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    Em Havana, sentam-se à mesa emissários das Farc (em primeiro plano) e do governo colombiano. Iniciado há vinte meses, o diálogo abarca cinco pontos, incluindo o narcotráfico e a futura participação de guerrilheiros na política. A demora para um acordo final fortalece os opositores da negociação FOTO: DIVULGAÇÃO_FOTO DE OMAR NIETO REMOLINA

carta de Havana e de Bogotá

A guerrilha na mesa

Como as Farc e um doutor em línguas mortas negociam em Cuba o fim de um conflito de cinquenta anos na Colômbia

Carol Pires | Edição 92, Maio 2014

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Não eram nem oito da manhã de 28 de fevereiro quando Fabián Ramírez chegou ao Palácio de Convenções, um edifício de 1979 na zona de embaixadas em Havana. Baixo, troncudo e bronzeado, com o bigode longo e ralo que é sua marca registrada, no lugar do costumeiro uniforme de camuflagem ele vestia calça social e camisa guayabera branca. Ramírez, codinome de José Benito Cabrera Cuevas, é um dos comandantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Contra ele existem 42 ordens de prisão e duas condenações por terrorismo, sequestro, subversão e homicídio qualificado. O governo americano já ofereceu 2,5 milhões de dólares por informações que levem a sua captura.

Desde o final de 2012, o governo colombiano negocia, em Cuba, o fim de uma guerra que já dura meio século. As tratativas reúnem trinta membros da guerrilha, encarregados de debater com representantes do Estado uma agenda que inclui cinco tópicos: o abandono das armas, a futura participação dos guerrilheiros na política institucional, a reparação às vítimas, a solução para o tráfico de drogas e a reforma agrária. O grupo não é sempre o mesmo, mas é sempre igual o número de integrantes. As Farc podem pedir a substituição de seus emissários, trocando-os por companheiros mais gabaritados para o tema em pauta. Quando uma nova leva desembarca na capital, um número equivalente de guerrilheiros precisa voltar à Colômbia. Em um ano e meio, porém, nunca um membro do Bloco Sul, um dos mais poderosos das Farc, havia sentado à mesa, o que era interpretado como sinal de que parte dos guerrilheiros resistia a um eventual acordo. Ramírez, número dois na hierarquia do Bloco Sul, chegou para pôr fim às especulações. Mantida em sigilo até o último minuto, sua ida a Cuba exigiu uma operação que teve início pelo menos duas semanas antes.

 

Cada vez que um guerrilheiro se desloca para Havana, o governo colombiano desmilitariza uma área de 50 quilômetros quadrados. Por 36 horas (ou, em alguns casos, até 48), no terreno delimitado não paira sombra de autoridade judicial, policial ou militar, de modo a franquear a mobilidade dos emissários das Farc. A Interpol retira temporariamente da lista de procurados os nomes dos guerrilheiros em trânsito. No dia da operação o piloto recebe um GPS para saber onde deve recolher os passageiros; as coordenadas exatas chegam quando a aeronave já está no ar. O sigilo é fundamental para garantir a segurança dos guerrilheiros, que só aceitam sair da selva com a intermediação da Cruz Vermelha, organização internacional e independente. Cada uma dessas operações conta com uma equipe de vinte pessoas e um orçamento de até 50 mil dólares.

Fabián Ramírez e outros dois rebeldes partiram de algum ponto no estado de Caquetá, perto da fronteira da Colômbia com o Peru e o Equador. O avião que os levou a Cuba fez uma parada na ilha colombiana de San Andrés e pousou em Havana na noite de quinta-feira, 27 de fevereiro. No dia anterior, por um lapso, a assessoria de imprensa do Ministério da Defesa da Colômbia havia divulgado a agenda secreta que o ministro Juan Carlos Pinzón cumpriria nos Estados Unidos, para onde viajara a fim de tratar de acordos militares. Na manhã seguinte, sexta-feira, antes de tomar assento na sala de negociações em Havana, os representantes da guerrilha fizeram dois comunicados aos jornalistas autorizados a acompanhar o diálogo.

“É evidente que o governo manipula dois discursos, duas agendas diferentes para a condução do destino do país. Além da Agenda de Paz de Havana, uma Agenda de Guerra segue sendo tramada em conluios obscuros com os Estados Unidos”, leu Iván Márquez, deputado nos anos 80 e hoje um dos seis integrantes do Secretariado das Farc. O segundo anúncio era sobre a chegada de Ramírez, que não falou com os repórteres.

 

 

Na manhã da sexta-feira anterior, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, saiu do Palácio de Nariño para a posse dos novos comandantes das Forças Armadas. Acompanhava-o uma potente comitiva: três carros blindados importados, quatro SUVs, seis batedores em motos, uma van com funcionários do seu staff pessoal, uma ambulância e um jipe de onde emergia um soldado armado de binóculo e fuzil. No caminho, os transeuntes pareciam não se espantar com o comboio cortando o tráfego da Carrera 7, uma das principais vias de Bogotá. Embora a capital registre os menores índices de violência dos últimos anos, ao cruzar alguma rua próxima à sede do governo ainda faz parte da rotina da população ter de abrir bolsas e mochilas para a revista de policiais armados. Ou permitir que cães farejem seus carros na entrada de shoppings mais luxuosos.

Num país em que 358 prefeitos e 75 congressistas foram sequestrados nas últimas quatro décadas, e onde seis candidatos a presidente foram assassinados em plena campanha no último século, não espanta ninguém o espetáculo de políticos em caravanas blindadas. E Juan Manuel Santos, além de presidente, é candidato à reeleição no pleito do dia 25 de maio. Sua principal bandeira consiste justamente no fim negociado de um conflito que envolve não só as guerrilhas e as forças de segurança oficiais, mas grupos paramilitares de direita, narcotraficantes e quadrilhas criminosas. Em cinco décadas, a guerra colombiana provocou 220 mil mortes, 176 mil delas de civis, segundo o Centro Nacional de Memória Histórica. E, depois de tantos anos de violência, engendrou uma sociedade traumatizada, exausta e cheia de sequelas. Negociar com as Farc é um risco político e pessoal para o presidente.

A troca do comando militar que Santos iria conduzir dali a alguns minutos tinha sido motivada por denúncias da Semana, a revista mais influente do país. A publicação havia apurado escândalos de corrupção na cúpula das Forças Armadas e a existência de um bunker de escutas ilegais montado para grampear os negociadores do processo de paz – o que provava que nem mesmo o Exército apoia totalmente o presidente.

 

Em menos de vinte minutos, o comboio foi do Centro até a Escola Militar de Cadetes General José María Córdoba, no norte da cidade. Para os novos comandantes, Santos repetiu dezoito vezes a palavra inimigo – os externos e os internos, igualmente perigosos porque “vão enfraquecendo a credibilidade e a legitimidade das instituições”. “É como um cupim, que vai comendo a madeira”, disse. Em meio às fardas, três pessoas se destacavam: Juan Manuel Santos, discursando de pé, vestia terno cinza e gravata verde-clara; seu ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzón, também de terno, exibia seu rosto jovial e o cabelo empapado de gel. Atrás dos dois, sentado, estava um terceiro civil: Sergio Jaramillo Caro, o alto-comissário para a Paz. Destoava da postura soldadesca dos demais: passou quase toda a cerimônia com a cabeça abaixada e os dedos tamborilando no celular.

