposta de alteração do artigo 7º da Constituição, que trata dos direitos dos trabalhadores e diz no inciso XIII que a duração do trabalho “normal” não deve ser “superior a oito horas diárias e 44 horas semanais”. A PEC propõe mudar a duração da jornada para 36 horas semanais e estabelecer a escala 4 por 3. Como diz a gíria, o projeto é “sextar” na quinta-­feira: todos os trabalhadores passariam a ter quatro dias de trabalho e três de folga – e sem redução de salário.

Na justificativa da PEC, Hilton lembra que, ao longo da história das relações trabalhistas, demandas que já foram consideradas desproporcionais ou mesmo absurdas acabaram sendo incorporadas aos direitos dos trabalhadores, como a licença-maternidade e a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT (em 1943), além das férias de trinta dias (em 1977). Quando o 13º salário foi instituído em 1962, empresários previram o apocalipse: disseram que a economia brasileira iria colapsar. Até 1988, o teto de tempo de trabalho era de 48 horas semanais. Na Constituição promulgada naquele ano, baixou para 44 horas semanais.

No texto da redução da carga horária, a deputada também diz que a mudança terá como efeito a produção de “cerca de 6 milhões de postos de empregos”. É um cálculo simplista, pois apenas leva em conta o número de empregados necessários para cobrir o tempo de trabalho que ficará vago com a redução da jornada – supondo que as empresas, para se adaptar, venham a fazer isso integralmente.

No mesmo dia em que anunciou a PEC, Hilton publicou um vídeo nas redes convocando as pessoas a apoiar a proposta, pois, para conseguir protocolá-la na Câmara, precisaria mobilizar o apoio de um terço dos deputados (171 parlamentares).  A deputada aproveitou para pedir que assinassem a petição pública de Azevedo.

No dia 22 de maio, os líderes do VAT estiveram em Brasília para acompanhar Hilton em uma reunião com o ministro do Trabalho, Luiz Marinho. Uma das coordenadoras do VAT, Priscila Santos Araújo, lembra que o grupo aproveitou a viagem e foi de gabinete em gabinete na Câmara dos Deputados para falar da pauta e pedir o apoio dos parlamentares. “A gente bateu nas 513 portas dos deputados. Fomos em todos, independente do lado político. A grande maioria nem estava lá, outros não davam muita atenção, mas alguns poucos paravam e escutavam a gente”, conta.

Embora a PEC tenha sido proposta por uma deputada do Psol e conte com o apoio explícito da esquerda, alguns congressistas da direita, que em condições normais dariam as costas a qualquer proposta progressista, foram emparedados pelo clamor dos jovens trabalhadores nas redes sociais. Quase metade da bancada do União Brasil subscreveu a PEC. Antes de ser eleito presidente da Câmara, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) disse que o assunto “preocupa muito” e declarou: “É um tema que nós temos e vamos discutir, mas não ouvindo apenas um lado. Temos de ouvir também quem emprega.” Estrela do bolsonarismo, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) ensaboou: “O que eu defendo? De fato, um debate real e não simplesmente uma torcida, porque seria muito fácil eu apresentar um projeto em que eu aumento o salário mínimo em dez vezes, reduzo a carga horária para vinte horas semanais e pronto, perfeito! Aí quem for contra é contra o trabalhador e pronto.”

No fim de dezembro de 2024, uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que o apoio ao fim da jornada 6 por 1 não está apenas nas redes sociais. Segundo a sondagem, 64% dos brasileiros com mais de 16 anos são favoráveis ao fim dessa escala de trabalho, enquanto 33% são contrários. Entre os que votaram em Lula, 73% defendem a redução, mas no grupo dos eleitores de Jair Bolsonaro o apoio também é majoritário: 54%. A discrepância geracional é maior que a partidária. Entre os brasileiros de 60 anos ou mais, 48% são contra a redução da jornada. Na faixa dos 16 a 24 anos, a adesão ao fim da escala é de 81%.

 

Com tanto barulho em torno de seu nome, Rick Azevedo não demorou a perceber que ele próprio poderia construir uma carreira na política. “As pessoas diziam que, se ele não tivesse um cargo público, a causa que ele defendia não ia dar em nada”, diz Félix. “A gente entendeu que era preciso entrar na política para organizar o VAT.”

Em março de 2024, Azevedo se filiou ao Psol. O ex-caixa de farmácia frisa que foi ele quem escolheu a agremiação, e não o contrário. “É um partido muito combativo. Outro ponto crucial foi o fato de o Psol ter sido a única bancada que assinou de forma unânime a PEC pelo fim da escala 6 por 1.”

