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    CRÉDITO: ALLAN SIEBER_2022

questões vultosas

A insurreição permanente

O crucial para Bolsonaro nos próximos anos será manter sua base mobilizada, motivada e fiel

Miguel Lago | Edição 193, Outubro 2022

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Este artigo é o terceiro de uma série analítica sobre as eleições de 2022

Em outros tempos, já estaríamos reclamando do Tite por não ter definido a escalação dos onze, pois faltam menos de dois meses para a Copa do Mundo. Neste ano, porém, a política ocupou tanto a consciência dos brasileiros que eles parecem mais interessados na corrida eleitoral que na Seleção canarinho. Até a camiseta do time é usada agora não para homenagear a equipe, mas como traje de comícios. “Seremos campeões do mundo?” Essa deveria ser a questão principal em 2022. Mas não é. Ou, por se tratar de ano de eleições, a pergunta dominante seria: “Quem ganhará a eleição para presidente?” Mas também não é. Neste momento tão atípico a questão definidora passou a ser: “Conseguirá Bolsonaro se manter no poder?”

O desfecho do primeiro turno deu-se depois do fechamento desta edição da piauí, razão pela qual escrevo sem saber o resultado. Mesmo assim, é possível dizer que, para a pergunta sobre a permanência de Bolsonaro no poder, existem três respostas possíveis. Uma vitória de Bolsonaro dará continuidade ao seu governo desastroso. Uma derrota pode ser o início de uma espécie de insurreição, em que ele convoca o apoio de seus seguidores para, contra as instituições, manter-se no poder. Por fim, se ele perder, mas desistir da insurreição, talvez faça pronunciamentos e performances públicos rejeitando as eleições, mas sem grandes consequências práticas, exceto a de fidelizar ainda mais seus eleitores e pavimentar o caminho para seu retorno em 2026.

 

O primeiro cenário tem sido longamente discutido por analistas políticos e, às vésperas da eleição, havia mesmo quem acreditasse que Bolsonaro tinha chances de vitória no pleito. Seu piso eleitoral nunca foi baixo. Mesmo nos piores momentos do governo, sua aprovação jamais ficou abaixo dos 20%. É uma resiliência admirável. Além disso, a economia, após dois anos catastróficos, apresenta agora uma leve melhora, o que, no entanto, não foi capaz de reduzir a rejeição ao candidato. Em terceiro lugar, como incumbente, teve a máquina estatal na mão e mostrou disposição para usá-la – até mesmo inconstitucionalmente, como no caso da PEC Kamikaze – para ganhar votos. Finalmente, vale destacar que as oposições até hoje não conseguem enxergar direito Bolsonaro. E quem não o enxerga não consegue combatê-lo.

A reação dos antibolsonaristas ao que ocorreu no Sete de Setembro não poderia ter sido mais exemplar. Na comemoração dos 200 anos da Independência, transformada em comício nacional, Bolsonaro colocou milhares de pessoas nas ruas. Em vez de encarar a realidade de que ele é muito forte, as oposições fizeram de tudo para desdenhar das manifestações, dizendo que não tinham reunido muita gente ou que os presentes eram todos brancos e não havia trabalhadores entre eles (o que está longe de ser verdade). Outros salientaram que Bolsonaro estava isolado politicamente, pois nem os líderes dos poderes Legislativo e Judiciário compareceram à cerimônia oficial em Brasília. Como é possível ele estar “isolado”, em meio ao mar de seguidores? A ilusão das oposições chega às raias da irresponsabilidade.

 

No segundo cenário, com Lula eleito, Bolsonaro promove uma insurreição para se manter no poder, implantando um autêntico estado de exceção. Muito se falou em autogolpe e alinhamento das Forças Armadas com o presidente. Mas não se sabe se os chefes militares estão todos ao lado de Bolsonaro, nem se estariam dispostos a praticar um golpe de Estado – o que é altamente improvável. Golpes militares saíram de moda, ao menos na forma antiga, no estilo dos pronunciamientos, em que após uma rebelião militar segue-se a adesão do conjunto das Forças Armadas. Mais improvável ainda é que militares saiam às ruas para defender a democracia, no caso de uma insurreição promovida pelos seguidores do presidente. E é apenas disso que Bolsonaro precisa: que os militares permaneçam quietos em seus quartéis, sem se meter na balbúrdia dos bolsonaristas.