Jaramillo dava instruções a sua equipe, com a qual viajaria dali a dois dias para a 21ª rodada de negociações em Havana. Enquanto o presidente governa e faz campanha, é ele quem senta cara a cara com os guerrilheiros em Cuba.

 

Sergio Jaramillo é o típico anti-herói. Quando o presidente Santos o nomeou alto-comissário para a Paz – um cargo análogo ao de chefe do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos –, foi chamado pela imprensa colombiana de “provavelmente o funcionário mais estranho da cúpula do governo” e “intelectual a quem muitos acrescentariam o adjetivo ‘esquisito’”. Num perfil publicado pelo respeitado site de análises políticas La Silla Vacía, menciona-se sua índole reservada: “Alguém que o conheceu disse que ele fala muitos idiomas [inglês, francês, alemão, russo, italiano, latim e grego], mas seria bom que praticasse pelo menos o espanhol”, diz um trecho. Enrique Santos, irmão mais velho do presidente, confidenciou-me que Jaramillo lhe parecia “alguém recém-chegado de Marte”.

Filho da burguesia bogotana, o comissário é parente distante do presidente Juan Manuel Santos, a quem só conheceu quando foi convidado a integrar o Ministério da Defesa, em 2006. A fundação das Farc completa cinquenta anos neste mês. Jaramillo fez 45. Aos 14, saiu do país para estudar em um internato no Canadá. Formou-se em filosofia e filologia pela Trinity College de Toronto e pela Universidade de Oxford, e concluiu o mestrado em Cambridge. Sua especialidade são línguas mortas – latim e grego antigo.

Candidato a uma vaga de doutorado na cadeira de grego da Universidade de Heidelberg, aos 32 anos de idade ganhava a vida lavando pratos e preparando saladas num café alemão. Corria o ano 2000 e ele decidiu que era hora de voltar à Colômbia. Lá, o presidente Andrés Pastrana estava às voltas com a última grande tentativa de negociação com as Farc. O primeiro emprego de Jaramillo em Bogotá foi no programa Diplomacia para a Paz, do Ministério de Relações Exteriores; era o encarregado de buscar apoio internacional para o Plano Colômbia, recém-criado em parceria com os Estados Unidos para combater a produção e o tráfico de cocaína, bem como as guerrilhas.

Jaramillo fala pouco e baixo, características que podem ter colaborado para que o presidente lhe tenha confiado a missão de estabelecer os primeiros contatos com as Farc. Por dois anos, essas conversas aconteceram sem que a imprensa desconfiasse. Se raras são suas aparições em público, mais raras são suas entrevistas. É capaz de introduzir longas pausas no meio de uma frase, como se ensaiasse em silêncio o que vai falar em seguida. Pode ser incômodo para o interlocutor, mas é perfeito para a condução de uma estratégia que precisa ser minuciosamente pensada.

Ele me recebeu em seu apartamento, onde vive com a mulher, na noite de uma segunda-feira, em meados de fevereiro. Quando cheguei, despedia-se de um grupo de americanos a quem oferecera um jantar. A sala ampla, recoberta de estantes com livros de filosofia e literatura latino-americana, era iluminada por sete luminárias e um candelabro. Um quadro com o mapa da Colômbia se apoiava numa das paredes, sobre o chão, ao lado do aparelho de som. Uma sonata para violino, de Brahms, tocava a todo volume.

A duas quadras de seu apartamento se encontra o Club El Nogal. Em fevereiro de 2003, um atentado terrorista explodiu 200 quilos de dinamite no estacionamento do prédio, deixando um saldo de 36 mortos e 200 feridos. A polícia atribuiu a autoria da explosão à Coluna Teófilo Forero. Considerado a elite militar das Farc, o grupo está sob o comando do Bloco Sul, cujo subcomandante, Fabián Ramírez, dali a alguns dias chegaria a Havana para negociar com a comissão de Sergio Jaramillo.

 

As Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, Ejército del Pueblo – FARC-EP – são a guerrilha mais antiga em atuação no continente. Foram fundadas em 27 de maio de 1964 pelo Partido Comunista com o objetivo de promover mudanças sociais que acabassem com a “dominação da oligarquia” e o “imperialismo ianque”.

A Colômbia viveu cerca de vinte guerras civis entre liberais e conservadores no século XIX – embora se dissesse que a única diferença entre as duas correntes consistia no horário da missa que frequentavam –, e entrou no século XX sob intensos conflitos agrários. A tensão chegou ao limite em 1948, quando foi assassinado o líder do Partido Liberal Jorge Eliécer Gaitán. Reformador social populista, de retórica modernizadora e antioligárquica, nos moldes do brasileiro Getúlio Vargas, era certo que seria eleito presidente. Morreu ao sair de seu escritório para ir ao encontro do jovem advogado Fidel Castro, que participava em Bogotá do Congresso Latino-Americano da Juventude. Gabriel García Márquez lembrava em entrevistas que tentou se aproximar do local do crime, mas não chegou a ver o corpo de seu ídolo político. A partir daquele momento, o tema da violência seria incorporado à obra do escritor.

O assassinato deflagrou o Bogotazo, levante popular que resultou em 3 mil mortos. Abafada na cidade, a revolta se espalhou pelo campo, provocando, ao longo de uma década, mais de 200 mil mortes. As pessoas usam a expressão La Violencia para se referir ao período. É na esteira desse ciclo de conflitos que surgem, nos anos 60, os grupos armados patrocinados por grandes proprietários rurais e as guerrilhas de esquerda. Destas, as principais eram o Exército de Libertação Nacional (ELN), inspirado no foco rural que culminara na Revolução Cubana; o Exército Popular de Libertação (EPL), influenciado pela estratégia maoista de guerra prolongada; e as Farc. Anos depois ainda surgiria o Movimento 19 de Abril (M-19), guerrilha nacionalista urbana.

Por anos, as Farc não passaram de mais um entre tantos grupos armados de esquerda. Quase foram dizimadas na década de 70 e em 1975 enviaram uma carta ao então presidente Alfonso López Michelsen propondo trégua definitiva em troca de reforma agrária. López não aceitou negociar.

No final dos anos 80, a queda do Muro de Berlim acelerou o fim das guerrilhas na América Latina. Grupos de El Salvador e da Guatemala depuseram as armas em negociações de paz. Na mesma época, porém, o eixo da exportação de cocaína se estabeleceu na Colômbia. Plantações de folha de coca se espalharam pela periferia do território, onde guerrilhas e grupos paramilitares haviam tomado o lugar do Estado.

O programa político das Farc, resumido numa plataforma de dez pontos, propõe que as Forças Armadas se ocupem apenas da defesa externa, que setores econômicos estratégicos sejam estatizados, que a economia se volte para o mercado interno e que 50% do orçamento nacional sejam destinados a gastos sociais. Tal agenda, no entanto, se escora em métodos de financiamento ilícitos. Desde seu surgimento, o grupo recorre a sequestros para fins de extorsão e, a partir dos anos 80, também à participação, direta ou indireta, no tráfico de drogas. Em 34 países, dentre eles o Peru, os Estados Unidos e os 27 membros da União Europeia, as Farc são consideradas um grupo terrorista. Os demais países latino-americanos, incluindo o Brasil, se abstêm de empregar esse qualificativo.