Azevedo conta que se identifica há tempos com partidos de esquerda e votou em Fernando Haddad e Lula nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, respectivamente. “Eu sempre fui muito revoltado com a política. Lá na minha cidade, sempre questionei a postura dos vereadores. Quando o Bolsonaro entrou, passei a voltar minhas críticas ao bolsonarismo.” Sua principal referência na política é a deputada Erika Hilton. “Ela é muito presente e se comunica de uma forma pop, com uma linguagem moderna. E consegue fazer isso com seriedade e respeito à classe trabalhadora.” Ele é também um entusiasta das lutas trabalhistas do passado. “O que me motiva é saber que a classe trabalhadora lá atrás conseguiu grandes feitos, sem internet e com poucos recursos. Eu sou muito motivado por essas conquistas.”

Já perto do prazo final de inscrição para disputar as eleições para a Câmara Municipal do Rio, Azevedo procurou o diretório local do Psol e falou do seu interesse em se lançar candidato. O partido concordou – e ele iniciou sua campanha, com a ajuda dos amigos e dos militantes do VAT.

Em sua estreia nas urnas, Azevedo teve 29 364 votos, o maior número entre os eleitos pelo Psol para a Câmara do Rio de Janeiro, à frente de Monica Benicio (25 382 votos), a viúva de Marielle Franco, William Siri (19 872) e Thais Ferreira (17 206). No embalo de uma campanha que extrapolou a bolha da esquerda, ele acabou mexendo com o mapa de adesão do partido na capital fluminense. Nos bairros de Laranjeiras e Santa Teresa, na Zona Sul – a “psolândia” carioca – ele obteve apenas 293 votos. Os cinco bairros que mais contribuíram para sua vitória são todos redutos de classe média e classe média baixa nas zonas Oeste e Norte, e no Centro do Rio. Ele, inclusive, fez pouca campanha presencial na Zona Oeste. “Passamos rápido pelos bairros de lá”, conta Félix. É um sinal de que a viralização digital de seu discurso foi mais relevante que o tradicional corpo a corpo com os eleitores.

O êxito de Azevedo surpreende ainda mais quando se examina a contabilidade da campanha. O Psol destinou ao candidato apenas 60 mil reais, consumidos em cinco itens: gráfica, advogado, contabilidade, cerca de quinze auxiliares (sobretudo de panfletagem) e redes sociais. Feitas as contas, cada voto custou 2 reais. “Foi o voto mais barato que eu já vi nos onze anos em que trabalho com isso”, diz o contador eleitoral Anderson Godinho, que tem clientes de diferentes partidos. Carlos Bolsonaro (PL), o vereador mais votado no Rio, fez uma campanha 25 vezes mais cara (1,5 milhão de reais) e conquistou apenas 4,4 vezes mais o número de eleitores de Azevedo (130 480 votos). Gastou quase 14 reais por voto.

A eleição de Azevedo foi uma surpresa para o Psol. “Eu acredito que toda eleição tem fenômenos e o Rick aparece nesse cenário”, diz a presidente do partido, Paula Coradi, de 39 anos. “Ele é uma liderança muito jovem que conseguiu se conectar muito bem com um eleitorado, e o fato de ter escolhido o Psol é um motivo de muito orgulho para nós.” Na distribuição da verba para as campanhas, o partido priorizou os candidatos que disputavam a reeleição, o que explica o fato de o estreante ter recebido uma quantia menor. “A distribuição de verba está dentro de uma tática eleitoral que nós adotamos e a gente priorizou as reeleições”, explica Coradi. Ela conheceu Azevedo pessoalmente no ano passado, em um evento no Rio, durante a campanha do deputado federal Tarcísio Motta (Psol), que disputou a prefeitura carioca.

Em seu segundo ano como presidente, Coradi destaca que a bandeira da redução da jornada de trabalho foi popularizada pela esquerda. “Desde 2008, o mundo passou por transformações muito profundas que impactaram diretamente o campo do trabalho. Então, esse tema ganha uma relevância muito grande para a gente dialogar com esses setores que são ultraprecarizados”, diz ela, que é formada em história. Para o Psol, a melhor lição de Azevedo foi ter conseguido levar uma parte da mobilização das redes para as ruas. “O desafio é fazer com que isso se torne um movimento de pressão no Congresso, que tem atuado de forma muito regressiva, principalmente em relação aos direitos trabalhistas”, afirma Coradi.