 

Para preparar um golpe, é necessário apoio das elites e da cúpula do Exército. Foi assim em 1964, quando grande parte do empresariado, dos generais e da imprensa apoiou a derrubada do governo João Goulart. O cenário atual é muito diferente. Uma parte significativa da elite defende as instituições – o que ficou claro com a divulgação da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito, em 11 de agosto passado. Os mais importantes veículos de imprensa são hoje legalistas.

Desde o início de seu mandato, Bolsonaro se comportou não como presidente, mas como líder de uma revolução. Em vez de construir novas políticas públicas, focou na destruição das existentes. Em seu terceiro mês no cargo, disse que seu governo não era para construir nada, mas para “desconstruir muita coisa”. O desmantelamento do Estado que se seguiu lhe proporcionou disputas e oportunidades para engajar seus seguidores. Cada etapa de destruição se configurava como uma batalha do “bem” contra o “mal”, levada a cabo por “mocinhos” que agiam contra “bandidos”.

As atitudes de Bolsonaro nunca seguiram a lógica que norteia as ações de um político, e sim as de um ativista. Diariamente, ele informa seus seguidores sobre as posições que tomou e depois os convida a agir na internet em favor do próprio Bolsonaro e contra seus inimigos. Por fim, vai às ruas para se manifestar, na condição de presidente da República. Bolsonaro construiu uma infraestrutura de mobilização de milhões de pessoas que nutrem uma relação muito intrigante com seu líder. Ele se comporta como um influenciador, cujas atividades na dimensão offline são pensadas, estruturadas e realizadas de forma a gerar dividendos na arena digital. Decretos, projetos de lei, pronunciamentos, manifestações, alianças, tudo é pensado para contar uma história no universo online. Quanto mais ardentes, radicais e controversas são suas palavras e ações, mais engajamento elas geram.

 

Bolsonaro não só mobiliza seu eleitorado como o fortalece estrategicamente. O apoio que recebeu das igrejas neopentecostais se converteu em importantes cargos nos ministérios para as lideranças religiosas (como a pasta da Educação, a da Cidadania e a da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e, sobretudo, no Supremo Tribunal Federal). Com a PEC Kamikaze criou novos benefícios sociais para segmentos da população no período eleitoral (de agosto a dezembro) para tentar reduzir a forte rejeição entre a população mais pobre e reforçar o apoio de taxistas e caminhoneiros, seguidores aguerridos do presidente.

Bolsonaro trabalhou ativamente para armar a população. Em 2018, cerca de 100 mil civis tinham licença para a posse de armas. Em 2022, eram quase 700 mil. Isso significa que, atualmente, temos mais civis com armas no país do que profissionais ativos das Forças Armadas (cerca de 350 mil) ou policiais militares (pouco mais de 400 mil). Uma parcela substancial dos novos donos de armas adora o presidente e está organizada em uma vasta rede de mais de 2 mil clubes de tiro (em 2018 eram apenas cerca de 150), muitos dos quais fizeram convocações para protestos contra o Supremo Tribunal Federal (STF) no ano passado. O presidente do Movimento Proarmas, Marcos Pollon, conclamou os atiradores a se levantar contra Lula e o STF.

Entre os policiais, Bolsonaro também é muito popular. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que 51% dos praças da Polícia Militar interagiam em páginas bolsonaristas nas redes sociais, em 2021. O verdadeiro partido político de Bolsonaro é essa rede de pessoas armadas – sejam civis ou agentes do Estado. É uma rede vibrante, capilarizada e altamente engajada.