 

Rubén Zamora está sentado no lobby do Hotel Palco, ao lado do Palácio de Convenções de Havana, numa manhã quente de fevereiro. Tem o cabelo já grisalho cortado curto, veste roupa social e usa óculos de grau. Ele conta que se filiou às Farc para não ser mais um na cifra de mortos da União Patriótica – o partido de esquerda criado em 1985, na primeira tentativa de pôr fim ao conflito civil colombiano, liderada pelo presidente Belisario Betancur. A União Patriótica chegou ater representação no Congresso, mas acabou extinta depois que 2 candidatos presidenciais, 7 congressistas, 13 deputados estaduais, 69 vereadores, 11 prefeitos e milhares de militantes foram assassinados.

O surgimento da União Patriótica coincidiu com um dos períodos mais violentos na Colômbia, quando narcotraficantes do calibre de Pablo Escobar ganharam protagonismo. Nos anos 90, o índice de homicídios chegou a 90 por 100 mil habitantes, um recorde internacional. Em Medellín, berço do cartel de Escobar, atingiu 381 por 100 mil. Em resposta ao sequestro da irmã de um dos chefões da droga pelo M-19, os narcotraficantes passaram a financiar grupos paramilitares como o MAS (Muerte a Secuestradores), dedicado exclusivamente a assassinar militantes da esquerda armada.

Zamora era dirigente sindical agrário quando a União Patriótica despontou. “Como eu fazia militância, me vi tendo de tomar uma decisão muito complicada”, contou, sentado no café do hotel, não muito longe da sala onde seus companheiros discutiam soluções para acabar com o tráfico de drogas na Colômbia. “Ou eu saía do país, porque estavam liquidando todas as cabeças de organizações sociais e eu ia acabar sendo morto, ou morria fazendo meu trabalho. A outra opção era entrar para a luta insurgente.” Ele tinha 24 anos quando se uniu às Farc. Hoje, aos 51, é descrito pela imprensa como “o durão das Farc em Catatumbo”. Uma das regiões mais tensas da Colômbia sob domínio da guerrilha, Catatumbo fica na fronteira com a Venezuela e é rica em petróleo, minério e gás. Zamora confirmou que as empresas lá instaladas pagam um “imposto”, também conhecido como vacuna (vacina) – extorsão prevista na lei 002 do grupo. Pessoas físicas ou jurídicas com patrimônio superior a 1 milhão de dólares devem desembolsar 10% de seu lucro. “Quem não atender esse requerimento será retido. Sua liberação dependerá do pagamento a ser determinado”, diz a lei guerrilheira.

“Esse imposto recupera um pouco do que eles roubam. Devolve parte do dinheiro às reivindicações políticas dos trabalhadores”, continuou Zamora. Segundo ele, as Farc tentam boicotar “de forma premeditada” a presença de investimento estrangeiro por terem a convicção de que seus empreendimentos são responsáveis pela “depredação ambiental e social” do país. “Além de explorar os trabalhadores de forma indiscriminada, eles expulsam as pessoas de seus territórios para implementar a exploração de minério, e o dinheiro vai para paraísos fiscais. Não precisa ser exatamente como estão fazendo os venezuelanos e os equatorianos, que detêm 60% das ações de todo investimento estrangeiro [em recursos naturais], mas sejamos razoáveis”, argumentou.

Dos trinta guerrilheiros em Havana, dez participam da mesa de negociações: cinco plenipotenciários, pois investidos de plenos poderes, e suplentes os outros cinco. Os demais atuam como assessores. Do lado do governo colombiano, a formação é exatamente a mesma: plenipotenciários, suplentes e os demais, num total de trinta. Durante a semana que passei em Cuba, não pude escolher quais guerrilheiros eu iria entrevistar, tampouco sabia quem seriam eles até o momento do encontro. Zamora foi o primeiro a aparecer no café do Hotel Palco – local previamente combinado, onde eu deveria ficar a postos no início de cada manhã.

Rubén Zamora é um dos cinco suplentes – participa de grupos temáticos, mas nem sempre comparece à reunião principal. Um informe interno do governo diz que ele tem “dom de comando, excelentes relações interpessoais, é um grande escritor (poeta), bom orador, muito analítico, grande leitor, capaz de manter conversas sobre diversos tópicos, bom organizador de massas, visionário de trabalho urbano”. A descrição era precisa.

Zamora mal conseguiu refrear a perturbação que o tomou à lembrança do tiro que levou na perna durante um dos combates contra o Exército. Perguntei se, no momento em que imaginou que iria morrer, havia se arrependido da luta armada. “Não, jamais. Senti certo orgulho, era meu sangue. Escorria por uma causa justa. O apoio da população camponesa dá muito estímulo, você percebe que está defendendo uma causa que é de todos. Como dizia o Chávez, eu não sou eu, eu sou um povo.” Era o típico discurso de um revolucionário romântico dos anos 60.

Por quase três décadas Rubén Zamora não saiu das montanhas. Apesar do ambiente hostil – longas e constantes caminhadas por terrenos íngremes, o peso das mochilas e das provisões, a mata fechada, os raios da região que já mataram companheiros –, ele dizia sentir falta da vida na natureza. Está em Cuba há um ano e meio.

 

A mais conhecida tentativa do governo colombiano de dialogar com as guerrilhas começou em 1999. O então presidente Andrés Pastrana desmilitarizou cinco municípios da região de Caguán, totalizando uma área do tamanho do estado do Rio de Janeiro. No primeiro dia da negociação, a tevê filmou o chefe do governo à espera de Manuel Marulanda, fundador e líder das Farc. O guerrilheiro fez forfait, brilhou pela ausência. A imagem de uma cadeira vazia parecia prenunciar o fracasso posterior.

A região de Caguán se converteu em base de treinamento das Farc, que lá se reorganizaram. Em três anos passaram a contar com um exército de 20 mil homens. Nos últimos meses da negociação, em 2002, a guerrilha realizou ações espetaculosas: sequestrou um avião comercial e a candidata presidencial Ingrid Betancourt. O malogro de Caguán escancarou a ferida na sociedade colombiana que explicaria a eleição, naquele ano, de Álvaro Uribe Vélez, ex-governador do estado de Antioquia, sob o slogan Mano firme, corazón grande.

Na sua autobiografia, No Hay Causa Perdida, Uribe relembra seus anos na faculdade de direito, na década de 70, quando “a esquerda radical marxista-leninista alardeava o monopólio da razão nas universidades públicas da Colômbia”. “Minhas ideias eram radicalmente diferentes”, ele conta, “gostava de estudar as obras ‘subversivas’ de ‘revolucionários’ como Platão e Aristóteles, o que era o equivalente colombiano de caminhar pelo campus de Berkeley da Universidade da Califórnia com um bottom da campanha Nixon’72”. Uribe se elegeu defendendo a segurança como pilar da política colombiana. Sua chamada Política de Segurança Democrática expandiu os efetivos militares para todas as regiões do país, diminuindo o poder de ação das guerrilhas. Foi Sergio Jaramillo, hoje alto-comissário para a Paz, quem desenhou o projeto.

