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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025

esquina

A língua do contra

O dialeto criado no Rio para driblar a repressão

Maria Júlia Vieira | Edição 225, Junho 2025

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O sambista e produtor de eventos Marcelo Paxu carrega na mão direita o apelido de infância que adotou como sobrenome. Por chupar os dedos quando pequeno, ele era chamado de Pachu Dode. Não precisou explicar a origem dessa curiosa alcunha a Dioclau, o tatuador que desenhou as letras P-A-X-U em suas falanges. Os dois são amigos e compartilham a cultura muito particular que nasceu no KGL– sigla usada por pichadores, amantes da poesia slam, skatistas e rappers, para designar a região dos bairros do Catete, da Glória e da Lapa, no Rio de Janeiro. E ambos, tatuador e tatuado, são fluentes na linguagem popular da região, a gualín.

Forma de comunicação cifrada, a gualín é composta por inversões silábicas. “Chupa-dedo” converte-se em “Pachu Dode”. “Cláudio”, nome do tatuador, vira “Dioclau”. E, claro, “língua” vira “gualín”. O estúdio onde Dioclau trabalha fica no TTK, inversão da sigla KTT (por extenso, Catete). No mesmo dia em que esteve lá para marcar sua alcunha nos dedos, Paxu – que no registro de nascimento é Marcelo Gimenez – decidiu tatuar no antebraço uma entidade da umbanda: Zé Pelintra, que é também “patrono” da malandragem, com seu chapéu inclinado e o impecável terno branco.

Foi na Glória que Marcelo Paxu, de 54 anos, criou o Sambastião, uma roda de samba que existe há mais de uma década. Também foi nesse bairro que ele cresceu, ouvindo o pai e os tios conversarem com as sílabas invertidas, em situações cotidianas. Assim como aprendeu o português, quase sem perceber, entre conversas na cozinha, gritos na rua e risadas no intervalo da escola, Paxu se tornou também fluente em gualín.

 

 

Na origem, o dialeto era uma linguagem de disfarce, empregado por aqueles que viviam (e ainda vivem) à margem – dos malandros da Lapa aos pichadores da Glória. O pesquisador Felipe Vital, doutorando em linguística pela UFRJ, levanta a hipótese de que a gualín já circulava nas redondezas do Palácio do Catete nos tempos de Getúlio Vargas (de 1930 a 1945, e depois de 1950 a 1954).

Os primeiros registros documentais, porém, remontam à ditadura militar. “No início, foi desenvolvida nas prisões: ela acabou conectando presos políticos e presos comuns. À medida que alguns deles foram libertados, a gualín passou a ser reproduzida e falada nas ruas como uma forma de resistência”, diz Vital, de 32 anos.

Nessa época, “polícia” transformou-­se em “acilipo”, e “esconderijo” em “joridecones”. A inversão silábica permitia que os moradores se comunicassem sem receio da censura ou de denúncias de informantes. Com o endurecimento do regime a partir do AI-5, em 1968, o dialeto se expandiu.

 

O TTK já foi o centro político do Brasil: entre 1897 e 1960, o Palácio do Catete abrigou a sede da Presidência da República. Depois da mudança da capital para Brasília, o bairro perdeu poder, mas não a agitada vida social, que se espalha por toda a região do KGL, com seu comércio variado, os muitos bares e restaurantes, as rodas de samba e choro, os ambulantes, as turmas da pichação – ou “xarpi”, no dialeto gualín –, do rap, do hip-hop e do skate. A gualín funciona como um “idioma” particular de algumas dessas tribos urbanas.

Vital prefere classificar a gualín co­mo um “socioleto”, ou seja, “uma forma particular de falar uma língua que caracteriza um determinado grupo social”. Ele diz que a gualín também cabe no conceito de “ludolíngua”, um tipo de manipulação lúdica da linguagem, que tem entre seus principais representantes o verlan francês e o vesre peruano, que também recorrem à inversão silábica (verlan vem de l’envers, o inverso; vesre vem de revés, que é também o inverso).

O doutorando em linguística diz que, nos últimos tempos, a gualín vem encontrando novos meios de transmissão. Criatura das ruas, conquistou outro território: a internet, através da qual – e com a ajuda fundamental do rap – a cultura do KGL se espalhou para além dos limites físicos do Catete, da Glória e da Lapa.

 

 

Lançado em 2018, o álbum Audaz, do rapper carioca Filipe Ret, traz a faixa Gonê, escrita inteiramente em gualín. O videoclipe da música, com legendas que traduzem as palavras invertidas, acumula 3,8 milhões de visualizações no YouTube.

O rapper Sain, também carioca, contou em entrevistas que passou horas treinando a gualín em casa, até que a comunicação nesse código se tornou natural. No documentário Tributo ao TTK – título que vem de uma de suas músicas –, Sain diz, em tom jocoso, que Filipe Ret é um “psicopata” por conseguir rimar em gualín, como no caso das seguintes assonâncias da música Gonê (Nego), na qual fala de seu filho Theo:

Mas moco ser lizfe?

Doven o vopo na damer mais mau zve.

Silbra sem tojei, tetanvolre.

Tosin que o Othe ceunas no domun [dorrae.

(Mas como ser feliz?/Vendo o povo na merda mais uma vez/Brasil sem jeito, revoltante/Sinto que o Theo nasceu no mundo errado.)

No documentário, rindo, Ret responde a Sain que é tudo muito fácil: basta pensar no final da palavra, como nas rimas tradicionais, mas com as sílabas trocadas. Nos espaços de comentário dos vídeos desses rappers nas redes sociais, muita gente também emprega a gualín. Quem já fala, reconhece. Quem não entende, tenta aprender.

O refrão do rap de Filipe Ret sintetiza o espírito da linguagem de sílabas invertidas: Davi que guese, gonê. Vida que segue, nego. No batuque do samba, na cadência das rimas do rap ou no traço do pixo, a gualín continua viva, veloz e inventiva.

Maria Júlia Vieira
Maria Júlia Vieira

É produtora do Foro de Teresina.

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