Assim, Bolsonaro foi reunindo todos os possíveis ingredientes para uma insurreição bem-sucedida. E o que mais chama a atenção é que não existe nenhuma força com poder suficiente para se opor a isso. Afinal, quem impedirá a insurreição? O Exército? Provavelmente não, em vista dos numerosos apoiadores de Bolsonaro nas Forças Armadas, sem contar os mais de 6 mil militares que trabalham em seu governo, ocupando cargos civis. Um relatório recente mostrou que cerca de 1,6 mil militares recebiam mais de 100 mil reais líquidos por mês – três vezes o teto salarial do governo federal. Não há sinal de que as Forças Armadas reajam a uma tentativa de insurreição da parte de Bolsonaro.

Também é improvável que as forças democráticas possam resistir. Apesar de toda a popularidade de Lula, as esquerdas parecem ter perdido a capacidade de colocar as massas na rua. Como bem apontou Eugênio Bucci, em texto recente no jornal O Estado de S. Paulo: “A velha gramática dos protestos virou de ponta-cabeça.” Manifestações contra Bolsonaro não têm a magnitude, o entusiasmo e a energia das demonstrações da extrema direita. Existe ainda o medo. Como ir às ruas, se o outro lado está armado e pronto para atirar, como demonstram os assassinatos políticos recentes?

Mas de que maneira se daria na prática uma insurreição bolsonarista? Se Lula for vencedor, Bolsonaro dirá que a eleição foi fraudada e se recusará a deixar o Palácio do Planalto. Bolsonaristas logo sairão às ruas para protestar contra o “roubo”. Não se pode descartar a eclosão de motins das polícias pelo país, como ocorreu em 2019 e 2020, e o bloqueio de estradas por caminhoneiros, como vimos em 2018. A eles poderiam se juntar boa parte dos 2 mil clubes de tiro e os milhares de pessoas que detém licença para a posse de armas. O prédio do STF seria ocupado, bem como os palácios de governadores da oposição. Opositores seriam presos. Bolsonaro decretaria estado de emergência e colocaria o Exército nas ruas – por meio de uma medida provisória, feita a pretexto de manter a ordem pública. E passaria a governar em estado de sítio durante algumas semanas, quiçá meses.

Por melhor que Bolsonaro seja em engajar sua militância, não é tarefa fácil conduzir uma revolução até o fim. Após a destruição de prédios públicos e da prisão de opositores, o que seria possível fazer? Parte importante da imprensa e da elite financeira e industrial provavelmente se manifestaria contra. Os governos das maiores democracias do Ocidente talvez protestassem contra a usurpação do poder. A confusão política teria repercussões imediatas na nossa moeda e no fluxo de investimentos estrangeiros. Bolsonaro se veria, nos meses seguintes, em crescentes dificuldades para sustentar a tomada de poder. Como a aposta é arriscada demais, pode ser que ele prefira o terceiro cenário.

 

Nesse último cenário, Bolsonaro, derrotado nas urnas, contestaria o resultado e geraria um princípio de caos, mas evitaria provocar uma insurreição. Continuaria insistindo na fictícia fraude nas urnas e convocaria seus militantes para protestar nas ruas. Isso geraria alguma violência política, mas ele deteria o ímpeto revolucionário dos seus asseclas, da mesma maneira como fez no Sete de Setembro do ano passado, quando deu um “cavalo de pau” em seus apoiadores, desmobilizando as manifestações. Essa seria a tática mais inteligente e benéfica para o presidente, que estaria seguindo o modelo bem-sucedido de Donald Trump.

Em 2020, o então presidente norte-americano não reconheceu a derrota nas urnas e iniciou uma grande mobilização para contestar o processo eleitoral. Stop the steal (Parem o roubo) foi o slogan mais repetido por seus apoiadores. Trump sustentou intensamente a mobilização por algumas semanas, até chegar ao fatídico dia 6 de janeiro de 2021, quando, na diplomação do presidente eleito, Joe Biden, incentivou seus apoiadores a invadir o Congresso. Trump até hoje não foi devidamente responsabilizado – a CPI montada para investigar o caso tem sido muito bem conduzida, mas o processo é demorado. Por mais antidemocrático e violento que tenha sido, o 6 de janeiro não passou de uma performance de Trump para manter sua base engajada e não deixar que outra figura do Partido Republicano venha a tomar o lugar que ele ocupa no imaginário político dos seus seguidores.