Jaramillo havia acompanhado o processo de Caguán por dentro: além de trabalhar no programa Diplomacia para a Paz, serviu na embaixada em Paris, divulgando as negociações na Europa. Em 2002, ingressou no governo Uribe como assessor estratégico da ministra da Defesa, Marta Lucía Ramírez, sua ex-chefe na embaixada. “O plano tinha como eixo a ideia de recuperar a autoridade, estender o estado de direito a todo o território”, explicou-me Jaramillo. “Em 2000, sofríamos quase 3 mil sequestros por ano. Conseguimos reduzir essa cifra drasticamente.” Em 2013, a polícia registrou 292 pessoas sequestradas na Colômbia – 21% delas vítimas das Farc e do ELN, grupo menos poderoso, mas ainda atuante. O projeto de segurança estabeleceu um programa de recompensas a informantes, estimulou deserções oferecendo penas mais brandas a guerrilheiros e criou unidades de soldados camponeses. Entre 2002 e 2010, o país alocou entre 5% e 6% do PIB na defesa (mais do que em educação) e o Exército colombiano passou a ser o mais numeroso do continente, atrás apenas do norte-americano.

O investimento foi financiado pelo Plano Colômbia. Desde 1999, o país recebeu 8 bilhões de dólares do governo dos Estados Unidos – um recorde na ajuda militar a países latino-americanos. O dinheiro foi usado em controversas fumigações de plantios de folha de coca (que destroem as plantações, mas tambémcausam danos ao meio ambiente e à saúde), na compra de helicópteros e no treinamento da inteligência militar e de batalhões antinarcóticos.

 

Diana Grajales completou 28 anos. É magra, tem a pele clara, os cabelos longos e cacheados, e usa brincos de miçanga. No punho, traz uma cicatriz de bala; no braço esquerdo, tem embutida uma placa de titânio; nos braços e nas costas, veem-se várias pequenas cicatrizes. É guerrilheira das Farc há quase nove anos.

Nascida em Bogotá, ela frequentava as aulas inaugurais da faculdade de pedagogia infantil e ajudava a mãe em projetos sociais na periferia quando começou a se aproximar da guerrilha. Ela e as irmãs alfabetizavam crianças cujas famílias, expulsas de suas cidades por paramilitares, haviam se refugiado na capital. “Minha mãe tinha uma visão assistencialista do problema e eu já começava a pensar que o melhor era reunir aquelas pessoas e ensiná-las a lutar por seus direitos. Isso virou uma briga lá em casa”, ela me contou em Havana, onde assessora os negociadores das Farc. Cabe a ela alimentar as redes sociais da guerrilha – site, Facebook, Twitter e Flickr.

No trabalho social, Diana se aproximou de um rapaz que também dava assistência às famílias deslocadas, e ele acabou lhe confidenciando pertencer às Farc. “Ele começou a me emprestar uns livros, leituras sobre o materialismo histórico dialético”, disse. Aos 19, ela se juntou à guerrilha. Dois anos depois, sua irmã mais nova fez o mesmo. “Para a minha mãe foi terrível”, conta. “Ela chorou muito. Há um estigma muito grande. O que a imprensa diz é mentira, é cruel. Mas uma mentira repetida mil vezes vira verdade.” Na primeira etapa, Diana recebeu preparação política e militar. “Estudamos estratégia militar, camuflagem na selva, os estatutos de comando, e também por que somos bolivarianos, por que somos marxistas, por que somos leninistas, por que somos um partido em armas.” Depois de um ano e meio de preparação, ela foi recrutada para a “ordem pública”, como se referem ao combate armado. Aos 20 anos, começou a pegar em fuzis para enfrentar o Exército.

Ter medo faz parte, diz Diana, “mas você consegue vencê-lo quando está totalmente convencido de uma causa”. O mais difícil, segundo ela, foi se adaptar ao esforço físico da vida nas montanhas. Sobre ser mulher em meio a um exército majoritariamente masculino, ela repetiu algo que eu já ouvira de outros guerrilheiros: “A guerra é dura e complexa para homens e mulheres, e para a nossa organização a fraternidade está na ordem do dia – caso contrário seria impossível sobreviver em uma guerra tão assimétrica, em condições topográficas tão difíceis.” Mas admitiu: “O machismo da sociedade também tem seus reflexos, claro. A guerrilha não é uma bolha.”

Diana faz parte de uma geração que entrou para as Farc durante a ofensiva militar do governo de Álvaro Uribe. Há quatro anos ela perdeu o companheiro, morto num confronto com o Exército. Sua irmã mais nova, então com 20 anos, havia morrido durante um bombardeio poucos meses antes. “Minha irmã era minha alma gêmea. Ela e meu companheiro morreram num intervalo de poucos meses, foi muito difícil para mim”, disse.

Entre 2002 e 2008, a taxa de homicídios foi reduzida em 40%, os sequestros extorsivos diminuíram mais de 80% e os atentados terroristas praticamente desapareceram. Somando-se prisões, baixas e desmobilizações, o número de guerrilheiros caiu pela metade. No final do primeiro mandato de Uribe, Jaramillo deixou o governo para dirigir a fundação Ideas para la Paz, criada por empresários com o intuito de propor iniciativas para o fim do conflito armado. Em 2005, Uribe conseguiu aprovar a possibilidade de reeleição e foi confirmado nas urnas. Nomeou Juan Manuel Santos como novo ministro da Defesa, e Santos chamou Sergio Jaramillo para ser seu vice-ministro. O ataque à guerrilha continuaria, mas as ações passariam a ser mais precisas.

 ***

Carmenza Gómez Romero me contou sua história num domingo de fevereiro, num restaurante no Centro de Bogotá. De olhos amendoados e com expressão triste, ela trazia os cabelos curtos tingidos de um preto quase azulado, e os lábios pintados de vermelho.

Sua fuga, que nunca mais terminaria, começou numa manhã do verão de 1984. Com cinco filhos ainda pequenos, saiu da cidade de Villavicencio, duas horas ao sul da capital, por volta das cinco da manhã. O marido, alcoólatra, a ameaçava de morte. Em Bogotá, casou outra vez e teve mais três filhos: Victor, Jason e Alejandro. Grávida do último, o novo marido pediu que ela abortasse. Diante de sua negativa, romperam a relação. As filhas do primeiro casamento, ainda adolescentes, estudavam em horários diferentes para poderem se revezar nos cuidados dos irmãos menores.

No final de 2008, Carmenza parecia finalmente ter encontrado uma vida mais ou menos tranquila: os cinco filhos do primeiro marido estavam casados e ela vivia em Soacha, na periferia de Bogotá, com os três mais novos. Foi quando Victor, o mais velho dos três últimos, recebeu uma proposta para trabalhar no estado de Santander, a 430 quilômetros da capital, no norte. Victor e dois amigos viajaram no mesmo dia.

Foram encontrados mortos uma semana depois, registrados como guerrilheiros das Farc abatidos em combate. Ao fazer a identificação do irmão, Jhon – um dos filhos do primeiro casamento de Carmenza – reconheceu, além dos três amigos, os corpos de outros jovens de Soacha. Estranhou que nunca tivesse sabido da conexão deles com a guerrilha. E também achou pouco provável que os rapazes tivessem sido enviados para a linha de frente apenas uma semana depois de recrutados pelas Farc.