“O grande acerto do Rick foi acessar nas pessoas a indignação, algo que tem uma capacidade notável de criar engajamento”, analisa Cila Schulman, coordenadora de comunicação e estratégia de campanhas eleitorais. Para ela, a história pessoal de Azevedo também contou para os eleitores. “É legítimo quando Guilherme Boulos, do mesmo Psol, fala que saiu de casa para morar na ocupação, mas ele continua sendo classe média alta, filho de médicos, embora com consciência de classe. Isso faz uma grande diferença quando pensamos na lógica das redes sociais.”

A vitória de Azevedo também colocou em questão as pautas “identitárias” da esquerda, que, na visão de alguns analistas, às vezes tendem a deixar em segundo plano as aflições comuns da população mais pobre. Embora seja negro e gay, Azevedo não trouxe essas duas condições para o primeiro plano de sua campanha. Focou sobretudo na luta trabalhista, inclusive na saúde mental dos profissionais. Essa atitude, porém, não significa que ele negligencie sua identidade. “Eu, enquanto corpo gay e preto, só de estar aqui nessa posição e ser o líder de um movimento que conseguiu ter relevância nacional, isso para mim já é uma militância gigantesca”, diz.

Guilherme Boulos refuta a competição entre os temas sociais e os “identitários” dentro da esquerda, dizendo que há convergência entre eles. “Em geral as populações mais exploradas são aquelas que também enfrentam as opressões de raça, gênero ou orientação sexual”, diz ele à piauí. “A proposta de Azevedo é um problema objetivo com uma solução objetiva que passa longe dos fantasmas criados pelo bolsonarismo e outros radicais de direita”, acrescenta, referindo-se à demonização que os extremistas da direita costumam promover em torno das questões identitárias.

 

Rick Azevedo é um dos poucos vereadores da Câmara carioca que não é natural do estado do Rio. Ele nasceu no Tocantins, na cidade de Dianópolis, onde ficava a maternidade mais próxima da fazenda em que viveu até os 5 anos, antes de sua família se mudar para Taipas do Tocantins, um município com cerca de 2 mil habitantes.

Ele é o mais novo de cinco irmãos (três mulheres e um homem). Quando Azevedo ainda era bebê, seu pai abandonou a família, que passou a viver da renda de um pequeno comércio, misto de mercearia e bar, aberto por sua mãe em Taipas. “Eu me lembro da minha mãe trabalhando muito para poder sobreviver, para conseguir colocar a gente na escola”, diz o vereador. Ele conta que na infância não se conformava com o fato de a mãe trabalhar o dia inteiro e ter pouco tempo para ele. “Agora, pensando nisso, vejo que a questão do tempo de trabalho é uma coisa que eu cultivo desde criança. Eu briguei muito para ela abandonar o bar.”

Azevedo completou o ensino médio em uma escola municipal e chegou a frequentar os primeiros períodos de um curso universitário de enfermagem, que não concluiu. Quando fez 17 anos, foi morar em Palmas, a capital do Tocantins. Sem muitas oportunidades de emprego ali, resolveu ir para uma cidade maior. “Me falaram que, se eu queria ir atrás de trabalho, deveria ir para São Paulo, mas eu já estava com o Rio de Janeiro na cabeça.”

No dia 29 de abril de 2015, Azevedo desembarcou no Aeroporto Santos Dumont. “Cheguei no Rio com 2 mil reais e aluguei um quartinho de serviço em Copacabana. Se eu conseguisse arrumar emprego rápido, ficaria. Se não, voltaria para o Tocantins.” Nos primeiros dois dias, tratou de visitar os pontos turísticos e as praias da cidade. No terceiro, arrumou o primeiro emprego, como caixa de uma farmácia em Copacabana. Já naquela época vendia picolé e cerveja na praia no dia de folga do trabalho. Depois do turno na farmácia, também fazia bicos de garçom, “até três, quatro da madrugada”. Sem esse reforço, não conseguia pagar os boletos do mês.

A escassez de dinheiro e o excesso de trabalho moldaram sua mentalidade. “A minha raiva da escala 6 por 1 e do método de trabalho a que nos submetemos é que, apesar de se lascar, a gente não consegue comprar nem uma garrafa de água”, reclama. Ele cita um dia em que pediu um lanche por aplicativo, mas ao pagar com pix, viu que a conta ultrapassava o valor de que ele dispunha no banco. “Me cobraram um pouco mais do que eu tinha calculado. Eu tinha 19 reais e o lanche custava 21,90 reais. Quase morri de ódio.” Ele cancelou o pedido. Para tapear a fome, se virava com pipoca. “No quarto em Copacabana, tinha um micro-ondas, e muitas vezes a pipoca era a minha janta.”