Se for calculista como seu ídolo norte-americano, Bolsonaro, em caso de derrota, fará o mesmo. Os dividendos políticos que podem vir dessa decisão são claros. Ele precisará instigar uma mobilização poderosa e fazer de conta que está buscando meios pacíficos para invalidar o pleito. Dessa maneira, conseguirá segurar a fúria da sua base eleitoral, enquanto a mantém mobilizada.

Nos próximos anos, espalhará a ideia de que o governo Lula é ilegítimo, alegando que venceu por causa de fraudes eleitorais. Poderá articular uma oposição extraordinariamente mobilizada, capaz de paralisar o país de uma maneira que ainda não vimos na Nova República. Será uma oposição violenta, destrutiva, de deixar tucano com saudade de petista, e petista com saudade de tucano. O crucial para Bolsonaro será manter essa base mobilizada, motivada, e fiel exclusivamente a ele. Se conseguir, tem tudo para ganhar as eleições de 2026. Até porque dificilmente o virtual incumbente conseguirá apresentar um bom desempenho.

O próximo governo enfrentará uma economia sem capacidade de crescimento e de investimento, e uma aterrorizante situação social, educacional e sanitária. A máquina estatal, principal arma para combater os problemas da fome, da saúde e da escolarização dos brasileiros foi gravemente afetada nos últimos anos, com o desmantelamento da administração federal, o aparelhamento dos cargos técnicos por militares e militantes e a dispersão da mão de obra. Colocar as coisas no lugar não será tarefa fácil e exigirá muito empenho de reconstrução. Além disso, o Executivo enfrentará a concorrência do Judiciário e do Legislativo, ambos cada vez mais inclinados a disputar funções governamentais. Para piorar, terá que enfrentar uma oposição como nunca se viu, hiperconectada e mobilizada, com importantes aliados dentro do aparelho estatal (em particular da polícia) e armada até os dentes. Fazer um bom governo com todos esses empecilhos à frente será empreitada muito difícil, o que só aumentam as chances de retorno da extrema direita em 2026.

Dói constatar que, em qualquer cenário futuro, todas as perguntas giram em torno de Bolsonaro e seu movimento. O que será mais estratégico para ele? Aceitar a derrota e preparar-se para 2026 ou incitar à insurreição? Qualquer que seja a opção, é Bolsonaro, e não Lula, o personagem que ditará os próximos anos da política nacional. Derrotar o bolsonarismo deve ser a obsessão política dos próximos anos, comum a todos os democratas – de direita, centro ou esquerda.

 

Em qualquer desdobramento possível – Bolsonaro eleito, insurgente ou candidato em 2026 –, uma revolução está em marcha. Deixamos de viver na normalidade democrática. Aquilo que entendemos como aceitável dentro do jogo político se expandiu. Todos os marcadores de certeza, as fontes de legitimidade e as vozes de autoridade viraram fumaça. Teremos que conviver com essa nova realidade, que permanecerá com ou sem governo Bolsonaro.

A literatura em ciências sociais sugere que um acontecimento só pode ser qualificado como “revolução” com a distância histórica necessária. Não existe maneira de prever uma revolução, mas é possível identificar com maior propriedade aquilo que o sociólogo norte-americano Charles Tilly chama de “situação revolucionária”. No caso brasileiro, a sociedade passou por importantes transformações que contribuem para caracterizar um estado de coisas que seriam indícios de uma situação revolucionária.

A primeira grande transformação tem a ver com a fé de nossa gente. O Brasil conserva a posição de ser o maior país católico do mundo, mas essa realidade estatística não se traduz concretamente em política. Os católicos ainda são maioria (64,6%, segundo o último Censo, de 2010), mas quantos deles são católicos para valer? Quantos têm o catolicismo como identidade norteadora de seus comportamentos, escolhas e afetos políticos? O Brasil é majoritariamente católico por inércia.