As investigações mostraram que Victor e os dois amigos estavam numa mercearia quando foram abordados. Levados a Santander, foram mantidos reféns até seis da tarde do dia seguinte, quando passaram às mãos de um oficial do Exército. “Eles os colocaram para correr e dispararam pelas costas, para simular morte em combate. Depois vestiram uniformes da guerrilha nos corpos.
A roupa de civil estava toda esburacada, mas os uniformes estavam intactos”, contou Carmenza. Victor recebeu dezoito tiros. “Meu filho estava destroçado. Vi a foto colorida. É horrível, horrível. Ainda deram um tiro de misericórdia aqui”, disse ela, apontando o dedo indicador entre os olhos.

Carmenza denunciou o caso, mas ela e os filhos começaram a sofrer ameaças por carta e por telefone. Cinco meses depois da morte de Victor, Jhon foi assassinado. Ela me disse que pede perdão a Deus porque tentou se jogar do ônibus expresso que corta a cidade, mas foi impedida por um amigo. No último Réveillon, sofreu dois infartos e passou três dias no hospital. “Sinto que estou perdendo as forças, meu coração está apagando. Hoje, rogo a Deus para não morrer antes que prendam os culpados.”

O episódio dos garotos de Soacha trouxe à tona outros casos de civis registrados como mortos em combate, resultando num escândalo que ficou conhecido como “Falsos Positivos”. Militares os apresentavam como guerrilheiros para inflar o número de baixas no contingente inimigo, e ganhar condecorações e recompensas em dinheiro oferecidas pelo governo Uribe. O escândalo teve repercussões internacionais e pôs em risco o apoio político e financeiro de vários países. Sergio Jaramillo, como vice-ministro da Defesa, advogou internamente pela abertura de inquérito. Contra o lobby de setores militares, conseguiu criar um comitê para investigar o caso, com representantes da Procuradoria da República, das Forças Armadas, da Cruz Vermelha e das Nações Unidas.

Até julho de 2013, a Procuradoria havia aberto investigações sobre 2 278 casos de assassinatos ilegais cometidos por agentes do Estado, contabilizando cerca de 4 mil vítimas. Foram condenados até hoje 605 militares. A partir desse episódio, Jaramillo projetou novas políticas de direitos humanos para os militares, a fim de que cada oficial aprendesse, de maneira mais prática, as regras de direito internacional humanitário. As condecorações e recompensas passaram a ser por capturas, e não mais por baixas – e esse novo sistema de reconhecimento de serviços prestados lhe angariou a inimizade de parte das Forças Armadas.

 

Ao caso dos Falsos Positivos veio se somar outro escândalo. Em 2003, Álvaro Uribe criou um programa de desmobilização dos 30 mil integrantes das Autodefesas Unidas da Colômbia, grupo de ultradireita também ligado ao narcotráfico. Em troca da reintegração à vida civil, eles abandonariam as armas e confessariam seus crimes, pelos quais obteriam penas mais suaves. Investigações da imprensa e da própria Justiça descobriram, entretanto, que muitos que se diziam paramilitares eram criminosos comuns que se aproveitavam da lei, ou pessoas pagas para que o número de desmobilizados fosse mais impactante. No Congresso Nacional, 68 parlamentares foram investigados por ligações com os grupos paramilitares; trinta deles foram presos. Ainda hoje perdura a suspeita de possíveis conexões que incriminariam o próprio Uribe, mas nada foi provado.

Apesar das controvérsias, o presidente terminou seu governo, em 2010, com 80% de aprovação. Sob seu comando, o Exército matou Raúl Reys, líder das Farc bombardeado em território equatoriano. A despeito de ter desencadeado uma crise regional, a ação resultou no enfraquecimento do comando da guerrilha. Em 2008, Uribe também resgatou Ingrid Betancourt, sequestrada sete anos antes, numa operação militar digna de Hollywood – mas que enfureceu a Cruz Vermelha, cujo símbolo foi usado sem autorização.

Contemporâneos no exercício do cargo, os presidentes Álvaro Uribe e Hugo Chávez defendiam posições opostas no espectro político, viviam brigando devido à proximidade do venezuelano com a guerrilha e chegaram a romper relações. Mas, tal como seu vizinho, o colombiano é um personalista de almanaque. A fazenda que tem desde jovem se chama Ubérrimo. Seu antigo partido é o Partido de la U (um trocadilho entre União e Uribe). Hoje, ele é presidente do Centro Democrático, nome ao qual teria acrescentado Uribe se a Justiça Eleitoral não tivesse vetado.

Uribe ainda quis mudar a Constituição mais uma vez para concorrer a um terceiro mandato, o que provocou a saída de Sergio Jaramillo. Numa das poucas ocasiões em que frequentou as manchetes, Jaramillo justificou sua demissão: “Nada dá mais legitimidade a uma democracia presidencial que as regras que determinam a distribuição e alternância [de poder]”, escreveu em 2009. Impedido de disputar a Presidência pela terceira vez, Uribe demorou para se decidir por um sucessor e foi atropelado por seu ministro da Defesa: Juan Manuel Santos se lançou candidato e acabou recebendo o apoio de um presidente contrariado.

Em 2010, Santos foi eleito com 68,9% dos votos. No dia da posse, seu discurso já insinuava uma ruptura com o antecessor. Primeiro, declarou que um dos seus “propósitos fundamentais” seria reconstruir os vínculos com a Venezuela e o Equador. Depois, que seu governo estaria aberto ao diálogo com os “grupos armados ilegais que invocam razões políticas”, com os quais Uribe sustentava ser inviável qualquer conversa.

O ex-presidente sempre insistiu em chamar as Farc de terroristas, pois assim pensava tornar mais exequível o financiamento internacional para derrotá-las militarmente. A Colômbia, que é cortada pelos Andes, tem três cordilheiras e 42% do território coberto pela floresta amazônica, apresenta uma complexidade geográfica tal que, aliada ao dinheiro proveniente do narcotráfico e à facilidade com que a guerrilha se camufla e coopta novos adeptos, faz do extermínio das Farc um desafio quase impraticável. “A meta de dar cabo de todos os guerrilheiros é uma utopia e nos tomaria outros cinquenta anos”, disse o presidente Santos em discurso recente.

Do lado da guerrilha, praticamente desprovida de apoio na população urbana, sabe-se que chegar ao poder pelas armas tampouco é alternativa factível. Além disso, não bastasse a ascensão de governos bolivarianos na Venezuela, no Equador e na Bolívia, o fato de países como El Salvador, Nicarágua, Uruguai e Brasil terem eleito presidentes que já fizeram parte da esquerda armada reforça entre os militantes a impressão de que não haverá momento melhor para formalizar um partido de esquerda.

O presidente uruguaio José Mujica, ex-guerrilheiro dos Tupamaros, foi ao encontro dos negociadores em Havana advogar pelo acordo de paz. A presidente Dilma Rousseff nada declarou sobre as tratativas do país vizinho, mas também é vista como exemplo. Ouvi de dois guerrilheiros o comentário de que admiravam inclusive a maneira sóbria como ela se veste. Pouco depois, um deles, baixote, tornou a conversar sobre a presidente. Queria saber se a mandatária era muito mais alta que ele, e eu lhe perguntei, meio brincando, se nutria algum interesse romântico por ela. “Se você fosse uma repórter de televisão, para responder a essa questão eu só olharia para a câmera e faria assim…”, disse, fechando os olhos e dando um longo suspiro.