Essa situação durou até 2016, quando Azevedo se mudou para a Tijuca, na Zona Norte, onde passou a dividir um apartamento mais barato com outros dois rapazes. A mãe de um deles, a chef Rita Mombelli, o recrutava para trabalhar como garçom nos eventos que fazia. Ele recebia 200 reais por evento. Em 2017, quando a chef foi convidada pelo empresário Roberto Medina – criador do Rock in Rio – para cuidar das refeições da família, Azevedo passou a ser recrutado também para serviços diversos na casa, como limpar a calçada ou cuidar do jardim. Acabou largando o emprego em uma lanchonete na Tijuca para se tornar um “freelancer fixo” da casa dos Medina, onde fazia tarefas diversas. Ele não trabalhava com carteira assinada, mas era constantemente acionado pela família para as tarefas domésticas. E, como era bem remunerado, decidiu ficar apenas com esse emprego. Também era convocado para trabalhar nos eventos do empresário. No Rock in Rio, ficava à disposição do patrão.

Esse foi seu único emprego em que a jornada de trabalho era indefinida. “Às vezes, a gente trabalhava uma semana mais intensa, quando tinha evento, mas na outra folgava três, quatro dias. Quando eles viajavam, era bem mais tranquila a gestão da casa.” Ele trabalhou para a família Medina de 2017 até 2020. Foi nesse período que conseguiu se matricular na faculdade de jornalismo da UniCarioca, onde obteve uma bolsa de 50%. Mas, com a pandemia e o fim do trabalho para os Medina, não conseguiu mais pagar o curso, que largou no sexto semestre. “Odiei todas as empresas onde eu trabalhei: tive algum problema ou com o trabalho ou com os patrões. Com os Medina, não tive nada”, diz Azevedo. (Procurado pela piauí, Roberto Medina não quis falar sobre o ex-funcionário.)

Foi nessa época que a relação de amizade com Félix se intensificou – eles se chamam de “irmãos”. Os dois se conheceram em uma festa no apartamento de amigos na Tijuca. “Ninguém nos apresentou. Estava tocando uma música da Rihanna, o Rick se aproximou, disse que gostava muito da música e começamos a conversar”, lembra Félix. “Desde então a gente não se desgrudou mais.” Em 2020, eles chegaram a morar juntos no bairro Rio Comprido, no Centro do Rio. Passados os anos de pandemia, Azevedo mudou-se para Niterói e foi trabalhar em uma farmácia no bairro Itaipu, voltando para o mesmo setor em que primeiro se empregou no Rio. Foi contratado como caixa da Droga Raia, aquela onde gravou o vídeo que transformou a sua vida. “Em farmácias, nunca tive problema com gerente. O que incomodava era mais o modelo de trabalho mesmo. Você não almoça direito e trabalha até tarde”, diz.

 

Em 1° de janeiro deste ano, dia de sua posse como vereador, Rick Azevedo acordou por volta das sete da manhã em seu apartamento na Tijuca, onde mora sozinho. Ele havia passado a virada de ano ao lado da família. “Fiquei só na água com gás.” Antes de ir para a cama, conversara com Erika Hilton por telefone. No primeiro dia do ano, depois do café, vestiu um terno preto com camisa amarelo-clara e gravata cinza pontilhada. Da sua casa, foi de metrô até a estação Central do Brasil, onde encontrou alguns integrantes do VAT. De lá, todos seguiram de metrô até a estação Cinelândia, no Centro do Rio, carregando cartazes e panfletos.

Azevedo poderia ter ido de carro para a posse, deferência que é concedida pela Câmara dos Vereadores aos eleitos, mas ele optou por chegar de transporte público. “A gente queria reafirmar nossa mensagem, que é nos aproximarmos cada vez mais do trabalhador”, diz Wesley Fabio, coordenador do VAT que acompanhou Azevedo no trajeto. Por volta de nove da manhã, o grupo desembarcou do metrô. Em torno de 25 colegas e apoiadores convocados pelas redes sociais já o esperavam na saída da estação Cinelândia. Todos seguiram o vereador até a Casa Legislativa.

Azevedo havia planejado uma entrada triunfal no Palácio Pedro Ernesto, prédio centenário que abriga a sede da Câmara. O roteiro foi cumprido à risca: todos caminharam na direção do edifício empunhando suas carteiras de trabalho. Azevedo segurava um cartaz onde se lia “Fim da Escala 6×1. Atualize a CLT, já”, com um QR Code que levava para o site da petição pública. “Chegamos e chegamos para ficar, doa a quem doer. Aqui tem classe trabalhadora”, bradou Azevedo na rua.