O país está se tornando uma nação predominantemente pentecostal e neopentecostal. O dinamismo social e os principais influenciadores cristãos se encontram ao lado das igrejas chamadas genericamente de “evangélicas”. A teologia que muda os comportamentos da sociedade brasileira, sua maneira de consumir, de votar, não é a católica, mas neopentecostal.

A segunda grande transformação está relacionada à força produtiva mais dinâmica da nossa economia, o agronegócio – e não mais a indústria. As cidades da região Centro-Oeste se tornaram, em três décadas, ricas e modernas. O “agro”, como foi apelidado, prospera, com uma contribuição relevante, embora represente apenas 7% do PIB, como mostrou a reportagem O agro é top?, publicada na piauí_192, setembro de 2022.

Apesar de minoritário na economia, o agronegócio é majoritário em termos políticos. A força propulsora está nele, que vem organizando e produzindo conteúdo cultural – com a criação de centros de pesquisa em universidades, patrocínio à música sertaneja e veiculação de uma identidade própria. Promove valores muito mais alinhados ao “aventureiro” do que ao “trabalhador” – retomando os tipos ideais identificados por Pedro Meira Monteiro na obra de Sérgio Buarque de Holanda. A coragem e o desbravamento substituíram valores como disciplina, hierarquia e trabalho em equipe que a indústria impõe.

A terceira grande mudança é a da descentralização da produção de informação. Isso aconteceu no mundo inteiro, mas é particularmente forte no Brasil. Passamos de uma situação em que a produção de informação estava concentrada em pouquíssimas empresas para outra, em que quase todo cidadão com um smartphone se tornou um produtor potencial. O brasileiro é um dos que passam mais tempo nas redes sociais, e um estudo recente apontou que o Brasil é onde se encontra o maior número de influencers. Os influenciadores digitais têm suas atividades e, quanto mais sensacionalistas são, mais engajamento geram. Por outro lado, grande parte da população sequer tem acesso à internet.

 

Bolsonaro articulou muito bem essas três dinâmicas – da religião, do agro, do digital –, abraçou a força propulsora de cada uma, e enunciou uma visão de mundo. Construiu uma nova maioria política a partir dessas forças, que hoje estão conectadas entre si. Criou uma nova gramática política, delineou um novo programa da verdade e apresentou um horizonte de expectativas claro para esses segmentos da população.

Muitos dizem que é preciso mostrar aos empresários do agronegócio que Bolsonaro vai contra os interesses deles. Sobre isso, existe ampla evidência, mas não é esse o ponto. Quem vota em Bolsonaro não está necessariamente pensando em seus interesses, mas no voto como força de transformação da realidade. Vota-se não para delegar interesses a um representante na esfera política, mas como se clicasse o like em uma rede social. Ou seja, o voto seria mera demonstração de uma concordância com as opiniões de Bolsonaro.

A pergunta a ser feita é: “Como podemos evitar que essas dinâmicas se tornem hegemônicas nos próximos anos?” Com Bolsonaro reeleito, esse esforço caberá exclusivamente à sociedade civil. Não será suficiente resistir apenas, como se fez bravamente nos últimos quatro anos. Será preciso articular novos sujeitos políticos com grande capacidade de mobilização, aptos a se construírem politicamente e a produzirem lideranças no futuro próximo.

A política já não está atrelada apenas à melhoria das condições materiais de vida. Existem outros elementos, como os sonhos, ideais, expectativas, e nesse contexto a produção de discurso é também um fator de alinhamento político fundamental. A política que só se ocupa das condições materiais e deixa de lado a dimensão mais ligada ao “desejo” comete o mesmo erro dos governos tecnocráticos do passado. Com isso, deixa toda a construção de desejo na política para a extrema direita.