 ***

Juan Manuel Santos Calderón nasceu em 1951, filho de uma família de classe alta de Bogotá, dona do jornal El Tiempo, um dos mais influentes do país. Estudou na Escola Fletcher de Direito e Diplomacia, e em Harvard, onde foi bolsista da Fundação Nieman. O escritor mexicano Carlos Fuentes, de quem ele foi aluno, o descreveu como um homem de “olhar felino, barômetro de um sorriso franco, permanente e, por isso, quase ameaçador”. Santos nunca havia participado de uma eleição quando disputou o cargo máximo.

No primeiro mês de governo, o presidente começou, em sigilo, a estabelecer contatos com as Farc. Os emissários eram Sergio Jaramillo e seu chefe de gabinete, Frank Pearl; os recados foram intermediados por um facilitador, um empresário de Cali cuja identidade nunca foi revelada. Como prova de boa-fé, Santos incluiu na negociação inicial seu irmão mais velho, Enrique Santos, jornalista que teve uma revista de esquerda com Gabriel García Márquez e que conhece pessoalmente a guerrilha.

As conversas não implicaram um cessar-fogo. Mono Jojoy, o chefe militar das Farc, foi morto pelo Exército numa operação cinematográfica. Por causa da diabete, o guerrilheiro usava um calçado especial que o protegia de escoriações nos pés. A inteligência militar localizou o fabricante das botas e implantou um GPS no solado de um par delas. Jojoy foi exterminado em 2010, num ataque aéreo com bombas de alta precisão.

Três meses antes do primeiro tête-à-tête entre um emissário das Farc e Sergio Jaramillo, o Exército empreendeu outro ataque preciso: matou Alfonso Cano, número um da guerrilha, depois de uma operação que durou quatro anos, ao longo dos quais os serviços de inteligência se infiltraram em território guerrilheiro. Mesmo com a morte de Cano, defensor de uma saída negociada para o conflito, as Farc decidiram levar adiante o diálogo. Representantes dos dois lados se encontraram pela primeira vez em Havana em fevereiro de 2012. Quando o avião dos emissários do governo estava a ponto de decolar de volta a Bogotá, o grupo recebeu por celular uma mensagem dos guerrilheiros informando que, como gesto de boa vontade, interromperiam os sequestros.

A prática de sequestros tinha atraído o ódio da sociedade contra a guerrilha: são raros os colombianos sem uma história de parente ou conhecido que tenha sido morto ou sequestrado. Informes da Polícia Nacional computam, entre 1981 e 2003, 31 827 pessoas sequestradas no país, não só pelas Farc. A imprensa noticiou a suspensão dos sequestros em 26 de fevereiro de 2012, mas ninguém imaginava, naquele momento, que a medida fazia parte de negociações. No mês seguinte, o próprio Santos se reuniu em Havana com Fidel Castro e Hugo Chávez – este último em tratamento contra o câncer que o mataria –, pedindo apoio para o diálogo.

Depois de seis meses de reuniões secretas, o grupo estabeleceu os cinco pontos das negociações. “Tinha que ser uma agenda muito pontual, concreta, que abarcasse as reivindicações históricas das Farc, sem no entanto ceder em tudo; não poderia parecer que o governo pretendia negociar tudo – o modelo econômico, o status das forças militares”, disse Enrique Santos, num final de semana em Bogotá. “A contribuição de Jaramillo foi muito importante, pelos contatos que ele tem com especialistas internacionais, ingleses, israelenses, ex-guerrilheiros salvadorenhos, e pelas experiências frustradas da Colômbia.”

A abertura oficial das negociações só foi divulgada em 4 de setembro de 2012, dois anos e meio depois de iniciadas as conversas secretas. Enrique Santos se retirou e o presidente nomeou os negociadores oficiais. O chefe da comissão do governo é o ex-vice-presidente Humberto de la Calle. Político moderado, respeitado e carismático, é dele o papel de porta-voz. Jaramillo, o tímido, é o estrategista. Ainda integram a equipe principal um ex-diretor da Polícia Nacional, um ex-comandante das Forças Armadas e o presidente da Associação Nacional de Empresários.

Internacionalmente, a instauração do diálogo foi celebrada; no âmbito interno, Uribe passou a capitanear a oposição a um possível acordo: “O presidente Santos nos armou uma emboscada, fez todo o contrário do que ofereceu e hoje corremos imensos riscos”, disse. Documentos provam, porém, que o ex-presidente também tentara se aproximar das Farc. Uma carta de 5 de março de 2010 revela que o então alto-comissário para a Paz, Frank Pearl, propôs a Pablo Catatumbo e Alfonso Cano, secretários das Farc, encontros secretos no Brasil.  De acordo com um trecho da carta, “o Brasil garantiria, dentro do território brasileiro, a segurança e logística dos participantes do encontro secreto”.

Pearl propôs às Farc quatro possíveis localidades: Serra do Cachimbo, Formosa, Boa Vista e Porto Velho. Foram enumerados pontos positivos de cada uma das cidades, como “isolamento total, controle absoluto da FAB [Força Aérea Brasileira], afastamento das estruturas de inteligência”, bem como pontos negativos, como o fato de algumas delas serem capitais e todas estarem a distâncias que requereriam “voos longos”. O documento traz ainda as eventuais rotas de acesso ao território brasileiro: Cucuí, São Joaquim, Querari, Pari-Cachoeira, Vila Bittencourt, Tabatinga, Ipiranga e Iauretê.

As Farc não aceitaram dialogar com Uribe.

 ***

Todo dia, às oito da manhã em ponto, uma van estaciona no Hotel Palco. Os guerrilheiros são sempre os primeiros a chegar e invariavelmente fazem um comunicado à imprensa. Cerca de meia hora depois, carros oficiais trazem os representantes do governo colombiano, que procuram falar o mínimo possível. Quatro garantidores – dois de Cuba e dois da Noruega, país com tradição na mediação de conflitos – também integram a comitiva, para observar as conversas e afiançar o que é acordado.

A escolha de Cuba como sede da mesa negociadora não só é politicamente confortável para a guerrilha como a resguarda do escrutínio da imprensa. Na ilha, os guerrilheiros podem sair para beber e comer quando querem. Costumam fazer caminhadas pela manhã para manter a forma. Os negociadores do governo passam dez dias na ilha e voltam para descansar outros dez em Bogotá. Em Havana, as duas equipes são alojadas no mesmo complexo destinado a hóspedes estrangeiros, cedido pelo governo cubano, mas não compartilham nenhuma área comum. Todos os encontros têm data e local marcados.

 

N
a manhã de 25 de fevereiro, uma terça-feira, em Havana, Rodrigo Granda, codinome Ricardo Téllez , está de pé num púlpito, montado em frente a um cartaz afixado à parede que anuncia “Diálogos de Paz”. O chanceler das Farc está prestes a fazer um pronunciamento.

Em seu discurso, Téllez defendeu uma política antidrogas que combata os grandes narcotraficantes e apresente uma alternativa econômica para os envolvidos em “microtráfico”. Já os dependentes químicos devem ser tratados como parte de uma política de saúde pública, “vítimas da organização criminosa transnacional de tráfico de drogas”. Dos cinco pontos da agenda definida em 2012, o tráfico é o terceiro a ser posto na mesa de negociações.