No meio do caminho, a advogada Patrícia Ikuno, vinda de São Paulo, se juntou ao grupo. Quando se aproximaram da escadaria, todos se reuniram para tirar uma foto. Azevedo fez um rápido discurso, que foi filmado para as redes sociais. Disse:

Estamos aqui na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para me empossar porque esse gabinete é da classe trabalhadora. Por muito tempo espaços como esse não foram cedidos para aqueles e aquelas que sustentam esse país. Agora chegamos para fazer diferente. Esse gabinete é dos trabalhadores do comércio, do setor de serviço, do varejo, dos trabalhadores que sustentam a base da pirâmide. Vamos juntos tomar posse do que é nosso por direito.

Familiares de Azevedo também estavam presentes, entre eles sua mãe e duas irmãs, vindas do Tocantins. “O po­vo na minha cidade não acreditava que ele ia ganhar, mas ele sonhou alto, desde criança”, disse a mãe. “Ele sempre quis fazer faculdade. Eu dizia: ‘Ricardo, a gente não tem condição.’ Mas ele insistiu nos sonhos dele.” Azevedo pretende visitar Taipas do Tocantins. Será a primeira vez que voltará para lá desde que chegou ao Rio, em 2015. Ele soube depois que muitos moradores da cidade se mobilizaram para acompanhar a apuração no Rio, na expectativa de o conterrâneo ser eleito. “Eles estavam mais ligados na eleição do Rio do que na de Taipas”, diz Rick.

Como vereador, Azevedo recebe um salário de 18 184,31 reais, quase dez vezes o que ganhava na última farmácia onde trabalhou. No gabinete, a jornada é 4 por 3, com um total de 36 horas semanais (a adaptação é permitida pela Câmara). A equipe de 22 pessoas é repleta de nomes do VAT. O advogado e amigo João Félix tornou-se chefe de gabinete. “Minha função é coordenar a equipe e representar o mandato na ausência do Rick. A gente faz a interlocução entre a comunicação, o jurídico, o administrativo.” Dos funcionários de ponta, todos cumpriam jornadas 6 por 1. São eles:

  • Mariana Moraes, que atuava nas comunidades de WhatsApp do movimento, agora é secretária de comunicação do vereador. Ela trabalhou como recepcionista e concierge em hotéis do Rio de Janeiro durante dez anos, seguindo a escala 6 por 1. Na pandemia, com uma filha pequena e o salário reduzido, decidiu sair do emprego e foi cursar artes cênicas na Cia. de Teatro Contemporâneo, em Botafogo, onde se formou no ano passado. Quando viu o vídeo de Azevedo no TikTok, logo ingressou em um dos grupos de WhatsApp. “Eu pensei: ‘Cara, chegou o revolucionário. Finalmente alguém apareceu.’” Moraes, que tem 37 anos, passou a frequentar os atos e encontros do VAT, panfletou nos estabelecimentos comerciais e convidou ex-colegas de trabalho para o movimento. Ela conta que a causa sempre foi bem recebida em toda parte no Rio.
  • O farmacêutico catarinense Thiago Guedes Augustinho, também de 37 anos, atua na logística e no administrativo do gabinete. Assim como Azevedo, ele trabalhou em farmácias, com uma única folga semanal. Chegou a ficar três anos seguidos sob um regime ainda mais desgastante, com a escala esticada por horas extras: uma única folga quinzenal (ou seja, jornada 13 por 1), com doze horas diárias de trabalho. A farmácia em Curitiba – cidade onde morava –, pagava hora extra para o excedente das oito horas diárias permitida por lei. “Costumava brincar com meus colegas que a gente trabalhava apenas para comer, mas que também era mentira, já que não podíamos nem comprar o que gostaríamos de comer, pois o dinheiro só dava para o básico”, diz Guedes, que conheceu Azevedo depois do primeiro vídeo no TikTok. “Imediatamente vi minha história nas palavras dele”, diz.

 

  • Fabiano Rodrigues é o assessor especial parlamentar, voltado para o processo legislativo. Paraibano, ele deixou o estado em 2007 para cursar direito no Rio de Janeiro, depois de ganhar uma bolsa. A fim de se sustentar e custear os estudos, trabalhou como vendedor em uma loja de produtos naturais, no regime 6 por 1. Conheceu Azevedo por intermédio de Félix e acompanhou passo a passo a criação do VAT. “Coloquei à disposição minha experiência na área jurídica e comecei a participar dos projetos: palestras, panfletagens, reuniões e mobilizações”, conta Rodrigues, de 38 anos.