Com Bolsonaro derrotado, essa tarefa caberá também aos que tomarão posse. Para estancar a revolução bolsonarista em marcha, não bastará fazer um governo consensual como foi o de Lula anteriormente, ou de união nacional, como o de Itamar Franco. Não há desenvolvimento econômico possível, crescimento ou melhora nas condições de vida que fará com que o bolsonarismo deixe de existir. Mesmo num país em que a vida prospera, ele continuará forte.

O próximo governo precisará ter no combate ao bolsonarismo o denominador comum de uma ampla coalizão de forças antagônicas, de esquerda, centro e direita. Esse combate não deverá se dar no plano simples da retórica ou na forma de uma caça às bruxas – como foi o caso do antipetismo –, mas precisará constituir um trabalho estratégico de desidratação do bolsonarismo. Trata-se de combatê-lo de maneira pacífica, honesta e positiva, por meio do fortalecimento da democracia, e não apenas das instituições, como foi feito ao longo da Nova República. Para fortalecer a democracia, precisamos construir uma sociedade democrática.

Ora, não pode haver uma sociedade verdadeiramente democrática quando o poder de um cidadão ameaça a existência de outro. A mais importante missão da democracia não é realizar eleições ou garantir o direito à propriedade, mas proteger o cidadão frágil em toda e qualquer circunstância. O próximo governo deveria fazer, logo nos primeiros meses, um pacote de medidas de choque para a proteção da fragilidade.

A primeira medida é desarmar a população imediatamente, seja proibindo o porte e a posse de armas, seja taxando exorbitantemente a indústria de armamentos. A segunda é reduzir o dinamismo dos três eixos do qual se alimenta o bolsonarismo: todos, sem exceção, recebem generosos benefícios fiscais.

Rever os subsídios diretos e indiretos do agronegócio é uma necessidade de ordem democrática. O setor é causador de importantes externalidades negativas – quando uma atividade impõe um efeito negativo aos que não estão envolvidos nela – e não nos indeniza por isso. A título de exemplo, as constantes e sucessivas flexibilizações de agrotóxicos poluem a água que consumimos em nossas cidades, são fatores de risco para a população e quem paga é o contribuinte, por meio do SUS. Enquanto isso, sobra dinheiro no setor para fazer marketing e melhorar a imagem do “agro”, bem como para difundir massivamente nos meios de comunicação o estilo sertanejo, a fim de torná-lo cada vez mais hegemônico na cultura brasileira. Compensar esse desequilíbrio é papel do Estado.

No caso das igrejas neopentecostais, a organização empresarial que algumas adotam representa um problema para outras igrejas com menor poder econômico e, sobretudo, para a democracia. A intolerância religiosa promovida por algumas delas também não pode ser tolerada. É necessário que o próximo governo coíba esse discurso de ódio e assegure efetivamente a liberdade religiosa no país. Com o objetivo de manter o pluralismo religioso característico do Brasil, é preciso rever a relação do Estado com as grandes corporações empresariais eclesiásticas e garantir que elas atuem conforme os princípios constitucionais. A política tem que parar de contaminar a religião, e vice-versa.

Por fim, o ambiente hiperconectado das redes sociais, que gera os influenciadores digitais, deveria ser mais bem regulado. Reduzir os incentivos para a propagação de discursos de ódio e de fake news é condição necessária para começarmos a imaginar uma sociedade democrática.

Para além dessa agenda defensiva, é preciso criar uma agenda ofensiva, em que os serviços públicos, como educação, saúde e moradia, se universalizem verdadeiramente e sejam dotados de qualidade. Não há como sustentar uma sociedade democrática com os níveis de desigualdade social e racial que existem no país.

Seja qual for o resultado – com Bolsonaro eleito ou derrotado –, o bolsonarismo seguirá ameaçando as instituições e a cidadania. O futuro da democracia no Brasil dependerá como nunca das ações enérgicas dos que se opõem à extrema direita e de um esforço incansável da sociedade civil em busca de um maior equilíbrio de forças.

Miguel Lago
Miguel Lago

É cientista político e diretor executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps). Cofundador do Meu Rio e do Nossas, lecionou na Universidade Columbia e na Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade Harvard.

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