O primeiro foi a reforma agrária, a principal bandeira das Farc e um problema real na Colômbia. Para o governo, é vantajoso aproveitar a energia envolvida no processo de paz para fazer as reformas no campo, até hoje atravancadas pelo lobby agrário. Em torno de 77% das terras do país estão nas mãos de 13% dos proprietários, enquanto 70% dos alimentos produzidos vêm de pequenos agricultores. O nível de pobreza na área rural é o dobro do encontrado nos centros urbanos. Pelo combinado, o governo criará um fundo de terras improdutivas para “regularizar os direitos de propriedade” e “desconcentrar e promover uma distribuição mais equitativa da terra”. Como complemento, promete fomentar linhas de crédito e investir na defasada infraestrutura do campo. Para chegar a um acordo sobre esse primeiro ponto, a mesa levou sete meses. E nada será colocado em prática ainda. “Nada está acordado até que tudo esteja acordado”, costuma dizer Jaramillo.

O segundo ponto, que demandou mais seis meses de negociações, é o da participação política, que discutiu instrumentos para evitar que, uma vez transformadas em movimento político legal, as Farc passem pelo massacre que exterminou a União Patriótica. “É necessário que nossa pátria respeite o direito à vida, à diferença, à oposição política, que não sejamos estigmatizados e possamos debater ideias sem medo de assassinatos, perseguições, desaparecimentos ou criminalizações”, disse Iván Márquez, o negociador-chefe das Farc, quando o assunto estava em pauta. Sergio Jaramillo resumiu esse ponto assim: “Nós nos colocamos em acordo para depois podermos ficar politicamente em desacordo.”

Esperava-se que desse tópico saíssem respostas mais objetivas a questões concretas: Os guerrilheiros poderão se candidatar? Terão de cumprir pena ou serão anistiados, como ocorreu com a guerrilha em El Salvador? Mas as decisões foram divulgadas sem muitos detalhes concretos, adiados para uma discussão futura. Tudo é lento.

Nos bastidores, fala-se que debater agora a questão das drogas é uma estratégia do governo para descobrir as grandes rotas do tráfico que as Farc, se não as dominam, poderiam identificar. “Se soubéssemos de uma rota por onde podem sair três ou vinte aviões, como não as usaríamos para voltar com armas?”, retrucou Jesús Emilio Carvajalino, mais conhecido como Andrés París, que tem um alerta vermelho na Interpol por sequestro, uso de arma de fogo e conspiração para fornecer apoio material a terroristas. “Nosso principal investimento é em armas. Em geral caímos quando tentamos entrar com munição.”

París é um guerrilheiro do Caribe colombiano, tem 59 anos, é baixinho e rechonchudo, usa óculos redondo e ostenta um farto bigode. Lembra muito o tesoureiro da campanha de Fernando Collor, Paulo César Farias. Entre uma e outra tragada nos charutos cubanos que fuma sem parar, revela um sorriso escurecido e pícaro, como o de um pirata. Ele é um dos cinco negociadores plenipotenciários das Farc.

Ao falar sobre os métodos da guerrilha para introduzir armas no país, París sentenciou, irônico: “Quanto a isso, não temos limites. Se podemos consegui-las em Marte, vamos até lá.” Em seguida emendou, mais sério: “Já trouxemos por terra, pelo mercado negro, por mar, já compramos de setores corruptos das forças militares.” Admitiu que as Farc cobram impostos dos comerciantes que compram folha de coca dos agricultores, mas negou que a guerrilha seja um grupo narcotraficante. “Rechaçamos o narcotráfico. O que acontece é que o narcotráfico é uma realidade econômica. Quando começou esse fenômeno, a Colômbia foi inundada por comerciantes de droga, que estenderam os cultivos por todo o território nacional. E nós estamos em meio a uma realidade sociocultural e econômica onde existem cultivos.”

 

Cada 150 quilos de folha de coca pode render até 2 quilos de pasta base de cocaína. Um quilo de pasta base custa cerca de mil dólares na Colômbia. Cristalizada em cocaína com 90% de pureza e vendida nacionalmente, esse valor pode duplicar. Nos países vizinhos, quadruplica. Nos Estados Unidos, o quilo pode valer 25 mil dólares. Na Inglaterra, até 60 mil. Sem contar que, na ponta, o produto é misturado a outras substâncias para multiplicar o lucro. “Não participamos da segunda etapa, que é a comercialização, nem da terceira, que é o financiamento, onde estão os grandes lucros, quando o preço salta. A propaganda colombiana anuncia que o Exército destruiu não sei quantos laboratórios de cocaína, mas eles chamam de laboratório o que na verdade são casebres onde os camponeses jogam os primeiros insumos químicos”, disse París.

Em 2010, a Casa Branca estimou terem sido produzidas cerca de 286 toneladas de cocaína na Colômbia. As Nações Unidas mencionam 377 toneladas. O governo colombiano estima que pelo menos 60% dessa produção ocorram em territórios controlados pelas Farc. Segundo o InSight Crime, um site de investigações sobre o crime organizado, as Farc são “talvez o movimento insurgente mais rico do mundo” e podem estar ganhando pelo menos 200 milhões de dólares com o narcotráfico a cada ano.

Uma vez superada a discussão sobre o tráfico de drogas, restarão mais dois pontos a serem debatidos: o fim do conflito de forma efetiva (cessar fogo bilateral e definitivo) e a situação das vítimas – o que poderá resultar na criação de uma comissão da verdade e na discussão sobre a pena para os guerrilheiros acusados de crimes.

Para chegar à paz, o governo ainda precisará negociar com o ELN, hoje com cerca de 1 500 integrantes, e superar as inevitáveis tensões decorrentes do término do conflito, uma fase que Jaramillo estima que não durará menos que uma década e pode ser a mais difícil de percorrer.

 ***

Bogotá fica 2 600 metros acima do nível do mar e é fria quase todo o ano, mesmo no verão. Yolanda González está no Centro da cidade, na hora do almoço de uma quinta-feira de fevereiro. Usa um colete à prova de balas por cima do casaco azul, e me conta por quê.

Eram cinco da manhã do dia 21 de janeiro de 2000 quando ela acordou com o barulho de um tiroteio. Morava em Santiago Pérez, um povoado no estado de Tolima, no sudoeste colombiano. Estava em casa com três de seus cinco filhos, duas meninas, de 10 e 11 anos, e o caçula de apenas 1 ano, quando homens uniformizados e armados começaram a bater à porta com violência. Eram guerrilheiros das Farc.

Yolanda, os filhos e os vizinhos foram acuados em uma plantação de tangerina na divisa do povoado até as 10 horas, quando cessou o tiroteio que matou guerrilheiros, paramilitares e quinze conhecidos dela. Muitos moradores foram expulsos da cidade naquela mesma manhã. Posteriormente, soube-se que a tomada do lugarejo fazia parte de uma estratégia das Farc para marcar presença no sul do estado de Tolima, e assim controlar o corredor que liga a costa do Pacífico aos Andes, na fronteira da Venezuela.

Naquela manhã, uma guerrilheira disse a Yolanda que, se quisesse continuar vivendo em Santiago Pérez, ela teria de pagar 500 mil pesos mensais (578 reais no câmbio atual) de imposto pelo lucro do bar de sinuca e das plantações da chácara que possuía, além de entregar os dois filhos mais velhos à guerrilha. A emissária ainda acrescentou que os meninos seriam educados e trabalhariam nas fileiras, tomando conta do povoado. “Eu respondi que tudo bem, pedi quatro dias para buscá-los na casa da avó, em outra cidade.” Naquela madrugada, Yolanda fugiu de casa com 160 mil pesos (184 reais) e nunca mais voltou ao povoado onde nasceram as três últimas gerações de sua família.