 

  • Rafaele de Lima é assessora e cuida da logística interna do gabinete. Ela foi uma das primeiras amigas de Azevedo no Rio: os dois trabalharam juntos em uma farmácia em Copacabana. “Quando Rick me falou que queria se candidatar, eu virei pra ele e disse: ‘Cara, você vai vencer.’ Eu fechei uma loja que tinha e foquei no trabalho com ele”, diz.

 

O caminho até a Câmara de Vereadores exigiu de Azevedo muito tempo de trabalho, mais ainda que o dispendido nos tempos da farmácia. Em novembro passado, durante um evento no Circo Voador, no Rio de Janeiro, ele comentou com uma apoiadora: “Estou na luta e sem vida além do trabalho. Minha escala agora é 7 por 0.” Ele não tinha tempo nem para um de seus hobbies prediletos: andar de patins.

 

Hoje, o VAT é um movimento estruturado, com uma coordenadoria nacional composta por quatro membros: João Félix, o chefe de gabinete de Azevedo, e três assessores do vereador: Wesley Fabio, Priscila Araújo e Lis Melo, que em seus trabalhos anteriores faziam, todos eles, a escala 6 por 1. Abaixo da coordenadoria, estão as unidades regionais, uma para cada estado do Brasil, que são organizadas em grupos de WhatsApp e buscam dialogar com as demandas dos trabalhadores locais. Calcula-se que há 4 mil membros ativos nesses grupos, metade deles no estado de São Paulo. Até o momento, o VAT não tem uma sede física e todas as reuniões do movimento são feitas de forma remota. O seu perfil oficial no Instagram tem 331 mil seguidores.

O movimento não está vinculado ao partido de Azevedo. “O VAT não surgiu do Psol. Temos que ter diversidade: trabalhadores LGBTQIA+, os que estão no movimento negro, os do movimento da esquerda, os trabalhadores mais conservadores, os que são de igreja e os trabalhadores de direita”, diz Wesley Fabio, o coordenador. “O VAT é um movimento social, apartidário. Isso não quer dizer neutralidade política. Temos nossos valores e opiniões, mas não queremos segregar o trabalhador”, acrescenta Félix.

Nas reuniões da cúpula são definidas as datas e locais dos atos de rua. Os coordenadores estaduais têm autonomia para pensar as ações que farão em suas praças. A associação a outros movimentos e entidades é crucial na estratégia. Em dezembro o VAT-SP fez uma campanha de Natal em parceria com o Instituto Moleque Travesso, projeto social criado por um casal de torcedores do Clube Atlético Juventus, do bairro da Mooca. “Unimos os trabalhadores [militantes] do VAT para assistirem a um jogo de futebol, levamos panetones, brinquedos para as crianças. É uma forma de unir as famílias”, diz a coordenadora Priscila Araújo, que é paulista. Em Minas, onde há cerca de quatrocentos membros divididos em dez grupos de WhatsApp, o VAT aderiu a uma manifestação em janeiro, contra a escala 6 por 1, organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte.

O debate da escala 6 por 1 chegou até a tribuna do Carnaval. Com o slogan “Na luta e na folia”, o bloco Hora Extra estampou a pauta de Azevedo em seu desfile em Itabuna, no Sul da Bahia. “Nosso objetivo é trazer para a rua a demanda dos trabalhadores e temas que impactam a vida sobretudo dos comerciantes”, diz Amanda Santos, presidente do Sindicato dos Comerciários de Itabuna e Região, entidade que fundou o cortejo. Ela não conhece Azevedo pessoalmente, mas acompanha desde o início a repercussão do VAT.

 

No dia 9 de janeiro, Rick Azevedo apresentou a versão do projeto do fim da escala 6 por 1 para servidores terceirizados da Prefeitura do Rio. No lugar, propõe jornada não superior a 36 horas semanais, para serem cumpridas em quatro dias, na escala 4 por 3. No mesmo dia, alinhada com o colega carioca, a vereadora paulistana Amanda Paschoal, também do Psol, protocolou um projeto idêntico na Câmara Municipal de São Paulo. Apadrinhada por Erika Hilton, ela foi a quinta vereadora mais votada da capital paulista e é hoje a única mulher trans na casa.

Mas é em Brasília que o assunto está um pouco mais quente. Do lado da esquerda, Bohn Gass (PT-RS), vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, é um dos entusiastas da pauta. “O movimento está trabalhando bem esse slogan, o 6 por 1 como marca. Eu já falava desse tema da redução de jornada há muito tempo, mas agora tem um símbolo e isso pega”, diz o deputado. “O lobby patronal é grande. Acham que tem de explorar o trabalhador. Pensam só no seu lucro. Nós pensamos na vida.”

Gass foi signatário de outra PEC que passou pelo Congresso em 2019, proposta pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que já sugeria a redução para 36 horas semanais. A proposta parou na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado. Gass acredita que a PEC de Hilton tem mais chance de passar pela admissibilidade dessa comissão, que é o primeiro passo da tramitação, depois de obter o apoio de, pelo menos, 171 deputados. “A PEC da Erika vem com uma pressão social que a outra não tinha”, diz à piauí o deputado Tarcísio Motta.

No dia 25 de fevereiro passado, a PEC 8/2025 foi protocolada, com 210 assinaturas – 39 mais que o necessário – e agora passará pela análise da CCJ, presidida pelo deputado baiano Paulo Azi, do União Brasil. No pronunciamento à imprensa naquela tarde, no Salão Verde da Câmara dos Deputados, a deputada Erika Hilton estava ao lado de Rick Azevedo, da vereadora Amanda Paschoal e de outros parlamentares do Psol, além de quatro coordenadores do VAT. “Quero convocar todos a estarem nas ruas no dia Primeiro de Maio em revolta contra a escala 6 por 1”, anunciou Azevedo, o segundo a falar. “Nós vamos fazer um ato chamado Feriadão Prolongado. No dia 1º, vamos às ruas. No dia 2, todos vamos ficar em casa em protesto”, continuou, em tom efusivo. Esse será o primeiro grande ato nacional do VAT em seu mandato. “Estou muito feliz por esse protocolo hoje, mas sei que muita luta ainda está por vir. O movimento VAT vai parar o Brasil se a escala 6 por 1 não acabar”, concluiu o vereador.

Nas bandas da direita, entretanto, o deputado Ricardo Salles (Novo-SP) diz não acreditar que a PEC decole. “O nosso termômetro é o zum-zum-zum aqui pelos corredores do Congresso e no cafezinho. Ninguém está falando dessa pauta. Pode ser que no futuro isso mude, mas, hoje, não é um tema forte no Congresso”, diz ele. No meio empresarial, os críticos da proposta sublinham possíveis efeitos negativos, como o aumento dos custos de produção e de preços para os consumidores, além da demissão de funcionários. O sociólogo José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), avalia que a redução da jornada para 36 horas semanais significaria um aumento mínimo de 18% nas folhas de pagamento. “É insustentável para a maioria das empresas, em especial pequenas e médias. Daria mais de duzentos dias de descanso no ano. Todos pagos. Desconheço país que remunera mais o descanso do que o trabalho.” (A conta, na verdade, é um pouco menor: seriam em torno de 156 dias de descanso e 209 de expediente.)

Alguns países já reduziram há alguns anos a jornada para 35 horas, como França e Alemanha. Na Bélgica, o limite é de 38 horas. Na Alemanha, trabalhadores agora discutem a possibilidade de baixar ainda mais, para 28 horas, distribuídas em quatro dias. Esses países são exceção, no entanto. No início de 2023, um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), intitulado Working time and work-life balance around the world (Horas trabalhadas e equilíbrio do trabalho pelo mundo), mostrou que em 2019 mais de um terço da força de trabalho, nos 160 países analisados, estava sob um regime médio de 48 horas ou mais por semana. O setor de comércio tem as jornadas mais longas, de 49,1 horas por semana. O de transportes e comunicações chega a 48,8 horas, e o da indústria tem 47,6 horas.

Nos Estados Unidos, Suécia, Finlândia e Coreia do Sul, entre outros, vigoram as 40 horas semanais. Em fevereiro passado, a ministra do Trabalho e vice-­primeira-ministra da Espanha, Yolanda Díaz, apresentou ao Congresso uma proposta para reduzir a carga de 40 horas para 37,5 horas. Em países ricos, a discussão sobre a jornada 4 por 3 tem se ampliado, tanto mais com o crescente avanço da inteligência artificial e de novos serviços digitais.

“Se reduzirmos para 40 horas semanais já ficaríamos alinhados com as diretrizes da OIT em países desenvolvidos”, afirma o advogado Richard Henrique Coátio, autor do livro Escravidão contemporânea: a escala 6×1 no Brasil (Editora Processo). Ele defende que uma proposta de redução de 44 para 40 horas, e não para 36 horas, facilitaria mais o diálogo com o empresariado. Coátio é um entusiasta do debate do Congresso, mas diz que se decepcionou ao ler as sete páginas do texto de justificativa da PEC 8/2025, em razão da falta de embasamento teórico. “Têm muitos estudos que poderiam ser usados como base para convencer as pessoas de que é preciso haver redução da jornada de trabalho e nenhum foi apresentado no texto da PEC”, lamenta o advogado.