Por dois anos, ela e os filhos, ao lado de 300 famílias expulsas de cidades vizinhas, viveram sem banheiro, água ou luz, num lote que invadiram em Ibagué. Ali, Yolanda viu o pai agonizar por meses até morrer de câncer, e não pôde lhe oferecer nenhum tratamento que amenizasse a dor. Foi ainda em Ibagué que ela passou a sofrer ameaças e decidiu fugir para Bogotá.

Yolanda é uma entre 5 milhões de colombianos (10% da população) que foram deslocados pelo conflito interno, expulsos ou em fuga das áreas de guerra. A Colômbia é, depois da Síria, o país com o maior número de refugiados internos no mundo.

Em 2011, o governo aprovou a Lei de Vítimas, que, entre outras medidas, tenta devolver terras a seus donos. Dos 45 mil pedidos de restituição encaminhados ao Ministério de Agricultura, até hoje apenas 666 receberam aprovação. Desses, só três famílias regressaram; as demais não se sentem seguras para voltar para casa. Desde 2008, 43 líderes de associações que reclamam terras foram assassinados no país. É esse tipo de desafio que a Colômbia viverá no período pós-conflito: a criação de leis que abarquem os acordos negociados em Cuba e a garantia de que tais leis sejam cumpridas.

Em junho de 2012, quando as negociações ainda corriam em sigilo, o Congresso também aprovou o Marco Jurídico para a Paz. Arquitetado por Sergio Jaramillo, é um dispositivo legal que, partindo da impossibilidade de investigar todos os delitos cometidos em cinquenta anos de confronto, cria leis transitórias com mecanismos de investigação e punição, mas também prevê anistia para acusados de patente mais baixa, militares e guerrilheiros. Por pressões de organizações de direitos humanos como a Human Rights Watch, o marco foi modificado pela Justiça, que garantiu ao Congresso Nacional poderes para conceder anistias, mas não aos responsáveis por crimes de lesa-humanidade, como torturas, massacres e violações sexuais.

“O que ninguém pode dizer é que haverá impunidade”, disse Jaramillo. “Os que insistem em afirmar o contrário, em pensar que se pode investigar cada uma das violações ocorridas em cinquenta anos de guerra, francamente, esses estão dizendo mentiras. O que vamos encontrar ao final é uma impunidade de fato.”

 

No último dia 12 de março, Juan Manuel Santos começou a campanha pela reeleição com o lema Hemos hecho mucho, falta mucho por hacer. Além das promessas de transformar a Colômbia até 2025 no país com o melhor índice de educação da América Latina e em dez anos erradicar a miséria, pretende firmar um acordo de paz com as Farc. Operado recentemente de um câncer de próstata, Santos sofreu uma incontinência urinária no meio do discurso inaugural da campanha, mas conseguiu contornar o caso numa coletiva de imprensa que convocou para o dia seguinte, quando se apresentou ao lado de seu médico oncologista.

Apesar de ser o favorito nas pesquisas, o presidente conta com apenas 28,3% das intenções de voto e tem um alto índice de rejeição. Sua vantagem é não haver um rival mais competitivo na disputa. Seus principais adversários são o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, do Partido Verde, e o candidato de Uribe, Óscar Iván Zuluaga, cuja campanha está a cargo de Duda Mendonça, o marqueteiro de Lula em 2002. Ambos têm em torno de 16% nas pesquisas, enquanto o voto em branco passaria de 17%. A eleição é em dois turnos.

Uribe foi o grande vencedor das eleições legislativas realizadas em março. Além do próprio ex-presidente, seu partido elegeu outros dezenove senadores – um a menos que a coalizão de Santos. Se é verdade que a bancada uribista pode atrapalhar a aprovação de eventuais leis de apoio ao que for acordado em Havana, o analista Jorge Restrepo acredita que a oposição de Uribe, “que vive da política do medo”, acabará por legitimar o que for aprovado. “Oposição ao processo é sempre saudável, mas é importante que seja uma oposição parlamentar. Se o projeto político de Uribe fracassa, os opositores podem chegar às vias de fato.”

Restrepo acredita que a reeleição de Santos será uma garantia da continuidade, sem sobressaltos, das conversas em Havana. Porém, se o governo demorar muito para chegar a um acordo final, a população ficará cada vez mais cética. Quando Santos anunciou os diálogos, disse que o pacto poderia ser firmado em um ano, mas vinte meses depois ainda se discute o terceiro dos cinco pontos. “Temos que firmar um acordo até o final do ano, no mais tardar em dezoito meses, ou as pessoas vão começar a pensar que se trata de um novo Caguán”, admitiu Jaramillo.

As reuniões em Cuba se arrastam sempre tensas. Os guerrilheiros tendem a fazer discursos retóricos, longas contextualizações históricas, digressões infinitas. Um participante me disse que uma reunião pode ser “desesperante”. Por outro lado, a cobrança de Jaramillo por conversas ágeis e objetivas é o que mais incomoda os guerrilheiros, que dizem se sentir pressionados. “Você diz que somos stalinistas, mas ele é pior que o Stálin”, falou um dos guerrilheiros para Enrique Santos, referindo-se ao metódico comissário.

 

Na semana em que acompanhei a mesa de diálogo em Havana, dois guerrilheiros me disseram estar lendo os escritos de Simón Bolívar, o líder da independência de boa parte da América hispânica. Foi também lendo Bolívar que Jaramillo tirou inspiração para a Política de Segurança Democrática que desestabilizou a guerrilha no governo Uribe. “O grande problema histórico é esse: como assentar a ordem constitucional em todos os rincões de um território enorme e acidentado, onde todo morrinho tem uma casa em cima e onde vastos campos – las soledades de Colombia de que falava Bolívar – estão à disposição de quem quiser se dedicar a qualquer atividade ilegal. Bolívar e Santander entenderam que a resposta está em ter um governo enérgico”, escreveu Jaramillo no jornal El Tiempo, ao defender o programa.

Em Havana, ele estava relendo, em alemão, as Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke. Disse que aqueles poemas – alguns com até dez páginas – contribuíam para que ele ficasse alerta. “Em geral, as pessoas são muito autocentradas. Aqui é preciso pensar no que o outro está pensando, e no que o outro está pensando que eu estou pensando. É um exercício de extrapolação, que ajuda a pensar diferente, encontrar pontos de intersecção. É um clichê, mas é verdadeiro.” Bertolt Brecht escreveu algo parecido: “Ele pensava dentro de outras cabeças; e na sua, outros, além dele, pensavam. Este é o verdadeiro pensamento.”

No intervalo de uma reunião recente,o grupo fumava e tomava café. O assunto enveredou para o futebol, e um dos representantes noruegueses opinou que a seleção colombiana não era das melhores. Todos começaram a contestar e logo se instaurou uma algaravia. Não se deram conta de que, pela primeira vez, encontraram um ponto de intersecção sem precisar discutir. Defendiam a mesma coisa: todos a favor da Colômbia.

Carol Pires
Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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