“No Brasil, uma redução de jornada planejada e que respeite a peculiaridade de cada setor envolvido tenderá a ser benéfica para a economia como um todo, com mais produtividade, geração de emprego e renda e recolhimento de tributos para o Estado”, diz Antonio Corrêa de Lacerda, professor do programa de pós-graduação em economia da PUC-SP. Os primeiros testes dão razão a Lacerda. Entre janeiro e junho do ano passado, a consultoria Reconnect Happiness at Work & Human Sustainability em parceria com a 4 Day Week Brazil, organização sem fins lucrativos que busca divulgar a semana de quatro dias no país, testou a adoção da escala 4 por 3 com 290 trabalhadores de dezenove empresas brasileiras de pequeno porte. Os resultados foram positivos – para trabalhadores e empregadores.

Entre os trabalhadores, 87,4% disseram ter tido mais energia para realizar as tarefas diárias, 71,5% ressaltaram o aumento na produtividade, 60,3% destacaram a ampliação do engajamento com a empresa, e metade falou em melhoria na relação com o chefe. Na visão dos patrões, os resultados também foram positivos: 83% disseram que as dinâmicas internas de trabalho melhoraram e 75% destacaram um funcionamento mais eficiente das equipes. No período da pesquisa, 63,6% das empresas tiveram aumento de lucro, e 36,4% diminuição (mas esses valores dependem de variados fatores). Apenas um terço das empresas precisou recorrer a trabalhadores temporários para cobrir o menor tempo de trabalho dos titulares. “Vivemos constantemente em uma pseudoprodutividade”, diz Renata Rivetti, presidente da Reconnect. “Os profissionais estão sobrecarregados e trabalhando muito mais, mas nada disso é sinônimo de produtividade e bons resultados finais.”

 

Na manhã do dia 31 de janeiro passado, a agenda de Rick Azevedo indicava um compromisso diferente: celebrar um mês de mandato. Para a pequena comemoração, o gabinete do vereador abriu as portas aos eleitores. Seis apareceram. “A gente quer que as pessoas se aproximem da política, esse é um dos principais objetivos do Rick”, explica Félix.

A mesa ao fundo do gabinete estava enfeitada com cupcakes cobertos de chantilly e uma plaquinha dourada em cima com a sigla VAT, brigadeiros e um generoso bolo de chocolate, onde estava escrito: “Vida Além do Trabalho (VAT) e fim da escala 6×1.” O bolo era uma surpresa para Azevedo, que ainda não tinha chegado. Salgadinhos, pães de queijo e sucos circulavam pelo curto corredor do gabinete, que ficava cada vez mais cheio.

Quando Azevedo chegou, às 11h40, acompanhado da mãe, havia cerca de trinta pessoas na sala. Depois de cumprimentar todos, parou diante das guloseimas e abriu um sorriso: “Gente, tem bolo! Parabéns para a gente.”

Antes de cantar o “parabéns” e cortar as fatias, os convidados da festa homenagearam o vereador, contando como o conheceram e exaltando sua relevância na luta por melhorias para a classe trabalhadora. “Gente, vou protocolar um projeto para resolver o ar-condicionado desse gabinete. Que calor é esse?”, disse Azevedo, com seu jeito extrovertido, que costuma arrancar risadas de quem está por perto.

Seu comportamento informal logo se converte em militância política. Ele de fato fez um requerimento a respeito da manutenção do ar-condicionado. Mas não em seu gabinete. Mandou ofícios à Prefeitura do Rio pedindo satisfação sobre a frota de ônibus e as redes de lojas da cidade que, segundo denúncia dos trabalhadores, estão desligando o ar-condicionado durante o expediente por medida de economia. (Até o fechamento desta edição, o gabinete de Azevedo não havia recebido nenhuma resposta da prefeitura.)

Para Azevedo, o principal desafio no seu primeiro mês de mandato foi lidar com o fato de que ninguém na política o conhecia. “Eu cheguei do nada”, disse. “Isso me coloca na posição de uma formiguinha que resolveu enfrentar leões.” Ele é também a formiga que atiçou o formigueiro.

A festa no gabinete atravessou o horário do almoço e parecia não ter horário para acabar naquela sexta-feira. Às três da tarde, porém, Azevedo precisou sair para pegar um voo rumo ao Recife, onde participaria de um evento com estudantes. Quando ele deixava o gabinete, uma servidora brincou: “Ele é nosso vereador federal.”

Pedro Tavares
Pedro Tavares

Repórter da piauí

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